Oração do Lavrador
Texto: Adelaide Reis de Magalhães *
Senhor! Eu lhe agradeço por morarmos no campo!
Bem sei que a terra não é nossa, mas agradeço pelo horizonte sem limites, infindável, meu!
Pelo céu que é uma cúpula azul, inconsútil, sem recortes de arranha-céus, sem chaminés poluindo o ar, sem ruídos de aviões.
Agradeço por vivermos tão unidos à natureza, que nossas alegrias pertencem teluricamente às estações do ano.
Pela abundância que as chuvas trazem e pelo verde das pastagens. Pelo outono, quando os arrozais e o milharal estão cobertos de espigas. Pela estiagem que é uma escola de humildade, uma medida exata da nossa limitação. Pela primavera em que a Ressurreição se renova em cada galho que brota e a mensagem do renascimento vem colorir o jardim de nossa casa.
Senhor! Agradeço pela presença bíblica do estábulo, onde um boizinho manso parece ruminar recordações de Nazaré.
Pela existência das árvores, cuja variedade de formas e folhas nos ensina a melhor compreender o próximo que tanto difere de nós.
Senhor! Agradeço pelo padrão simples de nossas vidas, onde todos os valores são valores reais.
Pela fartura que a terra nos dá desde o grande latão de leite, às frutas, às verduras, à coleta de ovos.
Pelas jóias que enfeitam o nosso mundo: as gotas irisadas de cristal líquido que correm de nosso telhado em dia de chuva; as pérolas deixadas pelo orvalho nas hortaliças ao amanhecer; os diamantes que treluzem da teia da aranha; uma poça de água que, como imensa safira, reproduz o azul do firmamento, quando passa o temporal; os pomos de ouro dos laranjais carregados de frutos.
Senhor! Agradeço pelos pássaros que orquestram a nossa vida e pelos cachorros, amigos e confidentes de todas as horas.
E ainda lhe agradeço, terminado o dia, pelo cansaço mortal que todos nós sentimos e que nos faz abençoar a noite, pelo merecido repouso que recebemos!!
(*) Adelaide Reis de Magalhães é escritora, poetisa e colaboradora de Ju Machado-Escritório de Arte.