Para ser feliz
Ercília Pollice
Hoje o dia amanheceu cinzento, e uma chuva criadeira, daquelas que nos faz voltar à infância, molhou o nosso dia, molhou a nossa vida, lavou a nossa alma.
Dias assim nos fazem sentir num estado de saudade sossegada. Uma quietude que nos enlaça o coração, e nos faz pensar nas coisas pelas quais nos desesperamos. Nos faz pensar nas coisas que nos fizeram felizes...
E vemos então, que quer sejam coisas boas, quer sejam coisas ruins todas elas passaram por nós, e não morremos por isso.
A vida acontece quer queiramos ou não.
A vida que temos de viver, ninguém viverá por nós.
E concluímos, de forma paradoxal, mas verdadeira, que fomos tão tolos, quando poderíamos ter sido tão sábios...
Quer percamos o sono, quer durmamos, quer soframos, quer deixemos seguir, a vida passa sem o nosso aval... A vida acontece e nada pode segurá-la.
Daí é que entra a sabedoria de viver, aceitar as expectativas frustradas, aceitar os sonhos não realizados e procurar tirar lições, e, procurar encontrar outro caminho que não aquele com o qual sonhávamos.
Dirá agora alguém com raciocínio cartesiano:
"isto é o mesmo que brincar de Pollyanna".
Não sei se certos ou errados estão os que diriam isto, mas de uma coisa eu sei, mesmo que a vida seja perversa, devemos driblá-la e nunca permitir que os fatos ruins nos roubem os sonhos e a vontade de ver as coisas lindas que nos cercam. Nada é somente ruim e nada é inteiramente bom sempre.
Há dias que a gente se sente, como quem partiu ou morreu...
Mas há dias em que a luz do sol nos convida a ser felizes. Assim desta forma, não sei se ser cartesiano está com alguma coisa, não sei nada com a certeza das coisas eternas: mas sei que chorar o leite derramado não o trará de volta, que lastimar-se diante das derrotas, não nos fará vitoriosos.
O que sei é que devemos querer viver a vida, queremos vivê-la até nosso último instante e queremos ser felizes custe o que custar, a que preço for.
Ninguém quer saber como, todos querem saber quando.
E quando se torna agora, se soubermos sorrir diante dos desencantos, não sem antes tê-los chorado, como se chora um morto. E se soubermos olhar para trás e contar as bênçãos, certamente veremos que nosso saldo será positivo.
Diz o poeta, que:
"A dor da gente não sai no jornal...", mas há também aqueles versos que dizem:
"Fui educado pela imaginação
Viajei pela mão dela sempre.
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso.
E todos os dias têm essa janela por diante
E todas as horas parecem minhas desta maneira" (F.P.)
Ercília Ferraz de Arruda Pollice
Escritora/poeta/colaboradora de "Ju Machado-Escritório de Arte"