Manter o princípio de vida
Texto: Padre Beto / especial para o JC Cultura
Outono é uma das mais românticas estações do ano na Europa. As árvores começam a perder suas folhas e ganham um colorido todo especial, o sol não possui mais a intensidade que tinha no verão, o clima é agradável e o céu continua azul.
Uma atmosfera de nostalgia domina o cotidiano e nos prepara para a chegada do inverno. Com este a paisagem transforma-se radicalmente: a temperatura cai para quinze graus abaixo de zero, a natureza entra em estado de hibernação, o sol desaparece e o céu torna-se cinzento.
Durante praticamente seis meses respira-se uma certa melancolia no ar e as pessoas tornam-se um pouco mais introvertidas. Em certos dias não se sabe onde ficou aquele típico "bom humor" do verão.
Envolvidas neste clima, muitas pessoas acabam sendo atingidas pela chamada "depressão de inverno". O ânimo parece chegar à estaca zero e a letargia expressa-se em uma sensação de cansaço.
Tudo isso acompanhado às vezes por uma ansiedade causada pelo céu constantemente nublado e sombrio de várias semanas seguidas. A depressão de inverno, causadora do
aumento de suicídios, principalmente de pessoas mais idosas, atinge o princípio vital que nos põe em movimento: a alma humana.
Infelizmente, a nossa cultura ocidental herdou da filosofia grega uma visão dualista do mundo e do homem. O universo é dividido na luta entre o bem e o mal e o ser humano é entendido como uma junção de corpo e alma.
Assim, ficou marcado em nossa memória coletiva que o nosso corpo constitui-se simplesmente em um invólucro da alma e esta seria um ser independente, prisioneiro do corpo, à espera de uma libertação.
Ao contrário desta concepção esquizofrênica do mundo, o ser humano é na realidade um indivíduo, ou seja, uma unidade que vive em relação com seu meio ambiente. A alma não é algo que vive preso em um corpo material, mas a vitalidade de nosso ser que se constitui em corpo.
Esta vitalidade, a ânima (alma) é o movimento de vida que se expressa e se comunica com o mundo através de sua corporalidade. Corpo e alma são para o ser humano como a luz e a chama para a vela.
Sendo um indivíduo, ao alegrar-se, o ser humano como um todo é contagiado pela alegria, quando adoece todo o seu ser fica atingido e quando a cura se faz necessária o ser humano em seu todo, em todas as suas dimensões, deve ser mobilizado para a melhora da vida.
A depressão que descrevemos acima é um bom exemplo desta unidade do ser humano. Graças ao clima de inverno, a ânima da pessoa fica atingida, e com ela todo o seu ser.
Não é somente o inverno europeu que pode fazer com que o nosso princípio de vida venha a enfraquecer-se.
Há muitas outras formas de "inverno" capazes de congelar nossa alma e nos levar a um estado de "des-ânimo" em relação à vida. Quando deixamos que nossa alma adoeça, somos contagiados por um forte negativismo, perdemos aquele impulso que nos leva de encontro aos outros e ao mundo e preferimos ficar na solidão.
Este estado da alma pode ser muitas
vezes somatizado, corporificando-se em uma doença física. Assim, é importante entender que manter o princípio de vida significa cuidar de nosso ser como uma unidade.
Tratar da alma é procurar ter uma alimentação saudável, que inclui frutas, legumes e muito líquido, atividades ao ar livre, contato com a
natureza e principalmente a prática de esportes. Aqui a natação deveria ter um lugar privilegiado, pois a água é um elemento energético e revitalizante, além da natação ser o esporte mais completo para a saúde.
Outra ajuda para fortalecer o nosso princípio de vida são as atividades culturais. Ir ao teatro ou a um clube de dança, assistir um filme, ouvir muita música, ler um bom livro ou simplesmente sair com um grupo de amigos para tomar aquela cervejinha são atividades que nos levam a ter uma visão mais abrangente da vida e nos mantém integrados ao nosso universo humano.
Por fim, um alimento fundamental para a alma é reservar, todos os dias, um pequeno espaço de silêncio, onde possamos, sem interrupção ou distração, nos encontrarmos com Deus.
Aqui não importa a forma de oração que adotamos, o fundamental é sentirmo-nos diante Dele em plena sintonia com esta fonte de Vida que gerou o universo e nos mantém em alegria e constante criatividade.
Afinal, como afirma um antigo provérbio: "Deus repousa na rocha, respira na natureza, sonha nos animais e se desperta no ser humano."