Memórias olímpicas
Texto: Gustavo Cândido
No final da Olimpíada ele estava entre os dez melhores judocas da sua categoria no mundo
Jornal da Cidade - Há quanto tempo você pratica o judô?
Mário Sabino Jr. - Desde os 5 anos. Comecei por conselho do pediatra. Minha mãe queria que eu fizesse um esporte e ele aconselhou natação ou judô. Deixei a natação e fiquei com o judô.
JC - Antes da Olimpíada você já tinha conquistado que títulos no Brasil?
Mário - A única competição que eu não ganhei foram os Jogos Abertos, fiquei oito vezes em segundo, mas ainda estou na fila. O resto ganhei tudo, Paulista, Brasileiro, Brasileiro Universitário, Absoluto, Pan-americano Junior...
JC - Estar na Olimpíada é o máximo que um judoca pode alcançar, mais do que o Campeonato Mundial?
Mário - É o máximo. Eu já tinha participado da seletiva para Barcelona, em 92, quando ainda era júnior, fiquei em terceiro na seletiva. Em 96, para Atlanta, eu também fiz a seletiva, mas perdi na semifinal, estava saindo de uma contusão. Agora chegou o vez, ganhei a seletiva e fui.
JC - Como foi a experiência na Austrália?
Mário - Ficamos duas semanas num hotel em Camberra, chegamos antes para fazer uma adaptação. Estavam lá o pessoal na natação, do atletismo, todo mundo, menos o futebol. Com o tempo todos vão se conhecendo e se enturmando. Tinha uma sala de jogos onde a gente ficava, tinha a Internet. Eu fui para a vila só dois dias antes de lutar. Na casa onde eu fiquei estavam o pessoal do tênis, tênis de mesa e do judô. Eram umas 15 pessoas dentro da casa. Mas era grande, com seis quartos.
JC - Quem estava lá, o Guga?
Mário - O Guga, o Jaime (Oncins), o técnico do Guga, o Larri Passos, que é maluquinho de tudo... São todos gente boa. Nos primeiros dias todos não se conheciam e ficavam meio tímidos, não demorou muito e o Guga já estava colocando apelido em todo mundo.
JC - Qual era o seu?
Mário - "Big Coke" (Coca-Cola grande), o Carlos Honorato (vencedor da medalha de prata) era o "Mike Tyson", porque era forte. O Thiago Camilo (outro medalhista) era o "Pão com Molho", porque ele é branquinho e tem o cabelo ruivo, para o Guga e o técnico da equipe de tênis de mesa parecia um pedaço de pão passado no molho (risos).
JC - O Guga não tinha apelido?
Mário - Ele era o "Estopa", porque o cabelo dele é enorme. Quando ele levantava de manhã o cabelo estava desse tamanho (faz um gesto com os braços em volta da cabeça), parecia o Visconde de Sabugosa (risos). O pessoal do tênis ia assistir as lutas, o Guga até falou para um repórter, depois de uma vitória, que tinha dado dois wazaris (pontuação do judô) no adversário. Ele disse que agora sabia tudo de judô porque tinha aprendido com os amigos da vila. O Larri até brincou que ia abrir uma academia de judô. É um clima diferente na vila, porque lá não tem diferença entre um cara que tem um patrimônio US$ 3 milhões como Guga, e eu que sou policial militar. Está todo mundo torcendo e querendo representar bem o seu país. Era um clima legal, um clima que eu quero sentir de novo em Atenas. Vou tentar de novo, com 32 anos vou estar no auge porque, graças a Deus, o judô permite que você lute acima dos 30. O Aurélio
(Miguel) está com 37 anos e aposto que vai estar na seletiva para o Mundial em dezembro. Acho que vou ter que enfrentá-lo de novo.
JC - A vitória no judô é uma questão de detalhes, do judoca saber o momento certo de atacar e se defender?
Mário - Sim. É o caso do Honorato. Eu estava vendo a luta de perto. Ele estava vencendo, o adversário já tinha lutado com ele no mundial e quando o Honorato se cansou, levou um golpe, conseguiu se livrar e deu um ippon
(termo equivalente ao nocaute no boxe, que encerra a luta). Eles estavam se estudando o tempo todo, na hora H, ele conseguiu segurar. O japonês quebrou o braço, foi horrível, eles nem reprisaram o ippon no telão como faziam sempre.
É uma questão de detalhe. Na minha primeira luta, como eu não conhecia o alemão nem ele me conhecia, fomos nos estudando. No final da luta eu fiz um yuko (pontuação do judô), ele teve que "abrir" e eu dei um ippon. O mesmo aconteceu quando lutei com o israelense. Fui penalizado duas vezes, tive que "abrir" e acabei levando um ippon. São muitos os detalhes, muitos campeões mundiais e vices foram até lá e ficaram sem medalha, alguns nem entre os sete melhores.
JC - O Brasil continua sendo um dos países com os melhores judocas?
Mário - O Brasil ficou em nono no quadro geral do judô, só dois judocas não ficaram entre os dez melhores do mundo. Foi um bom resultado, mas poderia ser melhor se tivesse mais apoio não só no ano olímpico. Poderíamos estar entre os cinco melhores ao lado do Japão, da França e da Coréia. Na França, inclusive, o judô é profissional, na Alemanha e na Holanda, também.
JC - Você viu todas as lutas? Viu o Thiago?
Mário - Não. A televisão não estava transmitindo para Camberra. Quando o Thiago lutou a gente entrou num bate-papo com o pessoal aqui no Brasil e foi sabendo da luta na hora. O pessoal daqui foi narrando.
JC - E outros jogos, você viu?
Mário - Vimos a derrota do Brasil para a Alemanha na primeira fase do futebol feminino e também os amistosos do vôlei masculino contra a Austrália. O pessoal dos outros esportes vinham para ver o judô.
JC - Por que você acha que em alguns esportes o Brasil não conseguiu ganhar o ouro quando tinha totais condições?
Mário - Em alguns casos, como no caso do Rodrigo Pessoa, foi azar, não dava para prever que o cavalo iria se machucar. Muita gente disse que o pessoal não teve cabeça, eu não acho que o cara que chega na final perde a cabeça.
É uma coisa do momento, às vezes da qualidade do adversário. Não tem ninguém ruim numa Olimpíada, o cara que está do outro lado é, no mínino, tão bom como você. Se bobear, ele vence. Eu acho que faltou um pouco mais de trabalho. Não dá para investir só depois que o país ganha algumas medalhas nos jogos pan-americanos. Fizemos cinco confrontos com a Itália e perdemos todos, o técnico italiano comentou que o trabalho deles é de quatro anos visando a Olimpíada, aqui no Brasil o pessoal começa a se preocupar um ano antes da competição. Aqui é tudo muito difícil, os únicos esportes que têm investimento a longo prazo são o vôlei e o futebol, com exceção dos atletas como o Guga e o Torben Grael, que não precisam de patrocínio. Para Atenas o trabalho deveria começar o ano que vem, por exemplo. É escolher os atletas que poderão participar e trabalhar em cima deles.
JC - A pressão por uma medalha atrapalha muito?
Mário - Me desculpe falar isso, mas a mídia extrapola um pouco quando coloca alguém como favorito. Alguns são campeões, mas esporte não é uma coisa premeditada. Não dá para afirmar que alguém vai trazer uma medalha de ouro. Ninguém está morto do outro lado. Um cara é favorito, mas competindo com ele tem mais oito favoritos. Está todo mundo atrás de medalhas. A pressão atrapalha um pouco, sim.
JC - O que de mais diferente você viu na Austrália?
Mário - Os cangurus, com certeza. Fomos a um zoológico e os vimos. Vimos também o famoso "demônio da Tasmânia", que é como um rato gigante e feroz, e o Coala, que é preguiçoso, dorme 20 horas por dia. O canguru que vimos era de um tipo menor, que dá para alimentar, chegar perto... Tem outra espécie na qual o macho chega a ter 2 metros de altura e uma garra que corta muito. Esse tipo é perigoso.