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Lançamento

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 7 min

Literatura dodecafônica

Texto: Ricardo Polettini

Escritor bauruense Paulo César Ruiz lança hoje o livro "Codice", no Centro Cultural; obra subverte o uso da língua portuguesa

Dá-se o nome de códice às primeiras publicações em formato próximo ao livro como conhecemos hoje, no entanto, ainda escritos à mão, sobre pergaminho. Os escritores da época, então, demoravam anos para escreverem suas obras.

Assim aconteceu com o bauruense Paulo César Ruiz, que lança hoje, a partir das 21 horas, no Centro Cultural, o livro "Codice". O autor conta que levou nada menos que seis anos para escrever as 80 páginas do livro. Ou seja, são cerca de 80 mil caracteres, que normalmente levariam três dias para serem escritos. "A obra original tinha 500 páginas, mas eu enxuguei, substituindo, às vezes, um capítulo inteiro por apenas uma palavra", resume Ruiz.

O livro é uma espécie de colagem dadaísta

(leia resenha), em que Ruiz subverte a língua portuguesa abolindo os parágrafos e o uso das maiúsculas, usando neologismos e quebrando a narrativa linear. Embora não tenha um enredo propriamente definido e não siga uma cronologia precisa, a obra partiu dos estudos de história brasileira feitos pelo autor, que o inspiraram a relatar a visão paradisíaca do País a partir da ótica dos grandes navegadores.

"Li tudo o que você imaginar sobre a história do Brasil, todos os grandes navegadores. A partir daí, narrei a minha versão dos fatos. É como tocar uma música dodecafônica de ouvido, uma escrita livre, usando a linguagem coloquial de cada lugar pelo qual passei nesses seis anos", explica.

No livro, estão trechos célebres, como "(...) nesta terra de lusco-fusco até relógio distrai, minuto vira hora, hora segundo, ora, segure firme, aperte o cinto, o mundo, no cimo, pode vir a calhar. eva, com certeza, avacalhou paraisso."

"Pode não parecer, mas no fundo é um livro muito sério, no entanto, sem compromisso nenhum com regras.

É um exercício de liberdade com a linguagem", define.

Entrando no clima

Para criar uma atmosfera condizente com o livro, longe das vernissages tradicionais que envolvem lançamentos tradicionais, Ruiz convidou os estudantes de artes André Bazan, Heitor, Marcelo, Sérgio e Wander para fazerem uma intervenção sonora, enquanto Piti fará uma escultura-instalação no local.

Viagem na vertigem em estado de impureza selvagem

Texto: Dennis Radünz / Especial para o JC Cultura *

Existem livros que estão além de sua mera matéria de papel sob as letras. Existem livros que nos transformam. Casos de "Grande Sertão: Veredas" e de "Um Copo de Cólera", ou, ainda, do pequeno primeiro grande livro do bauruense Paulo Ruiz.

"Codice", de Paulo César Ruiz (Ed. Letra D'Água, 80 páginas. R$ 10), é um experimento de linguagem em que confluem os métodos de escrita recorrentes (riocorrentes?) na literatura do ocidente. Concebido à luz dos códices romanos do século III - uma inovação pagã que consistia num papiro encadernado e manuscrito em letra contínua, ou seja, um rolo dobrado em páginas, e que, afirma Suetônio, foi primeiro usado por Júlio César no envio de ordens

às suas tropas -, o texto de Paulo incorpora a musicalidade do Simbolismo, a livre-associação de imagens do Surrealismo, a técnica da "colagem" intuída por Max Ernst e a escrita automática dos beatniks. Tudo isso imerso numa atmosfera sarcástica e não raro pueril, que traz na alma uns ecos de Jules Laforgue, Lautréamont e Alfred Jarry.

Difícil? Muito. Isso porque a máquina sensível de Ruiz mistura toda a música dodecafônica que ingeriu na redação diária de jornais ou na andança

ébria brasis afora, apenas para provocar o leitor com a sua torrente de palavras, imprecações, trocadilhos, frases de efeito, neologismos e anedotas, com o requinte de linguagem de quem jamais evita o erudito e o chulo, o baixo calão ou o hermético.

Essa folia de citações e de sátiras é o que faz a força bruta do texto. "Codice" é um recém-nascido na linhagem de livros precoces como "Finnegans Wake", de Joyce, "Galáxias", de Haroldo de Campos, ou "Catatau", de Paulo Leminski.

Com este, inclusive, tem campos de visão em comum, a começar pela (re)leitura da história brasileira em termos "antropofágicos". Se, em Leminski, o filósofo Renê Descartes deixa de ser cartesiano ante a inumerável paisagem dos trópicos, em Paulo Ruiz o que está em jogo são os relatos de viajantes em muitas épocas pós-"achamento", pinçados num rigor de pesquisa e escritura que consumiu seis anos da vida do escritor bauruense.

Assim, o narrador, bêbado e em primeira pessoa, mistura dados históricos e linguajares - do interior paulista, principalmente, o que dá certo ar "ocultista" para leitores brasileiros de outras terras -, numa confusão de relatos e histórias de vidas que é quase cartografia do caos. A epígrafe de "Codice", extraída de "Crepúsculo dos ídolos", obra do último Nietszche, é uma espécie de chave de leitura: "Temo que nunca nos livremos de Deus, posto que ainda cremos na gramática".

Com espírito inflamado, o texto todo é uma viagem na vertigem, com a linguagem em estado de impureza selvagem. Por isso, pede um leitor atento mais à música que ao enredo. Afinal, se lido em voz alta, com todas as suas pausas, silêncios e ruídos, mudanças de ritmo ou rupturas bruscas de pensamento, o que surge é um texto de invulgar densidade dramática, quase um monólogo em que o personagem hesita e, por isso mesmo, é demasiado humano.

Paulo, o próprio, insinua essa atitude de leitura não-passiva, mas criativa: "não faça ouvidos de mercador: você não é o rei? então, veja o ruído, lá dentro, dos vermes roendoendo, rumimamando o mundo, rindoruindorindo, bem fundo, o gostim é meio ruim. é que tu não foste criado no tapa como seus pares das antigas. essa de irmano ipse, neca, deu vacilo, lapso."

Em outra passagem, catada a esmo nesse inventário de achados raros, o que vem a tona é a fúria, antídoto contra o tédio: "o seguinte: ninguém mais manda em mim, estulpício virei, a culcanha é unha de minha cerne, descambei, amiúde, na devassidão, só não bulo com sonâmbulo, veni, vidi, vici e não me devulva a memória, num sebes?" E há também as frases lapidares, "aqui não se masmorre, se víveres", no melhor acorde roseano. O tema, no fundo, é a libido da linguagem, o prazer que a surpresa das palavras provoca, numa excitação/sedução textual que tem a ver com o melhor barroco.

"Codice" é um livro que exige um leitor jovial, afeito ao baque ou íntimo da ironia. Leitor mais do que contemporâneo, com um ouvido em Adoniran Barbosa e o outro em Júpiter Apple, Cornélius, Sonic Youth. Um leitor que experimente lê-lo em mesas de bares, em rodas de samba, ou entre ratos-de-biblioteca, a exemplo de seu primeiro leitor, o próprio Ruiz, que ia, de achado em achado, unindo fonemas, imagens e as sacações que ouvia (vivia?) a histórias de vidas catadas nas ruas de Londrina, Recife, Bauru, Fortaleza, Joinville, São Paulo. Isso porque esse códice pagão

é também auto-biografia.

O marginal Paulo César Ruiz, à margem da literaturazinha de mercado e da midiazinha de mentira, é do time da ousadia. Seu "Codice" é pra ser lido como um berro, ou como o canto de um bêbado que sonha coisas quixotescas. Depois de lê-lo, não tente se reconhecer à luz do espelho. Esse é um livro que transforma.

(*) Dennis Radünz, 29, é escritor, editor e letrista de música. Publicou o livro de poemas "Exeus"

(UFSC/Letras Contemporâneas, 98) e desenvolve projetos culturais em Blumenau, Joinville e Florianópolis (SC). Escreveu em colaboração ao JC Cultura.

Serviço

Lançamento do livro "Codice", hoje, 21h, no Centro Cultural. Grátis. O livro será vendido no local a R$ 10,00. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: 235-1072.

Atriz promove bate-papo

A atriz paulistana Cleite Queiroz conduz hoje, a partir das 21 horas, no Centro Cultural, um bate-papo sobre teatro, em conjunto com integrantes do Grupo Ato. Com mais de 30 anos de carreira, a atriz desenvolveu trabalhos importantes com o diretor Gabriel Villela e com o ator Carlos Moreno, além de já ter ministrado várias oficinas da área. A participação

é gratuita.

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