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Legião Estrangeira

Eva Rodrigues
| Tempo de leitura: 6 min

Legião Estrangeira acolhe recrutas do mundo todo

Texto: Eva Rodrigues

Espírito aventureiro, idealismo, falta de perspectivas? O que poderia fazer alguém abandonar a vida no país de origem para juntar-se a um grupo em defesa da França?

É no mínimo instigante buscar essa resposta junto aos legionários de todos os cantos do planeta que chegam diariamente à Legião Estrangeira, instituição ligada ao governo francês. Tradicionalmente reduto masculino, na última semana foi divulgada a possibilidade de mulheres nas suas fileiras.

A Legião Estrangeira, corpo de elite das armas de terra da França, foi criada em 1831 e conta com um efetivo de 7.800 homens, de 138 nacionalidades, divididos em dez regimentos. Retratada em muitos filmes - quem não se lembra daqueles homens usando o célebre quepe branco -, a Legião Estrangeira parece permear o imaginário de muita gente.

Como se tornar um legionário? Aí começam as dificuldades, pois não há no Brasil nenhum órgão representante da Legião e a Embaixada da França, que até dois anos atrás dava informações, hoje limita-se a passar um endereço para correspondência ou um endereço de site francês.

Um personagem bauruense, Marcos Bastazini, 32 anos, vislumbrava a carreira militar mas sempre se deparava com a difícil concorrência dos concursos públicos brasileiros. Com o interesse despertado pela Legião Estrangeira através de alguns filmes que assistiu, quando ficou desempregado, há seis meses, resolveu perseguir o sonho. "Enviei uma correspondência para a Legião, mas não obtive resposta; aí pedi ajuda para uma pessoa que fala francês, liguei pra lá e descobri que eles recrutam pessoas de 17 a 40 anos, de qualquer raça ou país", conta.

Há cerca de quinze dias, Bastazini fez as malas e partiu para Paris com a idéia de juntar-se à Legião. Dirigiu-se ao posto de recrutamento "Fort de Nogent" e passou por um processo seletivo: exames médicos, testes psicotécnicos e físicos. "Comigo havia mais trinta candidatos, entre alemães, sérvios, chineses, japoneses, do mundo todo", enumera. Apto, Marcos teria apenas que passar por entrevistas para se tornar um legionário.

"Se topasse, assinaria um contrato incondicional de cinco anos de trabalho, teria um salário de 5.500 francos (cerca de R$ 1.355,00) e só sairia se desertasse."

O quase recruta, já com os pés na França, desistiu na última hora e explica: "Quando cheguei lá e percebi o tamanho da Legião Estrangeira e as condições proporcionadas para a carreira militar, resolvi voltar, assim continuaria perto da minha família e poderia divulgar o recrutamento da Legião para todos que estejam como eu - desempregados, com mais de 30 anos e com vontade de seguir uma carreira militar".

Mais do que seguir carreira militar, Bastazini admite que a perda do emprego - ele trabalhava na área de vendas - foi fator primordial para que fosse em busca da Legião. "O que me levou a procurar essa opção foi a possibilidade de uma estabilidade no trabalho e de seguir uma carreira."

Outro brasileiro de Maringá, Marcos Geraldo Braguine Ferreira, teve sua história com a Legião Estrangeira e acabou se tornando um divulgador através do livro "Legião Estrangeira - França" que já teve um pré-lançamento. Ele conta que procurou a Legião pela primeira vez em 1997, passou nos testes mas não ficou pois, segundo conta, as regras da Legião definiam que não houvesse contato com os familiares durante seis meses e ele acabou retornando "pela responsabilidade com a família". Numa segunda tentativa em 1998, desta vez disposto a ficar, Ferreira foi recrutado em Perpignan e foi mandado embora depois de um mês porque descobriu-se que ele havia estado em outro regimento no ano anterior, o que não era permitido. Nem mesmo essa história desencontrada o fez desistir da paixão pela Legião e o resultado de anos de pesquisa pode ser conferido em livro.

Esquecendo o passado

Movidos por um espírito aventureiro, muitos legionários juntam-se ao grupo também levados por uma crise, seja familiar, pessoal ou social. Para livrar-se do incômodo passado, o legionário pode manter-se no anonimato com o uso de um pseudônimo. "Tendo perdido suas raízes, ele está pronto a dar tudo o que tem, mesmo sua vida. Este estado de espírito une os legionários uns aos outros e explica a natureza de seu relacionamento marcado por uma ausência de rivalidade e uma forte coesão feita de rigor, solidariedade e de respeito às tradições", discorre um site dedicado aos legionários.

O envolvimento com a Legião parece algo muito significativo para quem por lá passou - numa rápida pesquisa pela rede mundial de computadores é muito fácil encontrar páginas pessoais dedicadas à divulgação de fotos, histórias e recordações dos tempos como legionário.

O caminho para a Legião Estrangeira

Para ser um legionário, o candidato - de 17 a 40 anos e portador de um documento de identidade - deve se dirigir a um dos postos de recrutamento da Legião (em vários lugares na França) e passar por um processo seletivo que engloba exames médicos, testes psicotécnicos e físicos e entrevistas. As despesas de viagem são por conta do candidato.

Ao ser aprovado, o legionário assina um contrato inicial de cinco anos e passa a receber um salário (5.500 francos franceses). Logo de início, o recruta recebe uma instrução militar de base durante quatro meses. Combatente de elite, o legionário pode se aperfeiçoar em técnicas como paraquedismo, mergulho, atirador de elite, entre outras, ou adquirir, segundo as necessidades da Legião, uma qualificação em áreas como administração, transmissão, condução, engenharia ou manutenção.

Depois dos cinco primeiros anos, o legionário tem a opção de assinar contratos de seis em seis meses ou a cada ano - depois de quinze anos de serviço tem direito a aposentadoria.

Fator histórico

Um trecho do livro "Legião Estrangeira - França" fala da filosofia de recrutar estrangeiros: "Desde o reinado de Luís XVI, no século 15, já havia a guarda escocesa na França. Reis posteriores, de François I a Luís XVI, fizeram uso de tropas da Alemanha e Suíça. Durante a Revolução Francesa, a Assembléia Nacional, face à invasão Prussiana, havia criado no dia 7 de junho de 1792 uma legião estrangeira voluntária. Várias outras legiões de italianos, poloneses e tropas holandesas foram formadas durante as guerras revolucionárias e Napoleão incluiu em suas tropas homens portugueses, espanhóis, além de legiões romanas e polonesas.

Desmembrada em 1815, em decorrência da queda do imperador, remanescentes desta unidade se reuniram e reapareceram alguns meses mais tarde com o título de Legião Estrangeira Real. Em 1821, essa unidade foi reintitulada com o nome de Regimento Hohinlohi.

Depois de 10 anos, nos primeiros dias do reinado de Louis Philippe, o Regimento de Hohinlohi foi desmembrado durante a reorganização do Exército francês para ser amplamente constituído e eventualmente receber o nome definitivo de Legião Estrangeira.

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