Busca da identidade muda "cara" dos núcleos
Texto: Josefa Cunha
Quando são entregues à população, eles mais parecem com um produto industrial feito em série: são iguais, do mesmo tamanho e cor, com as mesmas deficiências, qualidades e objetivo de realizar o sonho da casa própria de milhares de pessoas. A uniformidade dos núcleos habitacionais, porém, não demora mais do que três anos para desaparecer, senão por completo, em grande parte. Uma arrumadinha aqui, um muro ali e logo mal se pode reconhecê-los como núcleos um dia padronizados.
Alguns mais antigos como o Geisel, por exemplo, nem mesmo é mais lembrado como núcleo, tão radicais foram as mudanças realizadas nos imóveis originais. Em outro exemplo, está o Mary Dota, uma verdadeira minicidade com suas mais de 3.500 moradias. Lá, não é preciso andar muito para perceber as reformas nas faixadas, quintais e, principalmente, na estrutura das casas. O mesmo também já pode ser observado no Bauru 2000, entregue há apenas um ano.
Arquitetos e engenheiros são unânimes em dizer que a primeira razão da mudança deve-se a questões de foro íntimo. "Ninguém gosta de viver igual ao outro, ainda que essa igualdade esteja restrita ao modelo da casa. Com raras exceções, todas as pessoas que se mudam para núcleos habitacionais procuram fazer algum tipo de mudança imediata para se diferenciar. É a busca da identidade própria", avalia Cláudio Berriel Ricci, presidente do núcleo-Bauru do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB).
Depois de murar as residências, colocar gradil, trocar janelas e portas, a segunda providência mais comum entre os moradores dos núcleos populares é mexer na parte interna da casa, seja para ampliar espaços ou buscar maior conforto térmico, já que muitas são entregues desprovidas de lajes. Cobertura para abrigo de veículo, construção de pequenas edículas e ampliação da cozinha e banheiro também figuram na lista das principais reformas.
Embora saudáveis sob a ótica do progresso, as reformas e adaptações nem sempre acabam resolvendo os problemas e, não raro, criam outros. "A imagem das casas de núcleo após as reformas fica bem mais harmoniosa, mas internamente verificamos mudanças desastrosas, que acabam prejudicando mais do que ajudando", cita Ricci.
A mesma consideração é feita pela secretária municipal do Planejamento, Maria Helena Rigitano, que ainda acrescenta a ocorrência de gastos desnecessários por conta de reformas realizadas sem orientação técnica.
"Já testemunhei caso de pessoas que, para aumentar o tamanho da cozinha, abriu mais portas do que deveria. Resultado: o espaço ficou maior, mas as aberturas impossibilitaram a colocação de móveis e eletrodomésticos, obrigando a acomodação da geladeira do lado de fora da casa. Também há casos de adaptações feitas para ampliar dormitórios que resultaram em cômodos muito escuros. O benefício acabou em prejuízo porque o gasto com energia aumentou", exemplificou.
A realidade seria outra se as obras de modificação recebessem acompanhamento técnico de um profissional de arquitetura, especializado em planejar os espaços para criar ambientes confortáveis. O problema é que o arquiteto ainda é visto como sinônimo de luxo e supérfluo, definições completamente equivocadas na opinião de Rigitano e Berriel. É bem verdade que as classes A e B são as maiores consumidoras das técnicas de arquitetura, mas existem programas alternativos que facilitam o acesso da população menos favorecida financeiramente a esses profissionais.
Em Bauru, esse papel é desempenhado pelo Programa de Moradia Econômica (Promore), que, apesar de não ser gratuito, oferece condições facilitadas a quem quer construir ou reformar tendo respaldo técnico de engenheiros e arquitetos. As taxas cobradas, que variam de R$ 120,00 a 250,00 a serem pagas em duas parcelas (veja quadro nesta página), incluem todo o projeto e trâmites burocráticos que precisam ser respeitados. O cliente fornece a documentação e o programa se encarrega de correr atrás de aprovação na Prefeitura, xérox, pesquisas de preços e acompanhamento das obras.
O Promore atende na rua Domiciano Silva, 6-47, das 8h30 às 12 horas e das 13h30 às 18 horas. Mais informações pelo fone 224-1970.
Promore
Condições para atendimento
* construções de até 70 metros quadrados;
* ampliações de até 30 metros quadrados;
* renda inferior a cinco salários mínimos;
* residir em Bauru há mais de um ano;
* possuir terreno
Preços
* construção menor de 30 metros quadrados R$ 120,00
* construção de 30 a 50 metros quadrados R$ 190,00
* construção de 50 a 70 metros quadrados R$ 250,00
* ampliação menor de 30 metros quadrados R$ 180,00
Obs. Os valores podem ser parcelados em duas vezes