Editor de portal aposta em jornalismo on line
Texto: Eva Rodrigues
Depois de anos como correspondente de guerra no Oriente Médio e nos Estados Unidos, o jornalista Moysés Rabinovici assumiu, em outubro do ano passado, o cargo de editor-chefe de Internet do grupo O Estado de São Paulo e está no comando do portal www.estadao.com.br.
Contabilizando 50 milhões de pageviews e um crescimento de 12% mensais, o portal vem apostando na informação de acesso livre e garante os lucros através da veiculação de banners. Ele esteve em Bauru na semana passada e falou ao Jornal da Cidade sobre jornalismo e Internet. Abaixo, os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Há muitos sites utilizando as manchetes do portal para agregar conteúdo jornalístico à página. Como vocês negociam isso?
Nós chamamos isso de ticker e pode ser em vários formatos: você quer seis notícias, oito, dez, quer quadrado, redondo, e é grátis, mas na verdade você está me dando um painel eletrônico "Veja o site do Rabino". E todo mundo pede, tem febres de sites - hoje nós estamos vivendo uma febre de sites de saúde, mas saúde sozinha não vai atrair gente, então eles querem o ticker porque é conteúdo. Agora, o cara não volta mais para o site dele, ele vem para o meu e fica lendo as notícias, é difícil ele voltar. Mas acho que daqui a algum tempo se eu quiser fazer isso eu vou ter que pagar... Muita gente precisa do ticker para se manter na Internet.
Quais os planos de expansão do Portal?
Eu preciso primeiro ter um espaço físico pra crescer porque nós esgotamos todos os pontos de rede, cadeiras e mesas. Agora, temos o projeto Sociedade, que inclui conteúdo voltado para mulher, terceira idade, comportamento; Criança nós estamos lançando agora; tem o projeto Educação; quero fazer um canal de hobbies; criamos o Divirta-se on line na semana passada, que tem uma sala de exposições de arte brasileira e semana que vem eu inauguro uma sala chamada Debreux - nós vamos expor nessa sala a mesma exposição que será inaugurada em Paris no mesmo dia.
Em São Paulo teve um boom de sites pagando superbem e gente saindo de jornal. E agora, há sites demitindo pessoal
- como é que está essa situação agora?
Está ao contrário, as pessoas que foram agora estão voltando. A bolha furou depois que a Nasdaq caiu. Então muitos sites estão desmontando, está havendo um desmanche geral, os salários estão voltando à realidade porque o IG dizia que contratava por R$ 45 mil por mês. Mas eu sei que as pessoas nos procuraram por menos. Então, está havendo uma migração ao contrário, está havendo uma depuração no mercado, vão sobrar os que têm conteúdo, os que são realmente jornalísticos.
A Internet grátis vai morrer?
Não sei, tem aí o IG que continua com muito dinheiro, hoje eu vi o Nizan falando que vai faturar R$ 60 milhões neste ano e de cara o Caio Túlio desmentindo. Quer dizer, eles que se entendam, eu não faturo por aí, meu negócio é notícia e eu não misturo comércio e informação - meu negócio
é dar a notícia e não saber quanto ela está rendendo... E vamos continuar aí, não temos cachorrinho, não temos nada, nós temos notícia pura e simples e isso tem representado um crescimento real de 12% ao mês, e isso nos diz muita coisa, nos diz mais do que qualquer propaganda que se faça mercado afora. Então nós estamos no caminho certo, descobrimos um veio ali e vamos prosseguir nele.
Como lidar com a falta de regras que impera na Internet?
Nós temos um cliente - um jornal de Salvador. Esse jornal compra nosso noticiário para jornal impresso. Mas aí ele fundou um site, e não só fundou o site como se associou a um concorrente nosso chamado Starmedia. E o que ele está fazendo: está pegando o noticiário nosso de jornalismo impresso e passando para o nosso concorrente. Aí nós estamos tentando de alguma maneira disciplinar esse mercado: quem recebe nosso material para jornalismo impresso
é jornalismo impresso, quem recebe para on line vai poder dar nos seus sites on line, mas nós não estamos produzindo ainda material para sites, nós estamos produzindo só para o nosso site.
Qual o papel das novas mídias na cobertura de guerra?
Elas trazem a guerra pra perto. Na Guerra do Golfo você viu os mísseis passando pela televisão. Quando os mísseis caíam sobre Jerusalém ou passavam no céu de Israel, a rádio Eldorado me ligava e queria que entrasse no ar. Aí tinha sempre a mesma pergunta "Mas por que você não está no abrigo anti-aéreo?" e eu respondia "Porque vocês estão me chamando no telefone". Mas é isso, você está num país, descobre um veio de notícias nacionais que interessam ao seu jornal e você não pode ficar só com as agências de notícias. Então o correspondente continua tendo o seu campo de ação, ele não vai morrer por causa da Internet. A rede vai facilitar a vida dele se ele souber usá-la.
E como você se coloca diante do UOL?
O UOL pra mim não é um concorrente, sabe por quê? Porque os pageviews deles são muito, muito, muito maiores que os nossos, mas eles não separam, não dizem o que é Últimas Notícias, o que é chat, o que é e-mail. Todo clique que se dá no site eles contam, mas a gente sabe que em notícia ninguém nos bate. Nós temos estatísticas mostrando que deixamos longe em termos de conteúdo todos os sites de conteúdo. O dia em que o UOL descontar o que é acesso, o que é fórum, o que é Playboy...., não vai ter o nosso número de acessos. Eles apresentam o número bruto enquanto eu tenho os números assim: quantos foram para horóscopo, quantos foram para o carro, para o divirta-se, tudo separadinho.