Amizade eterna
Texto: Gustavo Cândido
Muitas vezes não é fácil manter uma amizade. Por mais que se goste de uma pessoa, conviver com ela significa ter de compartilhar opiniões e pontos de vista, mas também se opor em vários aspectos, já que um não
é exatamente igual ao outro. Por conta disso, nem todo mundo tem a capacidade de conservar um amigo por muito tempo. Por anos a fio, então, são raríssimas as pessoas que conseguem. Qual a fórmula para se manter amigo de uma pessoa por tantos anos? Entre outras pessoas, as formandas da turma de 1975 do Colégio São José podem contar o segredo.
As ex-alunas do mais tradicional colégio de Bauru vão se reunir no final do mês para comemorar o jubileu de prata da turma, juntamente com integrantes da classe de 1950, que vão comemorar o jubileu de ouro. Para completar a festa, as duas turmas ainda uniram as celebrações a uma homenagem aos 100 anos de presença das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus no Brasil.
A idéia de unir a turma de 75, que acabou gerando toda a comemoração, veio de um grupo de ex-alunas "liderado" pela psicóloga Mônica Ribeiro Haddad. Embora muitas das colegas de escola tivessem continuado a se encontrar com o passar dos anos, algumas até se tornaram mais íntimas ainda, toda a turma não se reunia desde o fim da escola. Algumas mudaram de cidade e até de país. "No total serão cerca de 120 ex-alunas se reunindo", conta Mônica Haddad.
Na opinião da engenheira Ana Neri Kanabara, a oportunidade de encontrar as amigas do passado é maravilhosa. Ela diz que ficou muito entusiasmada com a possibilidade de ver as ex-colegas de escola, até porque perdeu o contato com algumas delas.
"É difícil, às vezes, manter o contato por tanto tempo, a gente ouve falar do que aconteceu com uma ou com outra mas, na prática, só acaba tendo contato com algumas. A reunião é uma coisa que eu não posso perder", afirma. Uma dessas amigas com quem ela conservou por todo esse tempo foi a arquiteta Maria Helena Rigitano. "Trabalhamos quase na mesma área e nos encontramos sempre e isso facilitou", conta a engenheira.
A amiga, Maria Helena Rigitano, mantém contato com mais ex-colegas de escola, algumas até que moram em outras cidades.
"Tivemos a felicidade de permanecer como um turma pela vida inteira, porque algumas delas eu conheci no pré-primário e criamos um vínculo que hoje nem meus filhos formam na escola, pois a cada dia há uma mudança, tem gente chegando e saindo", diz a arquiteta. Na opinião dela, a reunião com a amigas de 25 anos vai ser um ótimo momento para relembrar os tempos de escola, rever fotos e colocar as notícias em dia com aquelas que estão mais distante.
"As amigas de Bauru eu vejo sempre, é engraçado, porque em alguns casos nossos filhos são amigos", explica. Maria Helena diz que, após a reunião em comemoração das bodas de prata da turma, e idéia
é criar uma associação com as ex-alunas do São José para que os encontros possam acontecer com mais freqüência.
Para a psicóloga Mônica Haddad, o fato de ter permanecido em Bauru foi um fator importante para ter continuado amiga de muitas colegas de escola, mas não foi só isso e o contato com as que moram em outra cidade, muitas vezes, mesmo que através da família, prova isso. "O que fez a gente manter essa amizade por muito tempo foi a nossa formação juntas. Nós nos conhecemos na infância e crescemos juntas, criando e descobrindo afinidades, por isso mesmo estando longe, às vezes, é como se estivéssemos perto", diz. Na opinião de Mônica, a escola também favoreceu a união entre elas. "Nós íamos estudar uma na casa da outra, dormíamos na casa das amigas, praticamente crescemos juntas". Maria Helena Rigitano confirma:
"nós frenqüetávamos os mesmos lugares, o clube, a escola, a igreja... Tínhamos os mesmo interesses", conta.
Para Mônica Haddad, o fato de ter conhecido as amigas ainda na infância é fundamental. "As amizades da infância, quando têm chance de se prolongar, são as que mais marcam. É nessa fase que a gente é mais sincero, que não tem interesses e acaba se unindo a uma pessoa por afinidade pura", define.
Lado a lado
Mas nem sempre é preciso conhecer a pessoas desde cedo para torná-la sua amiga para a vida. As vizinhas Maria Aparecida Aguiar e Dorotéia Santos, ambas donas de casa, se conhecem há 35 anos e, como diz a última, "se conhecem por toda a vida", embora já estivessem na casa dos 30 quando se encontraram pela primeira vez. "Me mudei para Bauru, vinda de Reginópolis, e a Dorotéia já morava aqui. Naquela época, não tinha muita gente vivendo por perto, ficamos amigas rápido", diz Maria Aparecida, que se tornou "a comadre" da amiga quando essa teve o segundo filho, que ela batizou. "O segredo para conservar uma amizade por tanto tempo acho que é, primeiro, gostar da pessoa, depois, ser verdadeira, falar tudo o que estiver com vontade", ensina Dorotéia. A afirmação tem uma razão de ser, quem pensa que as duas amigas passaram todo esse tempo sem brigar se engana. "Brigamos várias vezes, é comum entre amigas", diz Maria Aparecida. O que fez as duas não pararem de ir até o muro que divide suas casas para conversar todos os dias foi a necessidade.
"Precisei pedir uma vela emprestada para ela, então tivemos que conversar mesmo brigadas. Depois disso, nunca mais brigamos e lá se vão uns trinta e poucos anos", relembra Maria.
Mais fácil antigamente
Na opinião do professor Antônio Carlos Arruda, era mais fácil fazer amizade há alguns anos do que é hoje. "Tiro isso pelos meus filhos e sobrinhos, vejo que eles sempre mudam de amigos a cada ano, hoje parece que eles se cansam mais dos amigos", diz. Arruda tem dois "melhores amigos" há muito tempo. Um deles, o primo Carlos, com quem, praticamente, cresceu na fazenda do tio, "passava muito tempo lá e ele é meu amigo e compadre até hoje", conta. O outro amigo é o colega de profissão, chamado Hamilton, ou "Miltão", como diz Arruda.
"Hoje jogamos futebol sempre e, além do trabalho, nossas famílias também são amigas, já fizemos até algumas viagens juntos".
Para o estudante Sérgio Carvalho, de 25 anos, uma amizade mais longa hoje talvez seja mais difícil porque as pessoas não são mais tão ligadas às raízes como antes e estão sempre mudando de lugar. "É difícil ver alguém que cresça e fique na sua cidade até ter sua própria família. Meus pais, por exemplo, sempre moraram no mesmo lugar a vida toda. Eu sei que isso não vai acontecer comigo. Logo, logo, os meus amigos de hoje vão ficar por aqui e eu vou embora", acredita. Segundo Carvalho sua amizade mais antiga tem 5 anos.
"É um colega de colegial com quem falo até hoje, mas é o único", revela.
Superamigas
Para a também estudante Ana Maria Penedo, de 27 anos, a impressão que fica é que as mulheres são mais capazes de manter uma amizade por um longo tempo, "desde que ela seja verdadeira". Ela não acredita que a chamada
"rivalidade feminina", possa inteferir a ponto de tornar isso impossível e usa o seu caso como exemplo. "Moro em Bauru há quatro anos, mesmo assim ainda continuo muito amiga da Ana Carolina, uma menina que conheci quando estava na escola e tinha uns 5 anos", diz. "A gente se fala pelo menos uma vez por semana, é como se morássemos na mesma cidade". No próximo mês, Ana Maria vai se tornar madrinha da filha da amiga que nasceu há três meses. "É mais uma prova que a nossa amizade não morreu, nem vai morrer", decreta. A psicóloga Mônica Haddad tem uma opinião parecida: "nos momentos mais importantes de nossas vidas, como em casamentos, festas e nascimentos, estivemos unidas", diz sobre as amigas da escola, "por isso a amizade nunca acabou".