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Daniela Bochembuzo
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Religião amplia terreno no Legislativo

Texto: Daniela Bochembuzo

Aumento do número de vereadores evangélicos e católicas e eleição de um espírita mostram que política se mistura à religião

A velha máxima de que política e religião não se misturam está caindo por terra. Em Bauru, os reflexos dessa situação foram notados nas urnas. As comunidades cristãs da cidade elegeram oito evangélicos, seis católicos e um espírita para o mandato 2001-2004 da Câmara Municipal. Parte desses postulantes chegou ao Legislativo depois de receber, ao longo da campanha, um selo que os identificava como cristãos.

Em alguns casos, essa identificação foi fundamental para garantir a vitória na eleição. Nesse grupo enquadra-se Luiz Carlos Rodrigues Barbosa (PDT), que nos púlpitos na Igreja Universal do Reino de Deus é conhecido como pastor Luiz de Jesus. Estreante nas urnas, o candidato obteve 3.532 votos, atingindo a segundo maior votação entre os mais de 320 candidatos à vereança.

Fenômeno eleitoral, o pastor Luiz de Jesus não tem vergonha em afirmar que esperava mais votos. "Tinha certeza que ficaria em primeiro lugar. Fiquei decepcionado", assumiu em entrevista ao JC, concedida na última segunda-feira. A decepção explica-se pelo trabalho de campanha: o candidato acelerou o número de pregações durante o período eleitoral, fez mais reuniões com as lideranças da igreja e ampliou seu raio de oratória da região central para a periferia.

De olho no voto dos evangélicos, muitos candidatos acabaram perdendo a cabeça e, de bastidores, algumas rusgas se transformaram em brigas públicas, com direito a desmentidos na Imprensa. Um desses desentendimentos resultou na desvinculação da Igreja do Evangelho Quadrangular da Vila Industrial da Convenção Nacional das Igrejas do Evangelho Quadrangular.

Luiz Carlos Valle, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular da Vila Industrial - hoje Igreja Quadrangular Independente -, negou na ocasião que a desvinculação tivesse caráter político, atribuindo-a a divergências de ordens administrativa e doutrinária. Apesar dos desmentidos, não conseguiu escapar dos comentários de que a cisão era resultado dos desentendimentos políticos entre Valle e Celso Nascimento, superintendente da 3.ª Região da Igreja do Evangelho Quadrangular e ex-titular da Secretaria Municipal das Administrações Regionais durante a gestão de Antonio Izzo Filho.

O detonador dos desentendimentos, garantiram fontes políticas na época, teria sido provocado pela destituição de Valle como coordenador de algumas igrejas da cidade, função que teria passado a ser exercida pela pastora Celina Rosa do Nascimento Gobbi, candidata à vereança pelo PTB e irmã de Nascimento. Se o comentário for verdadeiro, o poder aglutinador de Valle acabou prevalecendo, já que o vereador conseguiu ser reeleito com 2.860 votos (a terceira maior votação) e Celina obteve pouco mais que 1.320 votos.

Desentendimentos, uso do púlpito para campanha eleitoral ou indicação de candidato e divulgação de plataformas reduzidas ao 'ser evangélico' levaram o Conselho de Pastores Evangélicos (Conpev) a emitir um manifesto oficial de repúdio. O documento, veiculado nos órgãos de comunicação bauruenses, deu resultado, afirma o pastor Edson Valentim de Freitas Filho, presidente da entidade.

"De certa forma, a exploração do púlpito acabou se mostrando mais prejudicial do que benéfico a esses candidatos. A comunidade evangélica ficou mais atenta e está aprendendo que ser evangélico não

é garantia de competência. É preciso escolher um candidato preocupado com a comunidade como um todo", afirma o pastor Freitas.

Nelí Del Nery Prado, presidente em exercício da União das Sociedades Espíritas (USE) - Intermunicipal Bauru, também está percebendo um "despertar" dos dirigentes espíritas em relação à política. "Gradativamente, as pessoas estão percebendo que as questões relacionadas à política, no sentido de cidadania, podem ser tratadas nos centros espíritas porque dizem respeito a comportamento social, à reforma

íntima, algo que é pregado pela doutrina espírita", diz.

A presidente em exercício da USE é favorável

à mistura de religião e política, desde que não trate da questão partidária. "Todo ser humano é um ser político, na medida em que se preocupa com o bem estar da comunidade. As pessoas precisam da religião e da política para se sentirem plenas", afirma.

Para Rodney José Bastos, presidente do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas da Diocese de Bauru, religião não existe sem política e vice-versa. "Ambas podem ser definidas como a luta pela igualdade entre os homens. Se quisermos um futuro melhor para todos, temos que discutir política e religião e eleger políticos atentos aos ideais de justiça e fraternidade e que sigam o evangelho do Cristo com a missão de transformar o mundo", defende.

Nesse sentido, Bastos considera negativo nomear as bancadas como evangélica, católica e espírita. Para ele, a nomenclatura divide e enfraquece o diálogo pelo ecumenismo.

"No momento atual, precisamos comungar idéias sobre o bem comum. Infelizmente, muitas pessoas não se ateram a isso ainda. É preciso mudar essa mentalidade e isso só

é possível misturando religião e política", finaliza.

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