Morte de aluno escancara ações do PS
Texto: Josefa Cunha
A morte do estudante de Jornalismo Flávio Henrique Polaquini, de 21 anos, vítima de um aneurisma cerebral na última quinta-feira, promete abrir caminho para que os problemas do Pronto-Socorro Central de Bauru sejam escancarados. A unidade, referência municipal nos atendimentos de urgência e emergência, foi incapaz de diagnosticar a doença do paciente em tempo, embora a escala de plantonistas no horário de sua entrada, conforme apurou o Jornal da Cidade, indicasse a presença de dois especialistas em UTI e um neurologista - em tese, com condições de identificar o problema do paciente. As justificativas para o falecimento do rapaz vão da impossibilidade de cura da enfermidade à falta de estrutura humana e de aparelhagem, mas a verdade que começa a se descortinar com o episódio revela um esquema vicioso envolvendo a administração e vários médicos da unidade. As informações a seguir deixam a suspeita de que a população usuária do sistema está à mercê de condutas desumanizadas.
Um relatório-denúncia que deve ser encaminhado hoje ao Conselho Municipal de Saúde aponta condutas questionáveis por parte de vários membros do corpo clínico e da própria chefia da unidade, que privilegiaria os médicos da PS Central em prejuízo dos demais profissionais que atuam nos Pronto-Socorros periféricos - Vila Ipiranga, Bela Vista e Mary Dota. Como conseqüência, os plantonistas das unidades descentralizadas seriam resistentes em cobrir as lacunas deixadas pelos colegas do PS Central, uma vez que acabariam
"levando tudo nas costas".
Mais grave do que isso, porém, seria o fato de muitos plantonistas do PS Central manterem atividades paralelas, muitas vezes em horários concomitantes com o trabalho na unidade. Isso talvez explique o porquê de não se encontrar os profissionais nos períodos em que estão escalados. De acordo com o relatório-denúncia, é raro constatar a presença de toda a equipe plantonista, que durante à tarde mantém 5 clínicos gerais e, à noite e madrugada, quatro.
"No máximo trabalham dois", acusa o documento. Na madrugada, haveria um esquema de revezamento indevido entre a equipe: cada um trabalharia apenas duas horas, de forma a possibilitar o descanso dos outros, o que, às vezes, ocorreria até mesmo fora da unidade. Outro problema seria o atraso no ingresso dos plantonistas em seus respectivos turnos. Por conta da inobservância de horários, a unidade viveria constantemente desguarnecida nas trocas de turnos, notadamente às 13, às 19 e
às 7 horas.
Outro ponto questionável seria a conduta não resolutiva de muitos profissionais. Seria fato comum o paciente deixar a unidade sem receitas médicas e sem orientação para procurar especialistas. Resultado: o sintoma momentâneo
é sanado por conta da medicação ministrada na unidade, mas o paciente acaba retornando com o mesmo problema, quando não em situação agravada.
É o caso, por exemplo, do paciente R.S.V., que, na semana passada, chegou ao PS Central com escoriações extensas na região escapular e recebeu apenas curativo e injeção para dor. No dia seguinte, procurou outra unidade, apresentando inflamação e infecção na lesão por falta de medicação continuada. Sem dúvida, essa dupla ocorrência aparentemente comum no sistema onera os gastos do município com o setor de Saúde. Há denúncia, inclusive, de profissionais que solicitariam exames "incoerentes e desnecessários" apenas para "empurrar" o paciente para o colega do turno seguinte.
O pior de tudo é que esses procedimentos não seriam desconhecidos dos chefes da unidade. Pelo contrário, alguns seriam até coniventes com o esquema. Pelo que se pôde constatar no conteúdo do relatório, aliás, tais práticas estão consolidadas há anos.
"Um acaba acobertando o outro porque também faz parte do esquema. É o tal do rabo preso", detona o médico que subscreve a denúncia. O mesmo atrelamento foi confirmado por uma importante fonte da Secretaria Municipal de Saúde, para quem é necessidade imediata o desmantelamento desses acordos corporativistas na unidade central. A repercussão da morte de Flávio Henrique Polaquini, sobre a qual paira suspeitas de negligência, parece ter deflagrado o processo de mudanças na administração do PS Central.
Mesmo com o basta previsto no alegado esquema, as denúncias encaminhadas ao Conselho Municipal de Saúde tornam inadiável a realização de uma auditoria para apurar responsabilidades sobre as possíveis irregularidades verificadas nos últimos anos.
A investigação, inclusive, foi solicitada ontem pela vereadora Maria José Majô Jandreice (PC do B), presidente do Conselho Municipal de Saúde. "Protocolamos o pedido hoje, porque não podemos mais aceitar que suspeitas como essas continuem pairando sobre o Pronto-Socorro Central e, pior, possam estar prejudicando os atendimentos ao público. O caso do estudante veio somar-se a outras inúmeras queixas recebidas pelo Conselho e está mais do que na hora de descobrirmos o que realmente acontece lá", enfatizou Majô.
Polícia abre inquérito para apurar o caso
O delegado Dinair José da Silva, do 3.º Distrito Policial, informou ontem que instaurou inquérito para apurar as condições da morte do estudante Flávio Henrique Polaquini. O rapaz, de 21 anos, faleceu na última segunda-feira, após três dias de coma decorrente de um aneurisma cerebral. A doença que matou o estudante levou mais de cinco horas para ser diagnosticada e os amigos que o acompanharam durante o atendimento no Pronto-Socorro Central alegam que houve descaso e negligência no tratamento dispensado pela unidade de saúde.
O caso não foi registrado em boletim de ocorrência, mas o delegado diz que fatos como esse independem do procedimento.
"Se existem alegações de suposta negligência, imperícia ou imprudência médica, o inquérito
é necessário. Vamos apurar se houve imprecisão, retardo ou erro de diagnóstico", adiantou.
Presidindo cerca de 15 inquéritos envolvendo atendimentos questionáveis das unidades de saúde de Bauru, Silva pretende descobrir o que está acontecendo de errado. Na opinião dele, o número de ocorrências graves, como mortes e seqüelas sérias, é preocupante.
De janeiro a julho deste ano, 75.733 pessoas foram atendidas nos Prontos-Socorros da cidade - incluindo-se aí o Central, Vila Ipiranga, Bela Vista, Mary Dota e Pronto Atendimento Infantil
-, numa média de 10.800 atendimentos mensais. Numa conta superficial, Silva concluiu que as unidades recebem 360 pacientes por dia, 15 por hora, tendo apenas quatro minutos para atender cada um. "Esse dado nos faz repensar em que condições os atendimentos são feitos. Nesse inquérito, quero saber quantas vagas estão sendo reservadas para o SUS e para os convênios, enfim, saber se a culpa é realmente da estrutura deficitária", disse.
Silva fez questão de salientar que a investigação não tem juízo precipitado contra ninguém.
"O que nos interessa são os fatos. Portanto, vamos ouvir todos os envolvidos e colher o máximo de informações possíveis para chegar a uma conclusão. É
óbvio que não podemos resolver a lástima que está o setor da saúde, mas não podemos aceitar justificativas do tipo 'ele tinha que morrer mesmo'. Isso não", salientou.
Diretora critica estrutura física e mal uso da unidade
A diretora do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde, Marília Simões Garcia, acha que as constantes reclamações relativas ao Pronto-Socorro Central são resultado da péssima estrutura física da unidade e do desvio do público que realmente deveria ser atendido. Desde que começou a funcionar, há mais de uma década, o PS Central nunca foi ampliado ou reformado, embora a demanda tenha crescido vertiginosamente no período. "Apenas adaptações foram feitas", aponta.
De acordo com ela, o fluxo de trabalho na unidade deixa muito a desejar porque não há espaços apropriados para os atendimentos. Os pacientes que são colocados em observação acabam encostados nos corredores e os que se encontram em condições de "parar em pé" recebem soro sentados nos bancos de espera. Essa lamentável realidade, porém, não é verificada na unidade central. No PS da Bela Vista, situações do tipo ocorrem diariamente. "Temos apenas 14 leitos para os pacientes em observação e agora, no verão, a deficiência será maior ainda, uma vez que os casos de desidratação, diarréia e intoxicação tendem a aumentar", previu.
Outro aspecto que contribui em muito para a superlotação seria, segundo Marília, a cultura imediatista da população em busca de tratamento. No Pronto-Socorro, os pacientes se livram das incômodas senhas para guardar lugar, mas acabam não tendo o resultado esperado. "No PS, o atendimento cuida para sanar o problema de imediato, mas não oferece um tratamento continuado. O certo seria essas pessoas procurarem as unidades básicas nos bairros, mas nem sempre conseguem atendimento. Na verdade, é um ciclo vicioso que acaba, ao invés de resolver, ampliando o problema", analisou.
Os núcleos de saúde descentralizados sofrem constantemente com a falta de médicos, que deixam o posto para suprir a demanda no PS Central (leia mais sobre os possíveis motivos desse intercâmbio nesta edição).
De acordo com a diretora, nem mesmo o reforço do corpo clínico consegue dar conta dos pacientes que chegam à unidade central, principalmente se for aos sábados e domingos. Quando a demanda é muito grande, a prioridade é dada aos casos mais graves que já sob tratamento. Quem paga são os que esperam na porta de entrada, primeiro setor a ter o atendimento suspenso em dias de grande movimentação. Deixá-los aguardando por horas tornou-se prática comum, respaldada pelo fato de que mais de 70% da clientela não necessita de tratamento de urgência ou emergencial. Em outras palavras, eles "podem esperar".
Algumas equipes médicas com maior experientes, no entanto, conseguiriam ser mais eficientes no atendimento. O problema, porém,
é que grande parcela dos profissionais que atuam na unidade central seria novata. "O certo seria que o PS tivesse mais médicos experientes, mas aqui a situação
é inversa. Eles se formam, começam no Pronto-Socorro até ganharem estabilidade e reconhecimento. Depois, saem para atender em consultórios próprios", revelou. Mesmo assim, sabe-se que das unidades da rede básica, o Pronto-Socorro é o que melhor remunera - são R$ 220,00 por plantão, excluindo-se os extras.
Equipamentos
De uma forma geral, o PS Central, bem como os periféricos, teria uma estrutura até razoável de equipamentos e materiais. Muitos aparelhos se encontram quebrados (veja lista do que não funciona no boxe), mas, a priori, as unidades disporiam do material básico para os atendimentos emergenciais.
"Não posso negar que são antigos e que precisamos renová-los, mas o fato de termos o convênio com o Hospital de Base facilita bastante. Raios X e exames laboratoriais não nos falta, mas a tomografia ainda é um problema", cita Marília.
Atualmente, a rede municipal não tem cota para os exames de tomografia, embora já esteja sendo acertado com DIR-X uma forma de suprir essa demanda.
Sobre as queixas constantes sobre o mal atendimento, a diretora pouco comentou. Disse apenas que elas existem e, às vezes, são procedentes.
O que não funciona no PS
- 1 aparelhos respirador tipo adulto
- 2 monitores cardíacos
- 2 aspiradores portáteis
- 2 aparelhos de Eletrocardiograma
- 1 cardioconversor
- 1 bomba a vácuo
- 1 carpule
- 3 canetas de rotação
- 1 ambú (sem conserto)
- 7 válvulas reguladoras
- 37 fluxômetros de oxigênio
- 5 fluxômetros de ar
- 25 instrumentais
- 1 winchester de micro 486
- 8 torpedos de oxigênio de ambulância
- 11 aparelhos esfigmomanômetros
- 1 aparelho telefônico para o serviço 192
Obs. No momento, não estariam faltando medicamentos nas unidades
Número de médicos no PSC
- 37 clínicos gerais
- 5 ortopedistas
- 29 pediatras