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Poder de compra

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Classe média perdeu 40% do poder de compra

Texto: Rose Araujo

Os efeitos do Plano Real foram mais visíveis nessa fatia da sociedade, que teve que abrir mão de muitos serviços consumidos

A classe média brasileira perdeu cerca de 40% do poder de compra desde que o Plano Real foi implantado. O cálculo

é do economista Reinado César Cafeo, que salientou que este foi o setor da sociedade mais prejudicado pela conjuntura econômica brasileira atual. "A classe média, que é uma das que mais consome serviços, teve que abrir mão de muitos hábitos para manter um certo padrão de vida", disse.

Plano de saúde, aluguel, ensino e serviços particulares foram os itens que mais sofreram reajuste de preços nos

últimos seis anos. E, muito deles perderam clientes para o poder público, como é o caso da saúde e da educação. "Muitos pais acabaram tirando os filhos de escolas particulares e colocando em estabelecimentos públicos para desafogar o orçamento", disse o economista.

O empresário A.N.A. - que preferiu não ter seu nome divulgado - foi um deles. Ele mantinha seus três filhos numa escola particular. Quando sentiu que sua renda não estava acompnhando os aumentos das mensalidades, preferiu matriculá-los em escolas estaduais. "Foi difícil explicar para eles a mudança, pois os três estavam acostumados com uma realidade bem diferente da que teriam que enfrentar daqui para a frente", disse.

E essa não foi a única medida a ser adotada. Ele também cortou despesas com restaurantes - que eram freqüentados todos os finais de semana -, roupas de marcas famosas e passeios noturnos com a esposa. "Ver o padrão de vida caindo

é muito complicado. Quando a gente se acostuma a ter muitas coisas boas nas mãos, não consegue entender uma realidade diferente", disse.

Cafeo explicou que a grande alta nos preços dos serviços aconteceu pela falta de concorrência vinda do exterior.

"A entrada de produtos importados no País fez com que os preços nacionais caíssem para acompanhar a concorrência. Mas, isso não ocorreu com consultas médicas e odontológicas, por exemplo", disse.

O economista lembrou também que a classe média consome muita energia elétrica e telefone, dois itens que pesam muito no orçamento doméstico. "Embora tenham sido privatizados, esses setores não sofreram concorrência externa e, portanto, não tiveram valores reduzidos. Pelo contrário".

Como não existe uma política salarial que satisfaça os trabalhadores, o aumento de preços e a manutenção dos salários resultam numa mistura amarga para os trabalhadores, principalmente os que estão numa faixa salarial acima de R$ 1,5 mil.

Empresários

Cafeo destacou também que os efeitos negativos do Plano Real atingiram não só quem está na folha de pagamento, como também os micro e pequenos empresários. Esse setor foi prejudicado pelo sofrível desempenho da economia do País, que achatou a renda, aumentou as despesas e não deu alternativa de crescimento. "Muitas empresas acabaram fechando suas portas por não conseguir equilibrar as contas", salientou.

O empresário A.N.A. também se encaixa nesse quadro. Ele foi proprietário de uma pequena fábrica de blocos, que acabou sendo fechada por não conseguir sobreviver aos apertos financeiros. Para conseguir entrar novamente no ramo dos negócios, ele vendeu um apartamento na praia, dois terrenos, um carro e duas linhas telefônicas. Com isso, montou uma imobiliária e tenta manter o negócio com muita dificuldade.

"O mercado é complicado. Tem muita concorrência e as pessoas estão sem dinheiro para investir em imóveis. Mas, a gente não pode desistir de lutar para que as coisas melhorem", salientou.

Inteligência financeira

De acordo com Cafeo, não há como negar os efeitos prejudiciais do Plano Real. Mas, ele salientou que falta aos brasileiros

- principalmente classe média - desenvolver uma inteligência financeira. Isso significa deixar de ver no trabalho uma fonte exclusiva para pagamento de dívidas. "O que vemos

é um círculo vicioso. As pessoas não têm dinheiro para comprar à vista porque estão com muitas dívidas. Então, fazem mais uma dívida para adquirir algo e nunca vão conseguir parar de correr atrás dos carnês".

A saída, segundo ele, é fazer com que o dinheiro trabalhe em função do bolso. E isso é possível separando-se uma determinada quantia para investimentos no mercado financeiro. "O brasileiro não tem essa cultura financeira. Nos Estados Unidos, as pessoas investem em imóveis, ações, desde que são crianças já entendem essa relação com o dinheiro", disse.

O primeiro passo para conseguir organizar o orçamento é deixar de lado certos hábitos considerados "supérfluos", como comprar uma roupa de grife só porque a vizinha também ostenta algo semelhante. "Isso não precisa ser para sempre. As pessoas gostam de cultivar certos luxos, mas é preciso voltar primeiro os pensamentos em algo garantido, para poder usufruir no futuro", disse Cafeo. Fazer cursos de gestão financeira, não ficar acomodado com os ganhos, disciplinar melhor os gastos são pequenas dicas que podem melhorar a relação com os recursos que entram no bolso.

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