Atendimento em núcleo gera amor e ódio entre pacientes
Texto: Eva Rodrigues
Com o cuidado de não colocar pontos de vista como uma situação genérica que possa significar o funcionamento dos núcleos de saúde em Bauru como um todo, uma equipe do Jornal da Cidade pôde coletar uma pequena amostra de como se dá a rotina e o relacionamento entre pacientes e profissionais da saúde ontem pela manhã, no núcleo de saúde do Parque Jaraguá. O olhar mais aguçado sobre o funcionamento da saúde local vem em consequência da polêmica surgida após a morte do estudante Flávio Henrique Polaquini, no Pronto-Socorro Central, em que pairam suspeitas de ocorrência de negligência médica.
No núcleo, pouco antes das 7 horas, uma fila de mais de cinquenta pessoas aguardava a distribuição de senhas para atendimento. Ao chegar com as senhas na mão, a funcionária pediu para que a fila formada do lado de dentro do portão se juntasse à fila de fora, gerando um rápido tumulto e algumas reclamações - a falta de um controle rígido fez com que algumas pessoas ganhassem lugares à frente da fila ou vice-versa. Antes de ganhar os números de chamada, os pacientes já foram avisados de que não havia vagas para o clínico geral (as consultas previamente agendadas já tinham ultrapassado o número de atendimentos do dia). A notícia pegou alguns pacientes desprevenidos. José Alves André, 45 anos, era um deles: "Tenho problema de pressão alta, faltei do trabalho, cheguei aqui às 6h30, esperei na fila e agora não vai ter médico", reclamou. A solução encontrada por André foi dirigir-se até o Pronto-Socorro Central para ser atendido. Alguns pacientes aguardavam tranquilamente a vez e se manifestaram positivamente com relação ao atendimento recebido. Jacilene Pereira da Silva, 21 anos, está grávida de três meses e esperava pela consulta mensal. "Estou fazendo o acompanhamento aqui, o próprio ginecologista marca a consulta uma vez ao mês e quando chegar ao oitavo mês será a cada quinze dias. Não tenho enfrentado problemas", declarou. A mãe Elisete Coleto dos Anjos, 24 anos, levou a filhinha para retorno no médico e observou que o grande incômodo é a espera, que às vezes é bem longa. "A desorganização na fila também é ruim porque muita gente acaba passando na frente. Agora, dos médicos não tenho reclamação, costumo ser bem atendida aqui." Na pequena sala de entrada do núcleo, os elogios ao atendimento eram combatidos por críticas que se misturavam no burburinho de um local com instalações muito simples, sem estrutura que permita uma acomodação adequada a todos. Num clima confuso parece não haver muito tempo para um atendimento personalizado e com a sensibilidade pedida por alguém que chega sem saber direito o que sente, apenas percebe que as coisas não vão bem e quem sabe um remedinho - ou uma boa conversa - possam trazer alento. Erro de diagnóstico
Entre os pacientes entrevistados, uma história talvez sirva para fundamentar o relatório-denúncia elaborado por um médico do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria da Saúde, no qual aponta condutas questionáveis de alguns profissionais. Edilaine Noemia dos Santos Silva, 32 anos, contou que teve pneumonia, passou por vários médicos - nos núcleos do Jaraguá, PS da Bela Vista e PS Central - mas nenhum diagnosticou a doença. "Aí um médico disse que eu tinha pedra no rim e quando fui fazer a ultrassonografia é que se descobriu que eu tinha pneumonia já em estágio avançado", revelou. Levando informação
A enfermeira-chefe do Núcleo de Saúde do Parque Jaraguá, Anair dos Santos Freitas, informou que o local conta com atendimento diário de um clínico geral (o segundo deixou o posto), dois ginecologistas, dois pediatras, dois dentistas, uma assistente social e uma nutricionista - as especialidades que contam com dois profissionais têm atendimento de manhã e à tarde. O controle do número de consultas é feito da seguinte maneira: "Todos os dias nós pegamos a agenda do médico e vemos o que sobrou do número total de consultas excluindo os retornos já marcados pelo profissional; às 16 horas, afixamos um cartaz com as vagas para o dia seguinte. Pela manhã, a gente distribui as senhas para todo mundo que estiver na fila, as atendentes vão chamando e marcando a consulta com o respectivo médico - se acabar as vagas para o médico da manhã, a gente pede para a pessoa retornar às 12h30 e vê se consegue encaixá-la no médico da tarde". No Núcleo, Anair aponta o atendimento às crianças como o mais problemático, "em função da demanda que é muito grande". Com relação aos casos de emergência/urgência que aparecem por lá, a enfermeira diz que se houver médico no momento é feita uma avaliação, caso contrário o paciente é encaminhado diretamente ao PS Central. "As pessoas que ficam sem vaga e não estão passando mal acabam indo para o PS da Bela Vista, mas se chega alguém aqui muito mal encaminho para o PS Central para ser medicado de imediato e já marco aqui no núcleo o acompanhamento posterior", explica. Ela observa que o perfil do núcleo é de mais pessoas carentes que doentes: "É um público carente de informação e acho que estamos conseguindo passar questões básicas de prevenção à saúde em nosso trabalho". Os pediatras e ginecologistas devem atender 16 pacientes cada um (com exceção do clínico geral que deve atender 24 pacientes), "mas todos aqui acabam atendendo mais do que isso", garantiu Anair. O horário de trabalho pode ser das 7 às 11 ou das 13 às 17 horas. Ontem, a pediatra Leonor de Fátima Santos chegou por volta de 8h30 para iniciar o atendimento. "Estou atrasada hoje porque passei no hospital antes, mas costumo dedicar o período da manhã somente ao núcleo e atendo de 18 a 20 pacientes por dia", afirmou. Mesmo com o atraso, ao chegar à sala de consulta a médica encontrou apenas dois pacientes à espera. "Temos poucos funcionários e a sala de pré-consulta é muito pequena, então o processo é sempre meio demorado", argumenta. Ela acredita que com a transferência do núcleo para um novo espaço que está quase pronto esses problemas de infra-estrutura e de pessoal sejam amenizados. A pediatra diz estar ciente de que há profissionais que trabalham em diversos locais "em função de salários não satisfatórios (o salário-base de um profissional de núcleo de saúde é de cerca de R$ 900,00)", mas afirma que baixo salário não pode justificar o não-cumprimento do horário ou da função profissional de maneira adequada. Há 11 anos trabalhando em núcleos de saúde, Leonor aponta os motivos de sua escolha: "Gosto desse trabalho comunitário que desenvolvo e do aspecto humano dessa atividade, na qual posso ensinar hábitos básicos de higiene e saúde à população". Núcleos precisam melhorar, diz diretora
Texto: Josefa Cunha
Os Núcleos de Saúde de Bauru, apesar de terem suas deficiências no atendimento ao público citadas como um dos fatores responsáveis pela sobrecarga nos Prontos-Socorros, começam a mostrar progressos lentos no que tange à qualidade dos serviços. "Posso dizer que temos avançado lenta, porém, constantemente, mas há ainda muito a que ser melhorado", reconhece a diretora do Departamento de Unidades Ambulatoriais (DUA), Sônia Maria Aléssio Alves Fiocchi. Embora as instalações físicas e equipamentos não sejam ideais, o maior problema enfrentado pelas unidades da rede básica é a dificuldade de manter os recursos humanos, principalmente os profissionais médicos. Quando algum deles pede exoneração, por exemplo, como ocorreu ontem com um contratado do Núcleo do Parque Jaraguá, a situação se complica. As reclamações dos usuários se intensificam e o atendimento acaba ficando mesmo a desejar. No entanto, segundo Fiocchi, não há coisa mais difícil do que repor a vaga de um médico. Não bastasse a pouca atratividade dos salários, o último concurso realizado pela Prefeitura está vencido e, por questões eleitorais, o preenchimento das vagas somente poderá ser feito a partir de janeiro do ano que vem. Os Núcleos oferecem atendimento em clínica geral, pediatria e ginecologia, com exceção da unidade do distrito de Tibiriçá, que não dispõe de pediatra. A grande maioria deles mantém dois especialistas em cada área. Quem depende da rede pública e precisa de especialista tem de recorrer às unidades chamadas de referência, a saber Seção de Moléstias Infecciosas/Centro de Orientação e Apoio Sorológico, Banco de Leite Humano, Serviço de Orientação e Prevenção do Câncer, Programa de Atenção ao Idoso, Ambulatório Municipal de Saúde do Trabalhador e Núcleo de Apoio Psicossocial. Nesses setores específicos, entre o agendamento até a consulta propriamente dita, o usuário já chegou a esperar quase um ano. A situação, no entanto, vem apresentando melhoras sutis. Nos Núcleos, gestantes, hipertensos e diabéticos, por exemplo, já não precisam enfrentar longas filas para conseguir atendimento. "Na primeira vez, eles esperam, mas depois o agendamento torna-se automático", informou a diretora. As longas filas que se acumulavam desde a madrugada também estão mais raras hoje em dia (leia matéria nesta edição sobre várias visitas feitas pelo JC na manhã de ontem). Esse conforto maior, de acordo com Fiocchi, deve-se muito à interferência dos conselhos gestores nas unidades, formados paritariamente por representantes do DUA e usuários. "Estamos conseguindo gerir com controle social e isso tem sido muito positivo. De repente, essas unidades deixaram de ter uma administração exclusivamente técnica e passaram a entender melhor o ponto de vista do usuário. Cada conselho gestor tem autonomia para definir qual a melhor forma de atendimento, por exemplo. O fim da distribuição de senhas para o agendamento das consultas foi uma mudança de sucesso proposta por eles", considerou. Outro expediente que deu certo foi a colocação de lousas no lado de fora da unidade informando o número de consultas já agendadas para o dia seguinte. Foi uma forma eficiente e barata de evitar grandes filas. "Hoje em dia, nós não temos, por exemplo, mais problemas com pessoas que passavam a noite na fila para comercializar o lugar no dia seguinte", citou a titular do DUA.
Atualmente, mantêm conselhos gestores os Núcleos da Vila Cardia, Dutra, Jardim Europa, Vila falcão, Jardim Godoy, Parque Jaraguá, Nova Esperança, parque Vista Alegre, Beija-Flor, Vila São Paulo e Redentor, além do Programa de Apoio ao Idoso e Ambulatório Municipal de Saúde do Trabalhador. A capacitação dos funcionários de uma forma geral também foi uma proposta do Departamento para melhorar a qualidade dos atendimentos na rede básica. "A humanização do atendimento é importantíssima e ainda tem muito que ser aprimorada. Evoluímos tanto em tecnologia que nos esquecemos da relação paciente-profissional. Nossos atendentes, gerentes e serventes já passaram por cursos e são permanentemente cobrados. Exigimos boa educação sempre e esclarecimentos precisos quando solicitados. Aquele história de não saber responder e não fazer questão de aprender tem que acabar. Estamos sendo rigorosos quanto a esse comportamento", garantiu Fiocchi. Nem mesmo os médicos estão livres das cobranças; muito pelo contrário: "Chamamos a atenção de quem quer que seja se recebermos reclamação". A diretora não acha correto o fato de os médicos não cumprirem o horário da jornada para a qual estão escalados. Normalmente, eles cumprem a meta de atender 16 pacientes em duas horas e vão embora. "É preconizado que as quatro horas da jornada são para o atendimento de 16 pessoas, ou seja, 15 minutos para cada um. Apesar de não achar certo, aceito que eles cumpram a meta em tempo menor, mas o trabalho deve ter qualidade. Se eles fazem tudo direitinho e não recebemos reclamação, tudo bem. Caso, contrário, chamamos de lado", enfatizou.