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Moda

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Sob a ditadura da moda

Texto: Gustavo Cândido

Por mais que existam justificativas para a cirurgia plástica,

é inegável que as tendências da moda vigentes influenciam o comportamento de várias mulheres, principalmente as mais novas. Se não fosse assim, o número de plásticas não seria tão grande, e também seria menor a procura por academia e métodos milagrosos de emagrecimento e também a procura pela carreira de modelo. Ser levada por essa influência pode não ter nada de positivo.

"Eu não faria uma plástica, não me importo com o modismo", afirma a recepcionista Renata Lourenço, 29 anos. A estudante Mariane Galdino, 14 anos, também não se importa com a moda, "não faria uma plástica, só se fosse num caso de necessidade mesmo, não para seguir a moda", diz. As duas são uma exceção.

Na opinião da psicóloga Aline Sabbag Sevilha, o desejo das jovens de estarem sempre dentro da moda reflete a necessidade que elas sentem de se identificarem com o grupo. "Ser mais bela é uma forma de ser aceita nesse grupo", diz. A psicóloga destaca que a cirurgia plástica é um aspecto de identificação cultural do momento e o adolescente fica tentado a se submeter porque um número grande de pessoas também estão fazendo isso.

A preocupação exagerada das jovens com a plástica deve ser vista com cuidado, para Aline Sevilha, "seus corpos ainda estão se formando e seus ideais podem mudar com o tempo. Uma mudança, quando muito cedo, pode levar a uma decepção ou ao desejo de novas mudanças mais tarde", explica.

Antes de fazer a cirurgia, a jovem deve se questionar muito para saber se aquele é realmente o momento certo, explica a psicóloga. Uma das razões para isso é não só a possibilidade de um arrependimento futuro mas também o fato dela estar escondendo algum outro problema por trás de sua preocupação com a aparência. "Muitas vezes, o desejo de estar sempre dentro da moda, mesmo que isso signifique fazer uma cirurgia pode ser sinal de uma carência afetiva", diz a psicóloga Elaine Olmo. Segundo ela, algumas pessoas procuram melhorar sempre o visual para ter a falsa impressão de que se todos a vêem como uma pessoa bonita é porque ela é alguém decidida, firme e forte. "É uma forma de estar escondendo suas reais necessidades", explica.

Casos e casos

Nem sempre se deve fazer uma cirurgia plástica na adolescência e juventude, na opinião da médica Carla de Oliveira Cardia, especialista na área. Quando a paciente é uma adolescente a situação é mais delicada porque, segundo a cirurgiã, o adolescente é muito instável psicologicamente e precisa ser muito bem orientado quanto aos riscos e possíveis resultados. "Ele precisa ser muito orientado para que não fique esperando um super-resultado", diz Carla Cardia. A médica diz que nesses casos, é fundamental que a família esteja presente e ciente de tudo o que vai acontecer, porque a ansiedade adolescente, muitas vezes acaba fazendo com que a jovem não preste atenção em todas recomendações necessárias antes e depois da cirurgia.

A cirurgiã diz que é a favor da plástica na adolescência em algumas situações: "o adolescente está num período de ajuste social, de aceitação, e, por exemplo, uma menina que tenha um nariz grande, vai sofrer com isso, então porque não fazer? O mesmo caso de uma mama grande demais, que a deixa constrangida na hora de ir a uma piscina, colocar um maiô, ou seja, que a impede de estar bem socialmente. Nesses casos acho que é aceitável", explica. Mas Carla Cardia lembra que as cirurgias devem ser feitas depois que o corpo já tiver amadurecido e não for mudar mais, "se uma paciente chega querendo fazer alguma coisa e o corpo ainda não está maduro, recomendo que ela espere um pouco", diz.

Quando a paciente já está com o corpo definido e mesmo assim quer fazer uma cirurgia, a médica afirma que o máximo que pode fazer é orientar: "quem sou eu para julgar o que ela acha bonito no seu próprio corpo, se ela já tem um seio bonito mas quer ter um maior ainda, explico que vai ficar um pouco exagerado, mas se mesmo assim ela quiser fazer... a escolha deve ser dela".

Para Carla Cardia, na realidade, muitas vezes, o problema não

é a mama ou qualquer outro detalhe da anatomia que incomoda, mas sim a sensação de que com a cirurgia ela vai ficar mais bonita, vai conseguir conquistar quem quiser, ser bem vista, etc. "O modismo é que é perigoso. A prótese de mama, por exemplo, é uma cirurgia séria. As pessoas precisam saber disso enquanto o médico tem que orientar muito e não entrar na moda", diz. (G.C.)

Lei contra a moda

A modelo que quiser aparecer daqui para a frente nas revistas de moda do Reino Unido terá de comer algo mais do que duas folhinhas de alface e um tomate por refeição. As editoras e o governo chegaram a um acordo para restringir o modelo de beleza tipo "pele e osso, representado por estrelas como Kate Moss. O governo culpa a indústria da moda pela pressão psicológica exercida sobre as adolescentes. Um relatório da Associação Médica Britânica acusa os profissionais da moda de levar as jovens a distúrbios alimentares como a anorexia.

"As adolescentes fazem regimes malucos para tentar se adequar ao modelo de beleza vendido pela mídia. O que precisamos

é de mais diversidade, que a moda passe a representar os vários tipos físicos que existem , disse à reportagem Nicky Bryant, diretora de uma associação de atendimento a quem sofre de desordem alimentar, doença que atinge cerca de 1 milhão de britânicos.

O governo britânico declarou guerra ao glamour das anoréxicas numa reunião com associações de mulheres, editores de moda, publicitários, médicos e representantes das agências de modelos. Foi acertado que as revistas serão responsáveis por sua própria disciplina. As publicações vão rejeitar as modelos magérrimas enviadas pelas agências. Se a agência só mandar garotas muito magras, sofrerá restrições no futuro.

"O mundo da moda é muito etéreo e existe o risco de se desligar da realidade , disse a editora da revista

"Marie Claire britânica, Liz Jones. "Também decidimos não usar mais garotas de certa idade. O modelo ideal de beleza daqui para a frente será moldado pelas estatísticas do governo britânico. Garotas saudáveis têm entre 22% e 26% de gordura no corpo. Já atrizes e modelos têm apenas entre 10% e 15%, diz o Ministério para a Mulher. Segundo esses critérios, as mulheres saudáveis devem ser um pouco mais

cheinhas do que a atriz norte-americana Marilyn Monroe (1926-62). Marilyn, que não era vista como exemplo de magreza em seu tempo, tinha apenas 20% de gordura no corpo.

Uma pesquisa recente da revista "Marie Claire britânica parece dar força aos argumentos em favor das mais gordinhas. No início de junho, a revista saiu com duas opções de capa: uma com a atriz Pamela Anderson "impossivelmente perfeita , e outra com a modelo britânica Sophie Dahl, "com curvas realistas . Cerca de 60% dos leitores optaram pela segunda.

Gordinhas gostaram

A modelo Philippa Allam, 23, ficou eufórica com a guerra

às anoréxicas declarada pelo governo britânico. Desde os 16 anos, ela vem lutando contra a balança e contra os critérios de beleza das agências de modelo. Quando começou sua carreira, em 1993, foi barrada por muitos promotores de moda sob o argumento que era muito alta e tinha os quadris muito largos. Philippa não era gorda, mas os diretores da agência onde trabalhava pediam para que fizesse dieta.

"Foi horrível, passei seis meses sem comer nada e nem assim eles ficavam satisfeitos. Eles querem que as garotas não tenham curvas, que se pareçam com a Kate Moss

, conta Philippa.

A pressão foi tanta que a garota desistiu de ser modelo, matriculou-se num curso universitário de relações internacionais, estudou línguas e deixou o regime de lado. Há dois anos, Philippa voltou ao mercado, dessa vez numa agência

especializada em garotas "saudáveis , como descreve a diretora Allison Branwill. Philipa se tornou a top model da agência Excel, tendo feito muitos desfiles e campanhas nos Estados Unidos. "O critério de beleza predominante ainda é o que valoriza a modelo do tipo da Gisele Bündchen, que, apesar de ter seios grandes, é muito magra. Mas está aumentando bastante o espaço para mulheres com mais curvas

, disse ela. Phillipa está especialmente feliz porque conseguiu manter sua carreira e não se vê forçada a nenhum sacrifício. "Como o que quero, mas não

é porque sou grande que me alimento só com hambúrguer ou batata frita, como se imagina das garotas mais cheinhas , disse Phillipa.

A agência Excel, que só trabalha com "tamanho extra , segundo Allison Branwill, tem 15 modelos. Além de fornecer garotas para as campanhas de lojas especializadas em mulheres com essas características, também consegue algum espaço entre as lojas de grifes mais badaladas. "É mais difícil porque essas lojas exigem mulheres pequenas

, diz Allinson, uma ex-modelo que migrou para a Excel depois de ter engordado alguns quilos. "Mas têm muita gente que já está trabalhando com mulheres mais "voluptuosas'.

(AF)

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