70% das ligações para Secretaria reclamam asfalto
Texto: Rose Araujo
A cada 10 ligações recebidas diariamente pela Secretaria Municipal de Obras, sete são reclamações em relação ao asfalto. O dado foi fornecido pelo próprio secretário, Edmilson Queiroz Dias. Isso só reforça a idéia de que a pavimentação asfáltica é o principal anseio da população de Bauru.
A reportagem do Jornal da Cidade também pôde observar essa realidade. Quando visitou os bairros cujas ruas são de terra ou aquelas que já perderam o asfalto, recebeu muitas reclamações dos moradores do local.
O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, destacou que, além dos problemas de lama e erosão, a falta de pavimentação causa danos à saúde do munícipe. "Não são raros os casos de bronquite causados pela poeira. Quando o tempo está seco, a pessoa tem dificuldade para respirar; quando chove, fica difícil sair de casa por causa da lama", ressaltou.
A doméstica Alice Felipe Quinaia conhece bem esses problemas. Ela precisou sair do emprego para cuidar do filho, que adquiriu uma bronquite alérgica depois que foi morar na Pousada da Esperança, bairro com ruas de terra. "Meu filho já tem problemas de saúde mental e agora, adquiriu essa bronquite. Não tive outra saída senão deixar o emprego e tomar conta dele. Quando eu morava na Vila Vicentina, há sete anos, ele não enfrentava esse tipo de doença", salientou.
Ela até prefere os dias de chuva, mesmo com a lama, pois a poeira abaixa e o filho, melhora.
Os problemas do bairro com a falta de asfalto não param por aí. A chuva carrega a terra, que descobre os canos de água e esgoto, o que resulta em vazamentos e escassez do líquido nas torneiras. Morando no bairro há 10 anos, cozinheira desempregada Cleusa Josefa Conceição, reclama que constantemente fica sem água devido a canos estourados por carros na rua. "Os canos ficam expostos e acabam sendo quebrados por carros ou pelo ônibus. Aí,
é um transtorno, porque acabamos ficando sem água por vários dias", disse.
A presidente da Associação de Moradores da Pousada I e II, Eva Pereira Brandão, explicou que a rede de água foi feita sem nenhum tipo de planejamento e que os canos ficaram muito próximos da superfície. Quando vem a chuva, eles acabam sendo descobertos e acontecem os incidentes.
Ela destacou que coletou mais de mil assinaturas favoráveis ao asfalto comunitário, mas o programa acabou sendo inviável para o bairro. "Os moradores estão dispostos a pagar pela melhoria, mas não têm condições de desembolsar R$ 70,00 por mês para pagar o asfalto. A prestação coerente com o bolso dos cidadãos que moram aqui seria de R$ 15,00 a R$ 20,00", salientou.
O secretário de Obras, Edmilson Queiroz Dias, explicou que não é possível chegar a valores como esse através do programa de asfalto comunitário.
"As empresas que realizam as obras tomam dinheiro de bancos para fazê-las. Como, geralmente, elas não têm capital de sobra, acabam cobrando da população os recursos para pagar as instituições financeiras", disse.
O programa de asfalto comunitário foi aprovado no primeiro semestre desse ano pela Câmara Municipal. De acordo com a Lei, o Executivo tem a permissão para a execução de pavimentação asfáltica, recapeamento, guias e sarjetas.
Dias salientou que, para a população mais carente, o ideal seria desenvolver um programa solidário de pavimentação. Aproveitando a experiência da Companhia de Habitação Popular (Cohab), a Prefeitura pode traçar planos de mutirão para a implantação de asfalto nos bairros onde a comunidade não pode arcar com as despesas. Nesse caso, a administração municipal entraria com o material e a orientação técnica e a população, com a mão-de-obra. "Temos que sair da inércia. Esse plano será uma novidade e vamos precisar da colaboração das associações de moradores", ressaltou.
Dias destacou que, para garantir a qualidade do asfalto, a Prefeitura não vai abrir mão de fazer galerias de águas pluviais onde é necessário. "A população cobra muito o asfalto, que é o produto final da melhoria. Mas, o serviço tem que ser bem feito e a Prefeitura não vai passar asfalto onde não tem galeria", garantiu.
Um outro problema detectado pelo coordenador da Defesa Civil,
Álvaro de Brito, é em relação à construção das casas. Ele lembrou que a maioria das residências feitas em ruas sem asfalto fica abaixo da altura recomendada. "As pessoas nivelam as casas de acordo com a rua de terra. Quando é feito o asfalto, a altura da rua aumenta e as casas ficam baixas, o que resulta em inundações quando chove", disse Brito.
Outra região visitada pela reportagem foi a do Jardim Ferraz, Vila Santista e Popular Ipiranga. Nesses bairros, muitas vias já tiveram asfalto um dia e hoje são uma grande erosão. A avenida Comendador José da Silva Martha
é uma delas. Principal ligação com a Zona Sul da cidade, ela sofre até hoje com as erosões. O asfalto acabou e agora está sendo refeito, depois de obras para a colocação de galerias pluviais, o que ajuda a conter a força das águas de chuva.