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Pânico

Redação
| Tempo de leitura: 8 min

"Eu tenho o Transtorno do Pânico"

"Tenho 19 anos e minha primeira crise aconteceu no dia 3 de março de 1996. Para mim, a partir desse dia nasceu outra pessoa. Foi de repente, na época em que o grupo "Mamonas Assassinas" morreu. Não que eu gostasse do grupo, mas eu parei para pensar que se eles morreram de uma hora para outra, eu também poderia morrer. Todo mundo sabe que vai morrer, mas todo mundo pensa que vai morrer com 80 anos e não amanhã. Pode até pensar, mas não leva tão a sério, não deixa a pessoa com fobia e isso me deixou com fobia, pensar que eu poderia morrer a qualquer momento. Foi assim que aconteceu a primeira vez, o coração começa a disparar, dá taquicardia, começa a dar falta de ar, suar a mão, tremer, você tem a sensação de que vai morrer, você quer ir logo para um hospital, mas mesmo indo para o hospital, você tem a sensação de que ninguém vai te ajudar, porque quem tem o Transtorno do Pânico tem a sensação de morte e a sensação de que vai ficar louco. Eu tinha medo da morte e sentia que ia morrer. Passei por vários médicos, fiz muitos exames de coração, de cabeça, vários, vários, vários médicos e exames e sempre deu negativo.

Para mim isso é pior que a aids, pior que qualquer outra doença, porque uma doença você sabe o que você tem e se medica, mas o Transtorno do Pânico não tem cura, não sabe de onde vem, do nada te dá uma sensação...ah, não sei, é uma coisa horrível, horrível. (...)

Eu tomo nove comprimidos por dia e faço terapias. Tenho que tomar ansiolítico, antidepressivo, porque eu tenho ansiedade, depressão. O que eu sinto é isso: muita ansiedade. Teve um dia que eu fui conseguir dormir às 10 horas da manhã porque eu não conseguia ficar parada, eu ficava andando pela casa, saí na rua para andar, de tanta ansiedade. (...) Eu quase perdi meu emprego porque já tive crises no trabalho e eu queria ir embora. E não dá para explicar porque quem nunca sentiu, não sabe o que

é, parece que você sai da realidade, parece que é um sonho.

Minha psicóloga me fala você não vai ficar louca, quem fica louca não percebe. A esquizofrenia é diferente do pânico.

Eu gosto de ficar no meu quarto e já passei uma semana dormindo embaixo da cama para ninguém me achar. Eu fico tão nervosa que eu tenho raiva do mundo. Eu fico vendo as pessoas, todo mundo normal e eu tendo que passar por isso. Há quase cinco anos que eu não estou vivendo. (...) Quem tem o Transtorno do Pânico sempre tem na cabeça onde, como e quando vai acontecer a próxima crise." M.G., 19 anos.

Diagnóstico

Geralmente, as suspeitas do TP começam nos prontos-socorros ou clínicas cardiológicas e, na maioria das vezes, o paciente volta para casa com o diagnóstico de que não

é nada, é só estresse. Atualmente, isso está mudando com a grande veiculação na mídia sobre o TP e sua discussão nos congressos médicos. Profissionais de outras áreas médicas, tão logo suspeitam da possibilidade do enquadramento de um possível portador do TP, os encaminham à psiquiatria.

Devido aos sintomas serem comuns a algumas doenças, tais como asma, diabetes, hipoglicemia, tumores das glândulas supra-renais, cardiopatias, hipertireoidismo, hipotireoidismo, tensão pré-menstrual, labirintite, prolapso da válvula mitral, síndrome social e outras, o diagnóstico tem que ser muito criterioso e feito por um profissional de confiança.

Tratamento

Preferencialmente, o tratamento do Transtorno do Pânico deve ser feito por um psiquiatra. Esse profissional primeiro teve a sua formação acadêmica em medicina, para depois se especializar em psiquiatria e, portanto, está capacitado a receitar medicamentos e aplicar a psicoterapia. Já o psicólogo não pode receitar medicamentos, mas pode promover a psicoterapia.

De acordo com o médico psiquiatra Wilson Siqueira, o tratamento aplicado varia de indivíduo para indivíduo, mas em geral é a combinação de antidepressivos, ansiolíticos e terapias, incluindo os exercícios de exposição e de relaxamento.

O Transtorno do Pânico tem sido responsabilizado pelo desmoronamento de vários lares e o responsável por isso acontecer não é o portador do TP. "A sustentação da família de um portador depende de seus familiares. É imprescindível o apoio familiar", afirmou Siqueira.

O portador do TP precisa sentir que não está sozinho e que seus familiares acreditam nele. Os familiares precisam adquirir conhecimentos sobre o TP, para entenderem que a limitação de quem está na fase inicial e que o sofrimento que acomete um portador na hora da crise, não tem comparação em escala e com qualquer tipo de doença. É o pavor da morte iminente, que embora não esteja acontecendo e nem vai acontecer, para ele não é fantasia, é uma horrível e triste realidade.

Entenda alguns termos utilizados:

Ansiedade antecipatória - medo de sentir medo, medo da próxima crise. Se pensar em sair, a ansiedade aparece. A qualquer sintoma diferente, o portador já acha que a crise virá. Essa ansiedade persistente acaba por adiantar a crise; a pessoa entra em um círculo vicioso: a ansiedade induz à crise e a crise induz à ansiedade.

Agorafobia - fobia desenvolvida por portadores do TP que sentem medo de ter uma nova crise nos mesmos locais de uma anterior ou em locais de grande concentração de pessoas. Isso faz com que elas evitem esses locais ou deixem de sair de casa. Há casos de abandono da atividade profissional, educativa e social. Com a sucessão de crises, caso não procure tratamento, o portador do TP também poderá desenvolver, além da agorafobia, hipocondria, depressão, alcoolismo, dependência à drogas e perda da auto-estima.

Extra-sístoles - os batimentos cardíacos resultam de dois movimentos do coração: a sístole que é a contração e a diástole que é o relaxamento. Esse movimento combinado faz o bombeamento do sangue em nosso organismo. Para que haja essa contração, um feixe de células especiais situadas dentro do coração, emite uma pequena descarga elétrica no músculo cardíaco, promovendo a sua contração, ou seja, a sístole. No caso das extra-sístoles, outras células vizinhas ao feixe, emitem quase que simultaneamente outra descarga elétrica fazendo que haja uma sístole dupla, a qual é sentida pela pessoa causando-lhe uma sensação de angústia. Isolados, ou seja, sem outras complicações cardíacas, não representam nenhum risco ao paciente. As extra-sístoles se enquadram dentro dos sintomas do TP, porém devem ser investigadas pelo seu cardiologista.

Fobias - temor mórbido, obsessivo e constante de um objeto ou de situações. Pessoas com TP podem ou não desenvolver fobias. No caso do TP, agorafobia.

Fobia social - é um transtorno de ansiedade que acomete o portador em algumas situações. Ter ansiedade quando se vai realizar alguma tarefa nova que envolve contato com o público, é normal e até nos prepara para isso. Quando essa ansiedade prejudica a execução daquilo que queremos realizar, passa a ser uma fobia social, ou seja, o indivíduo passa a se preocupar com as pessoas que estão próximas a ele, como se fosse o ponto focal a ser observado, tornando-se uma ansiedade incapacitante. Esse transtorno impede o portador de se alimentar em locais públicos, falar ou mesmo escrever; algumas vezes não consegue nem assinar um cheque. O portador reconhece ser exagerada essa ansiedade, mas não consegue manter controle da mesma. É muito confundida com o Transtorno do Pânico, mesmo por médicos não psiquiatras. É alvo de preconceito por parte de familiares e amigos devido à falta de conhecimento sobre o assunto. Esse transtorno exige tratamento psiquiátrico, ele não surge e desaparece espontaneamente. O tratamento

é à base de antidepressivos, ansiolíticos e psicoterapia. O perigo está no álcool, pois o mesmo mascara a ansiedade e a torna suportável e, quando o portador percebe, já está dependente como alcoólico. Não existe cura total, mas sim um controle. Incide mais nas mulheres, numa proporção de 3 por 2.

Neurônios - células nervosas, as maiores do organismo. São responsáveis pela condução dos neurotransmissores.

Neuroreceptores - são os receptores do neurônio que recebem os neurotransmissores enviados por outro neurônio, após passar pela fenda sináptica.

Neurotransmissores - são moléculas que levam o impulso nervoso de um neurônio para outro. Dentre essas moléculas encontramos a noradrenalina e serotonina.

Noradrenalina - substância química responsável pela transmissão de impulsos nervosos entre os neurônios. Transmite estímulos ligados à energia e à motivação. Sabe-se que tem função vasoconstritora generalizada.

Panicogênicos - são substâncias psicoativas que induzem a crises, tais como: álcool, cigarro, drogas alucinógenas, cafeína, chocolate, açúcar, aminoácido triptofano, lactado (ácido láctico produzido a partir de exercícios físicos intensos não aeróbicos) e anfetaminas (usados em dietas de emagrecimento).

Serotonina - denominada de molécula da felicidade, regula o humor, a impetuosidade, o sono, a libido, o apetite, a memória, a função cardiovascular, a contração muscular e a agressividade. É um dos neurotransmissores responsáveis pela condução de impulsos nervosos entre os neurônios. Quantidade no organismo: 1,1 milésimo de grama. Sua carência ou excesso pode causar, depressão, insônia e ansiedade. Fontes: chocolate, açúcar, aminoácido triptofano e melatonina (formada a partir da serotonina e melanina). Exercícios físicos intensos aumentam o seu nível no sangue. Está presente no cérebro, nas plaquetas do sangue e nas paredes dos intestinos.

Sinapse - espaço existente entre os neurônios, denominado fenda sináptica.

Síndrome - é a reunião de sinais e sintomas provocados por um mesmo mecanismo e dependente de causas

diversas.

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