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Arquitetura

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Mestre da arquitetura defende verticalização

Texto: Josefa Cunha

O arquiteto italiano Gian Carlo Gasperini, um dos ícones da arquitetura moderna paulista e idealizador de vários projetos famosos - Credicar Hall, Shopping Center Iguatemi, Sede da IBM e do Sudaméris -, é defensor radical da verticalização para atender o setor de habitação popular. Em Bauru na última terça-feira para uma palestra, Gasperini conversou com o Jornal da Cidade e expôs suas opiniões sobre aquilo que considera uma tendência para as cidades de grande e médio porte. Coincidentemente ou não, a visão do arquiteto "casou" com a tendência demonstrada pelos números da evolução histórica dos prédios residenciais em Bauru, que vêm num crescimento progressivo desde a década de 80.

Gasperini considera a construção verticalizada, principalmente quando destinada à classe média, a forma mais econômica e adequada para uma boa urbanização. Para a paisagem urbana, também diz ser adepto dos prédios baixos, com no máximo quatro ou cinco pavimentos, dotados de espaços livres bastante generosos que proporcionem condições ambientais favoráveis. "Sou contra unidades residenciais unifamiliares em lotes pequenos e acho que perdemos oportunidades de muitas coisas boas com esses núcleos populares. Pessoalmente, entendo que existe uma distorção cultural na mentalidade brasileira de que a família deve ter sua casinha, seu quintal. Isso não tem mais razão de ser, porque a vida mudou muito", opinou.

A necessidade de praticidade e racionalização dos espaços é, segundo ele, a tônica que deve estar presente nos projetos habitacionais da atualidade. Ele cita, por exemplo, que as pessoas - leia-se aqui os membros da família

- não têm mais tempo para varrer quintal, limpar grandes áreas e muitos móveis e nem mesmo para almoçar juntas. "Para quê um apartamento cheio de salas grandes, se a mesa da sala de jantar mal consegue reunir os familiares. Quando um chega, o outro está saindo e vice-versa. O sistema de vida mudou e vai mudar ainda mais. O padrão dos apartamentos deve ser o mais próximo daquilo que o dia-a-dia exige, permitindo uma lógica mais adequada para o uso dos espaços disponíveis", argumentou.

A mesma postura seria a mais indicada também para a faixa populacional de baixa renda, com um detalhe: as moradias - também verticais - teriam que seguir um projeto bem estudado de forma a oferecer flexibilidade aos moradores. Para Gasperini, isso pode ser perfeitamente atendido com a utilização de técnicas alternativas, a exemplo das divisórias "semi-móveis".

"A maneira como ainda são construídas as habitações populares realmente é muito limitadora, especialmente porque as paredes de alvenaria impedem ampliações e modificações quando necessárias. As famílias crescem e se vêem impedidas, por conta da estrutura do imóvel, de derrubar uma parede. Na verdade, o que falta é mais carinho no momento de planejar os espaços mínimos das moradias populares. Se o projeto for bem estudado, é possível construir quartos menores do que a lei prevê com o mesmo efeito em termos de funcionabilidade e acomodação dos móveis", afirmou.

Centro antigo

Fugindo um pouco do aspecto moradia, o arquiteto Gian Carlo Gasperini falou sobre a importância de as cidades se preocuparem com a preservação e recuperação de suas arquiteturas inaugurais. Em Bauru, o patrimônio histórico arquitetônico se confunde com o parque ferroviário, onde teve início o desenvolvimento da cidade. Por conta do abandono, pouco há de realmente belo no local, mas Gasperini frisa que a preservação das relíquias - mesmo as mais horríveis esteticamente - se faz necessária sob o ponto de vista da memória coletiva de toda uma comunidade.

Na opinião dele, os parques ferroviários ocupam

áreas muito grandes e precisam ser renovados para que as regiões centrais urbanas ganhem novo aspecto e voltem a atrair moradores. Para o futuro, aliás, Gasperini prevê as áreas centrais retomando a condição de zonas residenciais. "O arquiteto deixará de atuar individualmente para trabalhar pela coletividade, dedicando-se, especialmente, à recuperação dos centros. As pessoas voltarão a habitar os centros urbanos ao invés de fugir para os subúrbios. Vemos que o abandono, a escuridão e a feiúra dos centros obriga a população a morar mal nas zonas periféricas, padecendo com linhas de ônibus deficitárias e problemas de toda a sorte. Quando falo dos problemas do subúrbio estou me referindo ao aspecto da inabitabilidade, da falta de condições para garantir qualidade de vida. Claro que para mudarmos essa realidade é preciso vontade pública de fazer as coisas bem feitas. Em segundo lugar, é preciso que as comunidades se mobilizem na defesa de seus interesses. Quem mora em bairro de casas térreas, por exemplo, jamais deve ceder à construção de um arranha-céu", aconselhou.

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