Tangarás e Manchester: do sonho da indústria
à vida quase rural
Texto: Eva Rodrigues
Alguém interessado em adquirir um terreno para erguer a casa própria em Bauru, no ano de 1966, provavelmente poderia se entusiasmar com o anúncio publicado em jornais locais sobre os loteamentos Tangarás - Manchester: a promessa de que a área seria o futuro cinturão industrial da cidade. Já no ano 2000, o único ponto de ligação no tempo é o sonho da indústria, que sequer se aproximou dos bairros um dia, mas permanece no ar, se materializando esporadicamente em alguns pontos e a todo momento através de vislumbres de projetos futuros.
Quem chega no Jardim Manchester tem a impressão de estar adentrando numa propriedade rural - a mata nativa do cerrado esconde lotes não demarcados (que ainda podem gerar confusões no local). Poucas casas e uma carroça circulando na rua de terra dão os primeiros sinais de vida no bairro. Ah, e um minúsculo bar para o comércio de cachaça, tubaína e paçoquinha.
O Jardim Manchester não parece um bairro, as cerca de 110 casas ficam espalhadas e muitas estão escondidas na mata. Há pouco mais de um ano, os moradores ganharam água, mas ainda não veio o esgoto e a luz que ilumina é a do sol, da vela ou da lamparina - recentemente eles estiveram no Calçadão reivindicando a luz elétrica para o bairro. Assistir televisão e tomar água gelada
é privilégio de quem tem condições de manter uma bateria.
Há quatro anos morando no Manchester, Santa Ana de Jesus Barbosa Alves, 47 anos, veio com o marido de Pacaembu (SP) em busca de trabalho e vida digna. O trabalho como pedreiro "às vezes tem, às vezes não", mas o casal conseguiu comprar o terreno e erguer a moradia. "Gosto de morar aqui,
é tranquilo, mas precisava ter escola, posto de saúde,
ônibus e a luz", clama Santa. A mãe vai diariamente levar a filha de nove anos à escola no bairro mais próximo, o Parque Santa Terezinha.
Antônio Teixeira Barbosa, 56 anos, vive há dois anos no Jardim Manchester, construiu a casa no terreno que ainda está sendo pago mas vive a angústia de mais de dois meses sem trabalho como servente de pedreiro. Outro incômodo é a falta de luz para quem já experimentou esse benefício:
"A gente tem que usar roupa sem passar, a mistura estraga, o leite estraga, tem que comprar pouco e comer tudo na hora", desabafa Barbosa.
Um dos mais antigos moradores do bairro, Jorge Luiz de Lima, 32 anos, está há sete anos esperando para ver seu pedaço de cerrado iluminado como uma praça pública. "Certamente que a luz é nossa principal falta, mas também precisamos de posto de saúde, esgoto, asfalto... A gente não tem atenção nenhuma", reivindica. À noite, a casa é iluminada e aquecida com a ajuda de um fogão à lenha e da mariposa - espécie de lamparina na qual um cordão de algodão é embebido em óleo comestível. Sobre indústrias? Ah, ninguém sabe dessas coisas por lá não...
Chácaras e vacas urbanas
O cenário da chegada no Jardim Tangarás é no mínimo indicativo de que industrialização não é bem o que vem ocorrendo ali: uma dúzia de vacas é conduzida por um rapaz até um terreno onde encontram grama muito verde e farta para pastar. O dono é Leonildo Viana Lima, 26 anos, um dos primeiros moradores do Tangarás. Na chácara em que vive - o bairro abriga várias
- batalha diariamente com a fabricação de queijos e o cultivo de mais de 200 colméias que rendem de quatro a cinco mil litros de mel ao ano. "Antigamente morar aqui era muito bom, hoje em dia está perigoso, minha casa já foi roubada duas vezes e na semana passada levaram minha melhor vaca", lamenta.
Ao lado de chácaras bem simples - e outras nem tanto - estão casas populares erguidas numa área sem asfalto e com apenas uma parte servida por iluminação nas ruas e serviço de esgoto. Os moradores também reclamam da falta de orelhões, de ônibus circulares, posto de saúde e escola (um ônibus passa diariamente para levar as crianças a escolas nos arredores).
O aposentado Ivo Martins, 72 anos, chegou há três anos e conta que o Tangarás recebe muita gente que veio de fora, "de São Paulo, do Paraná, e além dos pobres tem muita gente rica e dona de chácara por aqui. Mas não adianta porque nós continuamos com as ruas ruins, os ônibus caem sempre nos buracos por aqui, e a escuridão na rua também representa perigo aos moradores".
A preocupação com o desemprego também ronda o Tangarás. O paulistano radicado no bairro há cinco anos, Vagner da Silva, 28 anos, anda desapontado com a falta de um posto de trabalho como servente de pedreiro. "Estou pensando em retornar a São Paulo, lá tem mais chances de trabalho e posso contar com uma ajuda maior da minha família", avalia.
Do cinturão industrial imaginado na década de 60 talvez um resquício tenha ficado: numa área localizada entre os bairros Tangarás e Manchester, a indústria de acumuladores de energia Ajax está em funcionamento.