Hidrogênio deve mudar cotidiano no futuro
Texto: Fabiano Alcantara
Novas tecnologias com o uso do hidrogênio devem popularizar a adoção das células a combustível para obter energia; pesquisadoras da Unesp de Bauru atuam na área
2010. Um cidadão comum prepara-se para sair de casa. Com hidrogênio produzido em sua residência, ele acaba de abastecer o carro. Quando voltar, mais combustível já estará sendo armazenado. Além de fornecer hidrogênio para o motor do carro, a "casa inteligente" também produz energia para consumo interno.
A cena é futurista, mas o avanço das pesquisas envolvendo energias limpas e, principalmente, células a combustível, uma espécie de bateria química, prometem mudar bastante a vida cotidiana nos próximos anos.
Com o desenvolvimento de materiais nos últimos 15 anos, associada à crescente exigência de baixo impacto ambiental, a tecnologia de células a combustível tem se revelado bastante promissora no cenário mundial de energia.
As células a combustível funcionam como pilhas, ou seja, são dispositivos que convertem energia química diretamente em energia elétrica e térmica, com operação contínua, graças à alimentação constante de um combustível. Utilizando-se hidrogênio como combustível e oxigênio como oxidante, tem-se a formação de água e a produção de calor, além da liberação de elétrons livres, que geram a eletricidade.
Ao ser utilizado como fonte de energia em uma célula a combustível, o hidrogênio libera energia e não gera poluentes.
Na Unesp de Bauru, as pesquisadoras e professoras doutoras Joelma Perez e Margarida Juri Saeki desenvolvem um sistema que vai aproveitar melhor o calor gerado pelas reações da célula a combustível. A intenção da dupla, que é financiada pela Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é viabilizar a utilização prática da célula a combustível para produzir energia estacionária.
Em um primeiro momento, a energia obtida pelo sistema poderia alimentar casas, shoppings e pequenos estabelecimentos comerciais.
"No Japão, lojas de conveniência, que ficam abertas 24 horas, já testaram a célula a combustível", afirma Margarida.
Alternativa
A célula a combustível é considerada uma alternativa tanto para motores a combustão (unidades móveis), como para geradores de energia de médio porte e até plantas (unidades estacionárias).
No Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), situado na Universidade de São Paulo (USP), um grupo de pesquisadores da Electrocell desenvolve tecnologia para um carro movido a hidrogênio.
A empresa desenvolve periféricos e componentes para a célula a combustível, que poderia substituir os motores dos automóveis em um futuro próximo.
De acordo com o cientista Gerhard Ett, um dos proprietários da empresa, junto com Volkmar Ett, Ângelo Ebsui e Gilberto Janólio, a Electroctrocell está em negociação com três montadoras interessadas em comprar softwares e periféricos desenvolvidos por eles. A equipe de trabalho reúne 12 pessoas.
Os pesquisadores também planejam fornecer kits para casa.
"Quando acontece uma falha de energia poderia ser usada uma célula a combustível. Ou, em lugares do Nordeste, por exemplo, que não têm fiação elétrica e fica muito longe de um ponto de luz", afirma Ett.
De acordo com o cientista, o maior problema do carro movido a hidrogênio seria a distribuição comercial do gás. O problema poderia esbarrar também nos grandes grupos petrolíferos, que não iriam ficar nem um pouco satisfeitos com o possível fim ou diminuição do uso de combustíveis derivados do petróleo.
Mas o uso de combustíveis fósseis, que motivou guerras e gerou crises políticas e econômicas, poderia ficar assegurado mesmo com a adoção das células a combustível. É possível obter hidrogênio a partir de derivados do petróleo. O sistema que chama-se reforma de hidrocarbonetos leves poderia representar a sobrevida do "ouro negro". (com Agência Estado)