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Kleber Boelter
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O helicóptero

(*)Kleber Boelter

Numa tirada de talento, apesar de não necessariamente original, o diretor do IPEA; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Ricardo Paes de Barros, disse essa semana em uma entrevista: "Se todos os recursos usados nas políticas sociais do Brasil fossem jogados de um helicóptero, os pobres teriam mais chances de recebê-los do que da maneira como são aplicados hoje".

À parte sua espirituosidade, essa frase revela um dos maiores crimes que se comete nesse país e, na verdade, em todos os países com máquinas burocráticas centralizadas, inchadas e corruptas. É o desperdício do escasso e suado dinheiro dos trabalhadores e contribuintes.

Centenas de cálculos já foram feitos tentando determinar quanto de um recurso arrecadado em imposto chega, na forma de bens e serviços, ao cidadão. Todos os resultado são aterradores. Estimou-se, por exemplo, que de cada real arrecadado para ser aplicado na educação, chegam

às escolas, após um longo percurso pelos corredores da burocracia e da corrupção, menos de vinte centavos. E, pior: esses recursos geralmente são distribuídos não para quem mais precisa, mas para quem tem mais influência política. Ou seja, os critérios quase nunca são técnicos, mas politiqueiros e corporativistas.

Por que isso é um crime? Porque se esses oitenta centavos desperdiçados ou roubados entre a arrecadação e o uso do recurso para a educação significa milhares de analfabetos, no caso da saúde significa cadáveres. O cidadão que morre na fila de atendimento ou na porta do hospital superlotado poderia ser salvo com esses oitenta centavos. E não estou falando em promessas eleitoreiras ou teses demagógicas: estou falando em dinheiro que foi tirado da sociedade por meio de uma carga tributária altíssima e injusta e foi jogado fora em salários e despesas de departamentos, comissões, autarquias, assessores, assistentes, auxiliares e toda uma penca de burocratas que recebe salários sem prestar serviços relevantes.

Ter consciência política é compreender isso e saber identificar, nos programas de governo dos partidos e nas ações dos candidatos, quais os que defendem mais ação do Estado em políticas públicas. E perceber suas conseqüências: mais funcionários, mais departamentos, mais despesas, que resultam na necessidade de arrecadar mais dinheiro. Não é por acaso que esses partidos e candidatos, tão logo instalados no poder, não procuram racionalizar gastos ou reduzir desperdícios, mas sim elevar a arrecadação através do aumento de impostos ou terrorismos fiscais. Basta um mínimo de memória para lembrar quantas vezes isso já ocorreu, apenas nos últimos anos.

E apenas compreendendo essas coisas é possível exercer a cidadania, que é exercer o voto com consciência política e não fazer passeatas e arruaças, nem andar de bandeira de partido em punho repetindo palavras de ordem como papagaios amestrados.

(O autor, Kleber Boelter, é empresário e escritor)

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