"Não perdi a eleição", afirma Tuga
Texto: Daniela Bochembuzo
Para o candidato do PSB à Prefeitura, os resultados das urnas demonstram que a população foi sábia e derrotou a ostentação e o autoritarismo
Em sua primeira entrevista após a eleição, Tuga Angerami, ex-candidato à Prefeitura pelo PSB, afirma que conclui o período eleitoral feliz. A felicidade se deve ao fato de acreditar que saiu vitorioso das urnas. A vitória, acredita, é por ter mantido o crescimento nas intenções de votos, mesmo após ter sofrido tantos ataques, que define como uma articulação de quatro candidatos.
Tuga, no entanto, não esconde que foi difícil ter perdido a eleição por uma margem pequena de votos, mas faz questão de reafirmar que os 52 mil votos que recebeu representam uma indicação expressiva e que retribuirá a isso fiscalizando os atos do Executivo.
"Tenho a obrigação de ter uma postura crítica em relação à administração do prefeito Nilson Costa. Isto não significa torcer para que a Administração não dê certo. Quero muito que dê certo, que a cidade comece a crescer e seja recuperada, e torço para que ele faça um bom governo, mas tenho um papel de estar atento", reforça.
Outro saldo positivo da eleição, lembra o ex-candidato, foi o apoio recebido do deputado estadual Carlos Braga. O parlamentar, que acompanhou Tuga Angerami na entrevista, também faz questão de afirmar que aprendeu bastante com o ex-prefeitável. Apesar da troca de elogios, os dois não elucidam os rumores sobre uma possível dobradinha em 2002. "Ainda é cedo para fazer planos eleitorais", diz Tuga.
Leia a seguir os principais da entrevista exclusiva concedida por Tuga Angerami ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - Qual a avaliação que o senhor faz da eleição?
Tuga Angerami - Em primeiro lugar, esta é a oportunidade de agradecer os 52 mil votos que recebi. É uma votação muito, muito importante, expressiva. Quero agradecer a todos que me apoiaram e isto vale para as chapas das duas coligações de sustentação. Tivemos vereadores que trabalharam junto, levaram meu nome, não fizeram exigências, não tiveram nem mesmo recurso suficiente para fazer nossa campanha e foram realmente guerreiros, heróis. Agradecer ao meu partido, o PSB, que me confiou a legenda para que pudesse disputar a Prefeitura. Agradecer aos partidos coligados, todos, que foram extremamente leais durante toda a campanha. E agradecer a um novo amigo e novo aliado, o deputado Carlos Braga, que demonstrou durante toda a campanha muita serenidade, firmeza, não negou apoio em momento algum. Para quem já está fazendo política partidária há, pelo menos, 18 anos, é bom descobrir gente nova na política, que vem com disposição para apoiar desinteressadamente, sem troca nenhuma, sem conchavo. Eu perdi as eleições e nós estamos aqui, e eu continuo a ter um apoio que é importante e desinteressado.
JC - Como foi perder por uma pequena margem de votos? Tuga - É óbvio, é mais fácil perder uma eleição quando a diferença
é grande do que quando é pequena, mas eu aprendi na minha vida pública e na pessoal a esperar vitórias e derrotas. Acho que a gente não deve estar preparado só para a vitória, mas também para a derrota. Então, reagi lamentando que, por um número tão pequeno de votos, a gente se veja privado de poder implementar um programa de governo que foi elaborado coletivamente, a partir de debates com a cidade, com os partidos que nos apoiaram e com setores organizados, mas vendo com muita tranqüilidade o resultado. Quem participa de uma disputa eleitoral tem que saber que a certeza é só o que sai das urnas.
JC - O senhor esperava que o resultado apontasse para um embate seu com Nilson Costa?
Tuga - Acho que o prefeito acabou se beneficiando até mesmo de um esquecimento. Fui alvo de quatro dos sete candidatos, num ataque articulado. Por isso, é óbvio que boa parte do meu tempo na televisão acabei utilizando para responder a esses ataques. Os outros candidatos se preocuparam tanto em me atacar e fizeram com que ocupasse meu tempo em respondê-los que o prefeito acabou passando incólume e se beneficiou disso, é claro. Não tive iniciativa de ataque a ninguém, pelo contrário, durante basicamente um mês fui atacado e não respondi. Depois, passei a ser cobrado tanto pelo meu grupo políticos quanto pela própria população a responder, então, basicamente na fase final, passamos a retrucar os ataques. Acho que nessa situação nós fomos reativos, nós não tínhamos uma estratégia eleitoral que implicasse em atacar A, B ou C. Nossa estratégia era apresentar propostas, dizer a que viemos, apresentar um programa político bem feito mas, lamentavelmente, depois de metade da campanha sendo alvo de quatro candidatos, passei a ser cobrado para responder aos ataques e foi o que fiz.
JC - O senhor acha que o resultado poderia ter sido diferente se não tivesse contra-atacado seus adversários?
Tuga - Nunca caí nas pesquisas, mas não sei como responder a essa pergunta. Para isso, teria que ter pesquisas. Tudo bem. Qual era a tática? A tática era apresentar e discutir propostas e fazer um programa bonito e bem feito, achei que a cidade esperava isso. Seguimos essa linha metade da campanha, até quando passamos a ser cobrados a responder os ataques. Se tivéssemos estrutura e condições, a gente deveria ter respondido e avaliado qual foi a repercussão da reação, mas não tínhamos. Então, não adianta dizer que teria sido melhor não responder aos ataques. O que eu sei é que, de qualquer forma, nós tivemos um crescimento permanente na campanha, quer dizer, acabei chegando a 52 mil votos. A questão foi que o prefeito, que estava em um patamar mais baixo, se beneficiou do esquecimento e pôde correr por fora e cresceu.
JC - Mesmo sem ter realizado essas pesquisas, o senhor consegue avaliar quais foram seus erros e seus acertos ao longo da campanha?
Tuga - Olha, eu me propus a mergulhar na realidade desta cidade e o fiz. Cheguei a promover perto de 400 reuniões. Todas as noites participava de quatro a cinco reuniões, achei que essa era a melhor forma de fazer campanha, não só para falar, mas para ouvir as pessoas, entendi que as pessoas queriam ser ouvidas, avalio que essa estratégia foi correta e a mantive até o final. Com relação à mídia, à campanha no horário eleitoral, acho que na metade dela seguimos a decisão que era de apresentar propostas e, na parte final, acabamos mudando a estratégia reativamente. Gostaria de ter podido até o final da campanha discutir propostas, agora, acho que a campanha foi correta e quero dizer mais: não considero derrota. Nós fomos vitoriosos e é fácil entender o por quê. Eu fui o alvo para o qual convergiram ataques, articulados, de quatro candidatos, e isso não me subtraiu votos. A tentativa de destruir a minha imagem pública não surtiu efeito, de tal modo que continuei crescendo. Agora, é óbvio, que se pudéssemos optar, a gente teria mantido a mesma linha de proposta durante todo o programa político e, lamentavelmente, essa não foi a postura dos outros quatro candidatos. Lamento, gostaria de ter feito uma campanha propositiva do começo ao fim.
JC - Embora não tenham sido ataques diretos, no final da campanha, o candidato Nilson Costa também o atacou. Por que o senhor não reagiu a isso também? Tuga - Veja só, você tem uma questão de limiar. O nível de ataque, e até baixaria, de outros candidatos foi tão grande, que o limiar acaba aumentado, então, pequenas alfinetadas acabam ficando em plano secundário, são relevados.
JC - Porque, ao não atacar Nilson Costa, a idéia que se tinha era que havia um respeito entre os senhores.
Tuga - Havia meu respeito por parte de todos os candidatos no início da campanha. Na realidade, se houve perda de respeito, isso aconteceu em razão da postura intolerável de outros candidatos, que desrespeitava até mesmo regras mínimas de civilidade. Não transformo disputa eleitoral numa guerra pessoal, por isso, acredito que possa continuar tendo uma relação respeitosa, de civilidade. Agora, quando as pessoas desrespeitam essas regras mínimas, aí as pessoas te levam a perder o respeito por elas. Não vi motivos para perder respeito com Nilson Costa. É óbvio, ele disputou comigo, ele usou de alguns artifícios incorretos, Por exemplo, não achei ético que, no último programa de TV, ele se aproveitasse de gravação feita no dia da cassação do Izzo, onde a palavra de ordem era a unidade para poder se reconstruir esta cidade. Eu era deputado federal e todos que estavam lá tínhamos uma relevância política na cidade. Todos que fomos ao ato na Câmara fizemos um voto, não à pessoa Nilson Costa, mas a quem cabia recuperar um pouco a cidade, que estava um caos. Utilizar essas gravações me desagradou tremendamente, só que foi feito no programa final. Isto não foi
ético e foi ilegal, porque a lei não permite utilização de imagens de candidatos e militantes de outros partidos que não seja dentro do próprio programa. Se nós tivéssemos outro programa de TV, nós teríamos respondido a isso lamentando.
JC - Agora, quais são seus planos?
Tuga - Meus planos? Meu Deus. Olha, acho que é cedo para falar em planos eleitorais, mas não é cedo para falar em planos políticos. Nós fazemos política no dia a dia, voltei à universidade e vou me dedicar a ela em tempo integral, mas pode estar segura que vou continuar a fazer política, envolvido com as questões da cidade, e acho até o seguinte: os 52 mil votos que me foram dados praticamente me colocam em empate com o atual prefeito, isto me atribuiu uma responsabilidade. Tenho a obrigação de ter uma postura crítica em relação à administração do prefeito Nilson Costa. Vou fazer isso 24 horas por dia, até porque os votos que tive representam uma delegação, por outro lado, isto não significa torcer para que a Administração não dê certo. Quero muito que dê certo, que a cidade comece a crescer e seja recuperada, e torço para que ele faça um bom governo. Isto não tem nada a ver com o papel que devo ter. 52 mil votos são basicamente os votos que ele teve, você teve uma cidade dividida, então, se ele teve um pouco mais e chegou até lá, eu tenho um papel de estar atento, de usar aquilo que pude aprender ao longo da minha vida política e do conhecimento que foi produto deste mergulhar na realidade bauruense, enfim, usar tudo isso como forma de manter a Administração atenta. Além disso, é questão de grupo política. Disse lá trás da importância que foi para minha candidatura do apoio do grupo político do Carlos Braga. Acho que nós saímos de uma eleição com um desempenho muito bom e esse desempenho não é pessoal, é do grupo, é socializado, é do Carlos Braga também. E a partir daí cabe a nós avaliar o que o futuro pode colocar a nós como desafio. Gostaria muito de ter o deputado como parceiro político, independentemente de candidatura, estou falando de militância política, de envolvimento com as coisas da cidade e da região, gostaria muito de tê-lo como companheiro de caminhada. É óbvio, isso vai depender de uma avaliação dos nossos grupos políticos, que nós acabamos fundindo nesta campanha. O que precisamos ver agora é a possibilidade da construção de um projeto conjunto para o futuro, mas essa é uma questão de análise, de projeto pessoal. Quero colocar meu prestígio político à disposição para devolver este apoio que ele me deu, tanto em Bauru quanto na região.
JC - O senhor acha, em relação a 1996, que o eleitorado mudou?
Tuga - Sim e mudou para melhor. Porque disse não à ostentação, a gastos milionários, à descompostura política,
à violência verbal e o eleitorado derrotou tudo isso, ruidosamente. O eleitorado é quem constrói o perfil desse novo político.
JC - A coordenação política da sua campanha percebeu esse novo eleitorado?
Tuga - Não, não acho que a minha coordenação de campanha inventou um perfil político. Eu tenho um perfil político e não aceito ser transformado em um produto durante o período de campanha. Continuo a ser quem sou, continuo a dizer o que acho, a ter os meus defeitos e minhas poucas virtudes. Nunca aceitei a condição de ser mercadoria para ser vendido ao eleitor. O que acho é que a cidade se cansou daquele perfil que descrevi antes, daquele descompensado, agressivo, com discurso violento, desequilibrado, esbanjador, milionário e autoritário, foi um massacre. E meu perfil não é esse, da mesma forma que o perfil do prefeito também não é. Talvez até por isso, o prefeito não tem esse perfil e eu também não, que chegamos ao final com tantos votos e com uma diferença tão apertada.