Pedidos de falência caem 39,26% em 2000
Texto: Paulo Toledo
Os pedidos de falência que deram entrada no Cartório de Ofício de Distribuição Judicial do Fórum de Bauru tiveram uma retração de 39,26% de janeiro a agosto, caindo de 135, no mesmo período de 99, para 82. Vale ressaltar, que a quantidade dos primeiros oito meses de 2000 foi a menor desde 1994, quando foram registrados 28 pedidos, que foi o ano de implantação do Plano Real. Em 95, ano em que a quantidade de falências passou a crescer, foram 84 pedidos no período, segundo levantamentos do diretor do Cartório, Claudemir Jair da Silva.
Neste ano, comparando-se mês a mês com 99, apenas fevereiro e agosto apresentaram crescimento, de 16,67% e 10%, respectivamente. Nos demais meses, as quedas foram significativas, chegando até a 72,22%, em julho (veja quadro nesta página).
Neste ano a oscilação de pedidos tem sido constante. O número mínimo de cinco, verificado nos meses de janeiro e julho é o menor desde fevereiro de 1995.
Para o economista professor universitário e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo César Cafeo, lembra que, desde 1998, o País viveu uma grande turbulência interna, com a economia afetada pela crise da Rússia, por exemplo, fazendo com que a base de comparação de 1999 tivesse ficado superdimensionada. Ele destaca, ainda, que a desvalorização do real, no início de 99, afetou a produção e o consumo internos, afetando a produtividade e fazendo crescer a inadimplência, influenciando os índices do ano passado.
Apesar dessas dificuldades, vale destacar que o número de pedidos de falência de 99 foi o menor desde 1995, mantendo uma tendência de queda que se verificava desde 1997.
A evolução da economia, que teve um crescimento de 6,8% no primeiro semestre, diz Cafeo, tornou o ambiente favorável, gerando uma melhoria geral de faturamento e resultados das empresas.
Para o delegado do Corecon, a queda nos pedidos de falência
é um reflexo da melhoria das condições da economia do País, inclusive a redução da taxa de juros. Além disso, há o fato de muitas empresas estarem renegociando suas dívidas.
A tendência, segundo Cafeo, é de que ocorra uma continuidade na redução dos pedidos de falência. O único fato que ainda desperta algum temor é a possibilidade de um repique de inflação que pressionou em julho e agosto, mas já mostra sinais de queda. "Tirando esse aspecto, os indicadores do final do ano são positivos. As pessoas estão comprando mais, a indústria continua produzindo mais, temos a injeção do 13.º em novembro e, tradicionalmente, o segundo semestre no Brasil é melhor", afirmou.
Para Cafeo, se o governo não se perder na concessão de aumentos de suas tarifas e a pressão do petróleo não permanecer até o final de 2000, a tendência
é de que o segundo semestre seja muito melhor do que o mesmo período do ano passado.
Mercado passou por depuração, diz Carvalho
A queda no número de pedidos de falência são um indicativo de que houve uma depuração no mercado, depois da implantação do Plano Real, reduzindo a quantidade de empresas que tem potencial para quebrar. A opinião
é de Cássio Carvalho, presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), para quem a quebra das empresas foi provocada pela política de juros altos adotados pelo Governo Federal, que penalizou as empresas que estavam menos estruturadas.
Para ele, houve uma "seleção natural" provocada por uma "rasteira" do governo que, na ânsia de segurar a inflação aumentou os juros, desestruturando as empresas que dependiam de instituições financeiras para se manter.
Carvalho disse que, tardiamente, houve a atitude de iniciar uma redução na taxa de juros. Segundo ele, a desvalorização do real, no início do ano passado ajudou a melhorar o quadro, possibilitando um equacionamento de grande parte das empresas.
O presidente da Acib acredita que a tendência é de a redução nos pedidos de inflação continue se acentuando até o final do ano. Para ele, isso só não ocorrerá se o governo voltar a mudar a economia do País, pressionado pelo cenário internacional que se desenha, como a pressão de preços do petróleo.
Redução é estratégia para evitar mais prejuízos, diz Simonelli
O diretor da regional do Centro das Indústrias do Estado
(Ciesp), José Luiz Miranda Simonelli, afirma que a redução no número de pedidos de falência não é uma questão econômica, ou seja, de uma melhoria da macroeconomia do País. Para ele, isso é muito mais uma estratégia das empresas que chegaram à conclusão que pedir a falência de uma outra empresa não é o melhor caminho.
Para Simonelli, a redução no número oficial não significa uma melhora para o setor empresarial. Ele diz que sinaliza que ocorreram mais acordos entre devedores e credores, evitando que se chegasse à falência, que
é o último estágio, e não é boa para ninguém, uma vez que o fornecedor, oficialmente, fica relegado a segundo plano, pois têm prioridade no pagamento os impostos e salários. "O credor vai receber somente uma parte proporcional ao que tinha de crédito, se sobrar algo. Então, comercialmente, a falência não
é interessante. Quando se pede a falência, acabam as oportunidade de receber por integral aquilo que têm de crédito", afirmou.
Simonelli chega a dizer que, por esses motivos, acredita que a queda no número de pedidos de falência se deve ao fato de ser pouco interessante aos credores comerciais. Para ele,
é preferível buscar um acordo para reduzir o valor do prejuízo.
O diretor do Ciesp lembra que a falência é um processo longo, que demonstra, no momento em que é pedida, deficiências anteriores. "A falência é o último estágio, a última instância, depois de ter se tentado toda forma de recebimento e negociações", afirmou.
Simonelli disse que não descarta existir um pequeno componente de resposta ao momento econômico favorável. Porém, acredita que o principal é a questão estratégica comercial e tentar reduzir os prejuízos de um pedido de falência.
O diretor do Ciesp diz, ainda, que existe um dado formal de fechamento de empresas e um dado informal, no qual são incluídas aquelas empresas que não chegam ao pedido de falência, mas têm as atividades encerradas por não conseguir mais sobreviver.