Geral

Pólo industrial

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 6 min

Bauru não se fixa como pólo industrial

Texto: Josefa Cunha

Um estudo que o professor Célio Losnak desenvolveu para seu doutorado em História Social na Universidade de São Paulo (USP) explica as razões de Bauru não ter se fixado como pólo industrial e nem possuir vocação para evoluir no setor. Os esforços para inserir o município na trilha industrial sempre existiram e ainda hoje se ouve muito sobre tentativas de incentivos à vinda de empresas. As iniciativas permanecem frustradas.

Em sua longa pesquisa, que resultou no trabalho "Polifonia Urbana: Imagem e Representações - Bauru 1959/1980", Losnak levantou aspectos e circunstâncias que acompanharam a evolução da indústria paulista, as quais o levaram a concluir que Bauru nunca esteve na tão clamada rota desenvolvimentista.

Em meados da década de 60, o governo do Estado instituiu a política de descentralização do setor industrial. A iniciativa foi motivada por pensamentos que já naquela

época temiam o crescimento desorganizado e o caos na Capital. Controlando o desenvolvimento industrial, imaginava-se deter o que se confirmou não muito à frente.

As cidades ficaram em polvorosa pela chance de abrigar parques industriais, sinônimo de via única para o desenvolvimento, de riqueza, de qualidade de vida, de modernidade e de status. Bauru e seus governantes, assim como o ânimo geral de todos, seguiam o mesmo pensamento e foram pioneiros na política de atrair investidores. Atrás de Presidente Prudente, o município foi o segundo do Estado a criar um distrito industrial. A dinâmica do mercado, porém, não favoreceu o pioneirismo bauruense. Sem falar na proximidade da Capital, os potenciais mercados consumidores e os acessos viários de cidades como Sorocaba, Campinas, Santos, Cubatão e outras do Vale do Paraíba prevaleceram sobre incentivos fiscais e físicos. No Interior, São Carlos, Piracicaba e Ribeirão Preto acabaram preferidas. O clamor pela transformação de Bauru num pólo industrial estava nos discursos políticos e na boca dos intelectuais da época, que valorizavam a indústria como questão premente. As publicações jornalísticas tendiam para o mesmo pensamento, sem falar que a própria política nacional de Juscelino Kubitschek incorporava a idéia. "Não se tratava de uma imposição de interesses estrangeiros, que, é claro, também existiam, mas de um desejo coletivo. A indústria era tida como referência de desenvolvimento e modernidade e tudo era traçado tendo ela como centro. Isso foi percebido entre o final da década de 50 e meados da de 70. No pós 64, aliás, vieram os incentivos à construção das grandes rodovias que viriam a escoar as produções. A Castelo Branco surgiu nessa época", situou Losnak.

Bauru não ficou totalmente de fora no processo, conseguindo ampliar empregos e riquezas, mas o crescimento ficou aquém das expectativas. A imprensa retratou as frustrações e, cada vez que alguma cidade da região abrigava um novo investidor, a questão ganhava conotação de crise. Isso ocorreu, por exemplo, quando a indústria de equipamentos e máquinas Clarck e a Cervejaria Vienense

(atual Brahma) se instalaram em Pederneiras e Agudos, respectivamente.

Enquanto amargava a insatisfação de não ser um centro industrial, a cidade se fortalecia como "ponto de conexão", conforme denomina Losnak. "Éramos o elo com o oeste do Estado e o Mato Grosso. Nosso forte consolidou-se nas vendas e nos pousos dos viajantes. Já tínhamos a ferrovia e depois ainda ganhamos a Noroeste. Para atender aos que vieram construí-las, Bauru ampliou seu comércio, abriu bancos e hotéis. A economia cresceu a partir daí. O solo pobre também não desenvolvia a agricultura, o que explicava um enorme percentual da população vivendo na zona urbana. Para se ter uma idéia, no início dos anos 60, 96% dos bauruenses viviam na cidade, num índice similar ao verificado na cidade de São Paulo", comparou.

A tendência para a prestação de serviços tornou-se ainda mais evidente com o surgimento das escolas de graduação, como ITE, USC, USP e FEB (pela ordem de instalação na cidade). Paralelamente, Bauru se consolidava como notório "posto avançado do governo", sediando vários e importantes órgãos, autarquias e secretarias de governo. A imprensa, ainda centralizando atenções no setor industrial, só dava conta da verdadeira base econômico-financeira do município quando chegavam ameaças sobre o fechamento das sedes dos serviços públicos.

Guardada a realidade da época, semelhanças com os dias atuais não podem ser desprezadas. Com raras exceções que levam o município aparecer como sede de grandes empresas nacionais, a cidade continua longe da rota industrial. Para Losnak, por sinal, nada leva a crer que Bauru trilhará por ela algum dia. "Pensar Bauru como pólo industrial é ir contra uma tendência verificada desde sua fundação.

É preciso ter em mente que os investimentos de fora seguem as características de cada região, ou seja, indústria atrai indústria, prestação de serviço atrai prestação de serviço. É uma questão de potencial de mercado, de interesse de concorrências", considerou o professor.

Daí, segundo ele, a explicação para a cidade estar na mira de empresas como o Wal Mart, Grupo Savoy e de outras várias redes de supermercados e afins interessados no real potencial do município de atrair consumidores da região.

Outra colocação de Losnak vai para quem insiste em associar a vinda de indústrias à garantia de novos postos de trabalho. "Pensar que as indústrias irão resolver o problema do desemprego na cidade é utopia. Temos constatado que as grandes indústrias exigem mão-de-obra qualificada nem sempre disponível nos locais onde se instalam, o que as leva a importar trabalhadores. O município acaba tendo prejuízo porque a Prefeitura oferece incentivos e não recebe o retorno esperado. Além disso, a suicida briga fiscal entre os Estados na busca das empresas industriais dificulta as coisas", avaliou, alertando que propostas eleitorais que condicionam indústria ao emprego e crescimento da cidade são insustentáveis.

Sonho que virou pesadelo

Alguns empreendimentos imobiliários de Bauru surgiram para abrigar trabalhadores industriais e dar condições de moradia aos supostos migrantes que viriam atraídos pelo desenvolvimento industrial. Festejados na época - final dos anos 60 -, esses loteamentos são hoje prova concreta das tentativas fracassadas de alterar a rota econômica do município.

Os bairros Tangarás e Manchester - este último, inclusive, uma alusão explícita ao sucesso do processo de industrialização na Inglaterra - são dois loteamentos lançados no período em que Bauru buscava se industrializar. Anúncios do empreendimento estampavam as páginas dos jornais locais e prometiam ser o marco de uma virada econômica do município. "Seja dono de um pedaço de Bauru. Faça uma inversão no futuro Cinturão Industrial de Bauru. Loteamentos Tangarás

- Manchester", trazia um anúncio publicado no dia 26 de julho de 1966.

Para quem conhece a realidade de ambos os bairros atualmente não

é preciso dizer que a investida deu mais do que errado. O Jardim Manchester, carente de toda a infra-estrutura necessária para o mínimo de qualidade de vida, nem mesmo dispõe de rede de energia elétrica. No Tangarás, a situação não é muito diferente, apesar de "já" estarem usufruindo da eletricidade. São duas localidades esquecidas e abandonadas pelo poder público desde então. Um sonho do passado que faz os moradores desses locais viverem até hoje num constante pesadelo.

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