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Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

...Com a boca cheia de dentes esperando a morte chegar?

Texto: Padre Beto / Especial para o JC Cultura

Os alunos se mantém curiosos e um pouco apreensivos ao serem conduzidos pelo professor John Keating à sala de prêmios do colégio. É a primeira aula do semestre com o novo professor de literatura, um ex-aluno do tradicional colégio americano Welton que retorna a este como docente depois de seus anos de universidade na Inglaterra.

Professor Keating os coloca em frente à galeria de troféus e fotos onde podem ser vistos os antigos alunos. Dentro de um ambiente gótico e quase monástico contemplam os alunos de Keating times formados por pessoas semelhantes a eles: jovens vigorosos, cheiros de orgulho, invencíveis, prontos para enfrentar qualquer adversário.

Mas desta vez não seria relatada nenhuma das vitórias e conquistas realizadas pelas antigas turmas. Depois da leitura de um poema de Walt Whitman feita pelo aluno Pitts, o professor Keating chama a atenção de seus alunos para outro aspecto presente naquela galeria de fotos e troféus: aqueles corpos invencíveis e atraentes ali expostos são hoje "adubo para plantas".

Vivos somente na memória do passado são testemunhas do tempo que passa, da vida que foi sem retorno e da morte que os obriga a partir. Nesta estranha aula de literatura, a galeria de fotos deixa de ser um retrato das vitórias e conquistas do colégio e se torna um apelo para a vida: jovens, tornem suas vidas extraordinárias!

Através da expressão latina "Carpe diem" tenta o professor Keating, incorporado pelo ator Robim Williams, despertar sua turma da entorpecente ilusão da eterna juventude, para confrontá-los com a realidade do tempo e da morte. Nesta e em outras seqüências do filme "Sociedade dos Poetas Mortos" de Peter Weir somos levados a uma verdadeira

"meditatio mortis".

Queiramos ou não, a morte é o fato

mais certo em toda nossa vida. Quando e como ela se manifestará

é difícil de dizer, mas que todo o ser humano fará em um certo dia a experiência da morte é algo incontestável.

Quando tomamos consciência de que a vida é passageira, o momento presente torna-se para nós algo de fundamental.

É necessário vivê-lo, e vivê-lo bem, pois o futuro que imaginamos pode ser que não venha a existir.

Portanto, deveríamos nos recordar, a cada manhã, do lema do filosofo grego Epicuro, "carpe diem" (aproveite o dia!) e procurar fazer de nosso dia algo de bem-aventurado, realizando assim uma verdadeira "vita activa".

A filósofa Hanna Arendt analisa este tornar-se ativo não pela perspectiva

da morte, mas pelo seu oposto, pela perspectiva do nascimento. O nascimento de uma criança significa a esperança de algo novo.

Na natalidade está a possibilidade do mundo recomeçar. No surgimento de um ser humano está depositada a perspectiva de continuação, de mudança e de construção da felicidade no mundo.

A partir do nosso nascimento nos desenvolvemos em constante interação com o mundo e nos inserimos nele através de nossas palavras e de nossos atos, tornando-nos assim seres políticos.

O nosso agir no mundo é como se fosse um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos durante nossa vida o fato original e singular do nosso aparecimento físico. Realizar algo de bom no mundo significa dar razão à nossa existência.

Esta consciência social é fundamental para entendermos que o "carpe diem" pode nos levar à felicidade quando não for entendido de forma egoísta. Aproveitar o dia só tem sentido se construímos ou fazemos algo de bom para os outros, com a consciência de que podemos contribuir com a caminhada e a felicidade das pessoas que convivem

conosco.

Tornar-se ativo é dar sentido à vida não deixando que ela se resuma em

estar "sentado na poltrona, com a boca cheia de dentes, esperando a morte chegar", como escreve o profeta Raul Seixas.

É triste deixar passar a chance da vida, pois afinal de contas só se vive uma vez e o tempo é maravilhosamente dinâmico, mas também terrivelmente ingrato. Cada momento é único e o mesmo é passageiro, não retornando mais. Creio que o pior arrependimento não é o arrependimento de muitas de nossas ações, mas o arrependimento de nossas omissões.

É muito amargo quando pensamos que poderíamos ter sido ativos em determinado momento da vida e não fomos. A nossa condição humana se realiza somente no concreto, transformando nossa vida para melhor e não nos deixarmos viver platonicamente com sonhos estéreis. Um bom recomeço

é fazer uma leitura do livro bíblico "Eclesiastes", assistir o filme "Sociedade dos Poetas Mortos", fazer uma retrospectiva da nossa caminhada até aqui e tornar-se livremente ativo. "Mesmo que eu morresse amanhã eu plantaria ainda hoje uma macieira." (Matinho Lutero).

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