Geral

Pesca

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 9 min

Um peixe diferente

Texto: Roberta Mathias

Há pessoas que não valorizam muito a pesca da pirambóia, talvez por desconhecer que o peixe, apesar de sua aparência diferente, também tem suas qualidades.

Buscar a esportividade de cada espécie é uma característica do pescador. Há peixes que atraem pelo sabor, outros pela força, pela beleza, e muitos pela dificuldade me capturá-los. Não é difícil ouvir histórias sobre a força dos bagres e a briga de um dourado. Há pescadores que preferem a delicadeza do lambari, sentir o momento certo de fisgá-lo.

João Delarmelindo, 60 anos, é pescador desde criança e pelo menos uma vez por semana está às margens do rio. Reservar um tempo para a pescaria é fundamental. Ele é proprietário de um bar, em Bauru, que já virou ponto de encontro de pescadores, no Jardim Redentor. Ele gosta de pegar traíras, corvinas e bagres no rio Tietê. Mas além destas espécies, Delarmelindo tem interesse especial pela pirambóia. Um peixe que não costuma atrair o pescador, mas que também traz prazer para quem arrisca fisgá-la. Nem grande, nem pequena; nem muito forte, nem fraca; bonita? nem um pouquinho... mas saborosa para quem sabe preparar. É uma espécie, no mínimo, curiosa.

Delarmelindo conta que pesca pirambóias há muitos anos, chegando a fisgar um exemplar de 1,25 m, que proporcionou uma boa briga. "A pirambóia é brava. Quando

é um peixe grande, ele enrosca o corpo em galhos, no fundo do rio, e não há quem consiga soltá-lo."

Um dos lugares preferidos para Delarmelindo pegar pirambóias

é em lagos, lagoas e às margens do rio Tietê, na região de Bariri e Boracéia. Ele e alguns amigos sempre vão aproveitar a tranquilidade do mato e os bons momentos de pesca e nem sempre conseguem tirar a pirambóia.

"Ainda não descobrimos o segredo para não deixar ela enrolar, mas estamos chegando lá", conta. "Há pouco tempo, meu filho Wagner pegou uma grande."

Delarmelindo lembra que Wagner usou do mesmo artifício que ele: fisgou o peixe, "fincou" a vara no barranco, para que ficasse presa, e esperou. Wagner aguardava a hora certa da briga. De acordo com ele, após uma longa espera, a pirambóia subiu para respirar, momento que o pescador, rapidamente, começou a puxar a linha e conseguiu pegá-la. É uma dica.

Como isca, os pescadores usam pedacinhos de lambari, segundo João Delarmelindo, um dos pratos preferidos da pirambóia. "Ela também gosta de comer peixinhos pequenos." Mas é sempre bom ter em mente que não é fácil trazer a pirambóia, principalmente os exemplares maiores. "Já tivemos pescaria de fisgarmos cinco delas e não tiramos. Ela fica presa no fundo e aí não larga mesmo!" Aí aumenta a vontade do pescador, que fica arquitetando planos para capturá-la. É um jogo de gato e rato. Nem sempre o rato (pescador) sai vitorioso. Mas quando sai, aí o peixe vai para o fogo.

Limpando o peixe

Uma boa dica de João Delarmelindo é relacionada

à limpeza do peixe. É importante que o pescador retire toda a pele de uma vez. É um pouco difícil, principalmente para quem não está habituado. Mas com um pouco de cuidado, o peixe fica limpinho. A sugestão de Delarmenlindo é a seguinte:

Prenda a pirambóia em um lugar alto para que fique esticada;

Faça um leve corte no "pescoço" da pirambóia, só na pele, próximo à cabeça;

Com as duas mãos e muita firmeza, puxe a pele para baixo em movimento contínuo;

Aí fica somente a carne do peixe. Depois, é preciso retirar a espinha, cortar em pedaços pequenos, temperar a gosto e fritar. De acordo com o pescador, é um excelente acompanhamento para a cervejinha do final da tarde.

********** Troféu pescador *************

Um dos bagres mais cobiçados pelos pescadores é a pirarara (peixe-arara), nome que ganhou por suas cores muito bonitas: amarelo, marrom e vermelho-sangue. É uma pirarara o troféu do pescador Antonio César Sgavioli, 20 anos. Após uma boa briga, o peixe foi liberado para retornar ao rio Araguaia. Segundo o pescador esportivo, pelo seu tamanho, a pirarara deveria pesar 25 quilos. Apesar de dificilmente ser encontrado e embarcado (a pirarara é muito forte), o peixe pode chegar a 50 Kg.

********* História de pescador **************

Corre Marcão...

Quem já foi moleque de roça com certeza acordou com o alegre canto da corruíra e dormiu com o pio melancólico da coruja. Já chupou fruta no pé da árvore e bebeu leite de vaca no curral. Já viu o alvorecer do dia e uma noite de luar. Quem foi moleque de roça também aprende, sem ir na escola, coisas que a vida nos ensina.

E foi assim, que ainda menino, saindo da cidade com os meus pais, fomos morar num sítio nas proximidades de Paulínia. As férias, meu primo Marcão ia passar comigo e dentre todas as nossas brincadeiras, uma, sem dúvida, era a que mais gostávamos, pescar. Numa

tarde de verão, que exalava o aroma dos eucaliptos, lá fomos nós em busca de traíras, mandis, bagres e lambaris num pequeno córrego que ficava na divisa do nosso sítio. Meu pai, pela manhã, fora até a cidade fazer compras deixando minha mãe cuidando de nós. Ao lado de nossa casa ficava a do caseiro, um caboclo sacudido, pau pra toda obra e, principalmente, um pedreiro de mão cheia, que dado a essa habilidade era conhecido na região como Zé Pedreiro.

Pois bem, voltando àquela tarde de verão, fomos, conforme dizia, pescar. Passamos por baixo da cerca que separava o pasto e descemos em direção ao córrego,

à beira do "calipá". A nossa "traia" era a de um menino e não passava de uma varinha de bambu jardim, uma latinha com minhocas, que o Zé havia arrancado para nós, e uma forquilha para enfiar os peixes que pescávamos. O riacho, que na sua maior largura não chegava a ter dois metros entre margens, foi dos que conheci o mais piscoso não deixando um pescador, por pior que

fosse, voltar sapateiro. Foi ali que, pela primeira vez na minha vida, aprendi, pelas mãos do meu saudoso pai, a pescar e a conhecer algumas variedades de peixe.

Importante se faz dizer que naquele dia havia um clima de suspense, criado pela prosa de meu pai com o Zé Pedreiro, na noite anterior. Sentados na varanda de nossa casa, comentavam sobre o aparecimento de uma cobra no pasto, bem perto dos animais e que o Zé havia matado. Essas histórias, que deixa tenso um garoto de cidade, sempre vêm acompanhadas de outras tantas que alimentavam a nossa imaginação e criavam aquela expectativa de perigo e aventura. Se não bastasse, minha mãe vivia dizendo:

- Meninos, cuidado ao andar por aí, olhem aonde vocês pisam. Cuidado!

Mas a nossa pescaria daquele dia era farta, já havíamos pescado o suficiente para o nosso jantar e satisfazer o meu pai e mestre de pescaria. Lá pelas tantas percebi ao meu lado e dentro do rio, que algo vinha rapidamente à tona d'água e desaparecia em seguida. Fiquei intrigado com aquilo e perguntei ao meu primo se havia visto o que era. Porém, mal acabava de perguntar, quando a minha varinha deu um grande puxão reagido por mim com o mesmo vigor fisgando e trazendo o peixe para fora. Acreditem, na ponta do anzol ela balançava... ela mesmo, a cobra de que tanto se falara na noite anterior.

No momento, fiquei paralisado, o coração batendo a mil por hora e cheio de pavor, fazendo com que eu

arremessasse a vara com cobra e tudo no meio do pasto e, iniciando uma disparada pasto acima, gritava, com todas as minhas forças:

- Corre Marcão, pesquei uma cobra...

Subimos aquele pasto mais rápido que um coelho assustado e aos berros chamávamos o Zé Pedreiro para nos ajudar. Zé tentava nos acalmar e assim que recuperamos o fôlego, contamo-lhe o que havia acontecido.

Armado de um porrete, lá foi ele pasto a baixo e nós no seu calcanhar, não muito perto pois a nossa valentia não era para tanto.

No caminho, ele dizia:

- "Óia" meninada, a essa altura ela já deve ter ido embora, mas vamos campear pra ver se achamos a "mardita". Onde foi que você jogou a vara?

- Ali.

Apontava eu ainda meio assustado, sempre tomando o cuidado de guardar uma distância bem segura do Zé, para a qualquer momento sair correndo se precisássemos.

Zé, de porrete em riste, partiu para a varinha que entre o capim do pasto mal dava para ver. Cautelosamente foi se aproximando quando, de repente às gargalhadas, quase molhando as calças de tanto rir, veio em nossa direção segurando a varinha com aquele bicho de mais ou menos trinta centímetros balançando na ponta do anzol, dizendo:

- Ê, garotada frouxa, isto aqui não é uma cobra, não, seus patifes, é uma pirambóia

"sô", e hoje à noite ela vai pra dentro da panela, ora se vai!

É isso aí, quem já foi moleque de roça com certeza saberia que pirambóia também é peixe e que bem preparada por quem conhece a manha da cozinha caipira é de ótimo sabor para os mais exigentes paladares.

Com isso, meu primo e eu aprendemos naquela escola das coisas que a vida ensina, que pirambóia é um peixe de couro e que de tempo em tempo vem à tona d'água, respirar.

Nota - Encontramos no "Dicionário dos Animais do Brasil", elaborado pelo cientista e escritor Rodolpho von Ibering, editado em 1940 pela então Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo.

"Piarambóia - Pirarucú-boia, Taiíra-boia ou Trairaboia (erroneamente também "Caramurú") Este peixe, da ordem dos Dipneos, é a única espécie americana destes curiosos tipos que constituem teoricamente a passagem do grupo "peixe" para o grupo "anfíbio". Nos indivíduos reconhecem-se perfeitamente os quatro pares de brânquias externas, as quais com a idade se atrofiam, passando a função respiratória a ser exercida pelos pulmões." Mais adiante, "na Amazônia, Mato Grosso e no rio Paraguai vive a Pirambóia (Lepidosirem paradoxus), que atinge cerca de 1 m de comprimento. O corpo é lanceolado, parecendo-se com o Carmuru (com o qual às vezes

é confundido). O indígena comparou o peixe a uma cobra, o que pelo simples aspecto geral não é de todo descabido. A cabeça achatada e os dentes são como os da traíra; o corpo é comprido, principalmente na cauda." Continuando, "...de mais curioso nestes peixes

é o modo de respirar, que se efetua pela boca, e para este fim a pirambóia, de tempo em tempo, vem à tona. Vive habitualmente nos paués (sic) e alimenta-se de moluscos e pequenos organismos..."

Luiz Octavio P. N. Valente é pescador e contador de histórias

Comentários

Comentários