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Pronto-Socorro

Josefa Cunha
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SMS quer "lavar roupa suja" com médicos

Texto: Josefa Cunha

As denúncias sobre irregularidades no Pronto-Socorro Central, levadas a público na edição de ontem do JC, já fizeram surtir providências em nível administrativo. Ontem mesmo, a secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, começou a convocar todos os médicos que trabalham nas unidades de urgência e emergência da cidade para uma reunião na próxima segunda-feira, provavelmente a ser realizada na sede da Associação Paulista de Medicina. O encontro, que deve ocorrer a portas fechadas, pretende "lavar a roupa suja" sobre os bastidores dos PSs, notadamente do Central, onde uma série de procedimentos questionáveis estariam colocando em xeque a conduta dos profissionais.

A priori, a titular da pasta não fala em avaliar atitudes individuais de um ou outro, mas de abrir espaço para que todos falem dos problemas que têm enfrentado e, principalmente, justifiquem o porquê de tantas reclamações de usuários em relação aos atendimentos por eles prestados. Eliane reconhece que as condições de trabalho e os salários estão longe do ideal, mas pondera que as coisas melhoraram sensivelmente desde que assumiu a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). "Investimos bastante na capacitação dos funcionários, regularizamos os pagamentos, mas não notamos melhora alguma no atendimento. Pelo contrário, as reclamações estão mais constantes, embora as coisas estivessem muito piores anteriormente", avaliou.

Embora seja complexo mexer num esquema consolidado há anos, a secretária é da opinião que todos devem ter a chance de mudar de conduta. A colocação deixa implícito nas entrelinhas que os cargos, seja dos médicos e chefes, estão garantidos por enquanto. A mudança de comportamento, entretanto, é o que irá manter essa postura inicial.

Com legitimidade de quem deixou ser estar num mandato tampão, Eliane colocará aos profissionais a política de Saúde determinada pela administração Nilson Costa (PPS). "Não me interessa saber se as atitudes sempre foram assim ou se os secretários anteriores agiam de outra forma. Definitivamente, o que esta administração quer é qualidade. Aqueles que toparem somar conosco serão ouvidos e atendidos, dentro das possibilidades, em suas reivindicações. Os que não concordarem terão duas opções: deixar o Pronto-Socorro para trabalhar nos núcleos de saúde ou pedir suas exonerações. Desde já aviso que a melhoria da conduta médica é meta em nossa política de Saúde", enfatizou.

A secretária sabe que ouvirá críticas e garante disposição em avaliá-las. Segundo ela, a administração não se exime das responsabilidades, tendo plena consciência de que também peca. Também entende que o stress do trabalho nos PSs, o cansaço e a falta de rotatividade aliados à má estrutura física e de equipamentos são fatores de insatisfação geral. Tudo, porém, deverá ser acertado a partir de então para que uma nova fase se inicie na rede pública de Saúde.

As decisões tomadas após a reunião com os médicos deverão tornar-se condição sine qua non para a manutenção do atual quadro funcional, de médicos a recepcionistas. O padrão de conduta a ser estipulado verticalmente terá que ser obedecido, sob pena de desligamentos. "Quem aceitar o nosso método de trabalho vai ter que segui-lo à risca, porque se assim não for seremos obrigados a agir com o rigor que a lei agora permite. Antes, funcionário público tinha estabilidade mesmo fazendo o que bem entendia, mas as coisas mudaram. A estabilidade agora está vinculada à produtividade, eficiência e à satisfação do empregador público", avisou.

A secretária fez questão de ponderar as razões dos profissionais que atuam no PSs, submetidos a condições precárias de instalações, falta de equipamentos e demanda excessiva - média de 400 pacientes por dia. Ela acha que não se pode fazer terrorismo, pintando os Pronto-Socorros como um lugar absolutamente negativo. "Há muita gente que trabalha sério e merece reconhecimento, mas denúncias como esta acabam tornando-se argumentos para nós agirmos com mais precisão e firmeza. Silenciosamente, já vínhamos fazendo alguns acertos naquilo que julgávamos necessário", contou.

Paralelamente ao chamamento dos médicos, a SMS estará apurando as denúncias sobre os bastidores do PS Central, apresentadas por um profissional que atua dentro do próprio Departamento de Urgência e Emergência, e da suposta negligência no episódio envolvendo a morte do estudante de Jornalismo Flávio Henrique Polaquini, que, aliás, foi o que determinou a abertura de sindicância interna.

"É claro que vamos investigar se tem médico que ainda acumula trabalho em horários concomitantes; quando assumimos, isso existia muito, mas, teoricamente, não era mais para estar acontecendo. Também vamos descobrir se tem médico saindo ou dormindo durante o plantão. Ambos são condutas irregulares que não podem ocorrer. Queremos, principalmente, saber se houve realmente negligência no caso da morte do aluno, porque isso é injustificável em qualquer circunstância de trabalho. Se julgarmos necessário, faremos sindicância até em nível de Corregedoria", garantiu.

Restruturação física

Cobrar melhorias na conduta médica e apurar possíveis irregularidades não vão encerrar os problemas da rede pública de Saúde, segundo Eliane Fetter Telles Nunes. Reestruturar as instalações físicas, equipamentar devidamente as unidades e assegurar a retaguarda hospitalar são pontos fundamentais também prioritários.

Tais conquistas, no entanto, dependem de recursos externos já prometidos pelos governos Estadual e Federal, mas até o momento sem previsão de serem liberados. Da União, por exemplo, a Secretaria Municipal de Saúde espera verbas para ampliação e reforma dos PSs Central e da Bela Vista há um ano e dois meses. "O ministro (da Saúde, José Serra) esteve aqui e criticou os municípios por não pleitearem os R$ 8 milhões disponíveis para melhoria das unidades de urgência e emergência. Nós, mais do que rapidamente, enviamos o projeto que era requisito para o repasse do dinheiro, mas não recebemos qualquer resposta", reclamou a secretária, que, embora desvinculada da política partidária, já vem fazendo gestões junto às lideranças do PPS local no sentido de agilizar o repasse do recurso. O deputado federal João Herrmann, correligionário e apoiador de Nilson Costa, seria o canal para pressionar a liberação. As obras de ampliação e reforma das duas unidades estão orçadas em quase R$ 567 mil.

Outros R$ 180 mil são esperados do Governo Estadual para compra de material e equipamentos. O dinheiro, que deveria ser enviado entre agosto e setembro, foi prometido em junho deste ano através de articulações feitas pela própria secretária. "Grande parte desse recurso está comprometido com os PSs, mas outras unidades serão contempladas. Para se ter idéia da precariedade, precisamos adquirir até aparelhos de medir pressão e estetoscópios."

Mesmo se os recursos governamentais não vierem, Eliane afirma que o PS Central será ampliado. Segundo ela, trata-se de uma necessidade urgentíssima que terá de ser suprida ainda que com verbas municipais. Esse investimento, entretanto, comprometeria a construção do Pronto-Socorro no núcleo Geisel, promessa de campanha do prefeito reeleito.

Como os problemas estão interligados, também não bastaria melhorar a estrutura física do PS Central sem garantir a retaguarda hospitalar. De acordo com Eliane, é fundamental que o Hospital de Base seja parceiro constante do município. O comentário da secretaria tem relação com recentes ordens vindas do HB limitando horário para internações e plantões cirúrgicos.

Embora o fato tenha sido desmentido pela Diretoria Clínica, o hospital não vem autorizando internações após às 22 horas e nem mantido cirurgiões de plantão. "Temos relatório sobre um paciente que chegou traumatizado e não conseguiu vaga por causa do horário. Em outro caso, o paciente chegou baleado e não havia ninguém para operá-lo. Eu sei que são problemas internos do hospital, mas decisões desse tipo não podem ser tomadas sem propostas alternativas. O HB é referência para a cidade e região, e todos os pacientes que recebe passam, por exigência do próprio hospital, pelo nosso Pronto-Socorro. Vemos no HB o parceiro ideal para nos dar retaguarda em internações e exames mais complexos, como tomografias, mas isso tem que acontecer na prática. Estou encaminhando essas questões ao Conselho Municipal de Saúde", informou.

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