Geral

Filmes

Redação
| Tempo de leitura: 7 min

Mostra traz filmes de Rogério Sganzerla

O Sesc Bauru realiza de 7 a 17 de novembro a "Mostra Rogério Sganzerla", com exibição de vários filmes deste realizador, diretor, montador, escritor e ensaísta, que fez o revolucionário "O Bandido da Luz Vermelha". Na terça, abertura do projeto, após a exibição do dia, o cineasta estará batendo papo com o público.

Rogério Sganzerla, atuando como jornalista, sempre concentrou-se na linguagem cinematográfica. Em 1967, foi membro dos júris dos Festivais de Pesaro, Itália, e freqüentou o curso de "Hautes Etudes Cinématographiques", em Paris.

De volta ao Brasil, proferiu palestras sobre estética do cinema experimental em São Paulo, onde passou da teoria

à prática cinematográfica.

Seu primeiro curta metragem - "Documentário", 1966 - recebeu prêmio de melhor montagem no 2.º Festival de Cinema JB - antes de fazer a edição de "Olho no Olho" e "O Pedestre", curtas de, respectivamente, Andrea Tonacci e Otoniel Santos Pereira.

Sem ter sido assistente de direção, estreou na autoria completa, assinando o roteiro, produzindo e dirigindo o filme

"O Bandido da Luz Vermelha", que conquistou oito prêmios principais no IV Festival de Cinema de Brasília e foi tema, em 1998, de tese de mestrado da Université de Paris, Sorbone. Além de ter sido considerado pela Unesco como Patrimônio Audiovisual da Humanidade.

Seu filme seguinte, "Mulher de Todos", também recebeu prêmio de montagem de Melhor Filme no Primeiro Festival Norte do Cinema Brasileiro (1969). Além de vários prêmios de interpretação para a atriz Helena Ignez.

Os filmes seguintes não tiveram o mesmo sucesso de bilheteria, não sendo distribuídos no Brasil durante o apogeu da censura, mas encontraram ampla receptividade no exterior, como:

"Sem Essa, Aranha", "Copacabana, Meu Amor", com trilha sonora de Gilberto Gil, e o recentemente recuperado e relançado "Carnaval na Lama".

Na década seguinte, teve oportunidade de visitar, estudar e filmar o continente africano, focalizando o comportamento e a cultura do Magreb em relação ao ocidente, atestando confraternização com o povo árabe radicado na África Setentrional.

O longa metragem "Abismo" volta-se para a pré-história brasileira com seus enigmas e inscrições rupestres. Realizou também um curta metragem que fala das raízes históricas da fundação do Rio de Janeiro em conflito com o interesse de Villegaignon: "Viagem e Descrição do Rio Guanabara por Ocasião da França Antártica"

(1977).

Em 1983, com o curta metragem "E o Petróleo Nasceu na Bahia" levantou, em Salvador, traços sobre a construção do primeiro poço de petróleo brasileiro. Filmou a gravação do décimo disco de João Gilberto, com Caetano Veloso e Gilberto Gil ("Brasil", 1981) e mergulhou fundo no universo de Noel Rosa, daí extraindo dois outros filmes, um sobre o jovem compositor de Vila Isabel

- "Noel por Noel", 1981 - e outro sobre o último passeio do autor de "Feitiço da Vila" - "Isto

é Noel Rosa, 1990.

Sganzerla dedicou-se, durante décadas, a reunir material para a saga wellesiana no Brasil com a trilogia "Nem Tudo

é Verdade" (1985), "Linguagem de Welles"

(1993) e "Tudo é Brasil" (1998) - recentemente aclamados na mostra "The Unknown Orson Welles" organizada pelo Filmmuseum da Cinemateca de Munique, Alemanha, em 1999. Também apresentados em diversas cidades da Europa e em Paris, onde foram aclamados como documentários altamente poéticos e informativos.

Uma mostra de seus filmes - "Sem Essa, Aranha" e "Perigo Negro" - foi selecionada para o Festival de Taormina, na Itália, em 1998. Dirigiu, em 1999, Helena Ignez e Djin Sganzerla na peça teatral "Savana Bay", com texto Marguerite Duras.

É autor do livro "O Pensamento Vivo de Orson Welles", lançado pela Editora Alvorada em 1987. Atualmente, prepara a edição final do longa metragem "O Signo dos Caos".

Mulher

A Mostra a ser exibida pelo SESC contempla seis filmes, em 16 milímetros, da obra de um dos cineastas brasileiros cujo espírito de experimento e de vanguarda marca a história do cinema nacional.

Na terça, dia 7, às 19 horas, será exibido o filme "A Mulher de Todos" - 1969, com Helena Ignez, Jô Soares, Stênio Garcia e Antônio Pitanga.

É sobre um fim de semana movimentado na Ilha dos Prazeres, onde se comemora o aniversário do magnata com pompa e circunstância. O filme mostra 36 horas na vida de uma mulher moderna, sua relação com o magnata das histórias em quadrinhos e com eventuais admiradores.

"Depois de ter visto alguns filmes sobre mulheres resolvi fazer um também para tentar provar que o gênero não

é necessariamente medíocre. O assunto não importa muito, o que vale é o tratamento desta homenagem

à chanchada e aos primitivos pastelões - Mack Senneth, Buster Keaton - que são os gêneros que mais influenciam hoje em dia", diz o cineasta.

Após a exibição, haverá bate papo com o Sganzerla.

Aranha

Na quinta, dia 9, às 20 horas, será passado o filme

"Sem essa Aranha" - (1970), com Jorge Loredo, Helena Ignez, Maria Gladys, Moreira da Silva e Luís Gonzaga. O filme mostra o cotidiano de uma trupe de artistas mambembes viajando em mercado ocupado pela concorrência estrangeira.

"Filme de interrogação e sem respostas culturais, o filme pretende refletir a realidade nacional através da formação do nosso cinema, da mensagem platônica em piada sórdida, do arquétipo do golpe na gargalhada antropofágica", explica.

Rio de Janeiro e Brasil

Às 20 horas, na sexta, dia 10, será exibido o filme

"Viagem e Descrição do Rio Guanabara por Ocasião da França Antártica"(1977), que é um curta-metragem de valor histórico sobre a ocupação do Rio por piratas franceses durante a colonização. Rodado nos locais autênticos do Forte Coligny na Ilha das Cabras.

Às 20h30, será a vez de "Brasil", curta-metragem comemorativo do lançamento do décimo disco durante o cinqüentenário de nascimento de João Gilberto. A execução do disco em diferentes fases e distâncias, registradas em contraponto com flashes de personalidades da vida nacional vistos em cinejornais documentais.

São meio século de imagens da vida nacional, representados em uma situação limite: "O que é o Brasil? O que é o brasileiro?. O Brasil, dizia Oswald de Andrade, vive em estado de sítio desde a idade trevosa das capitanias", diz o autor. No filme estão retratados Getúlio Vargas, Grande Otelo, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Orson Welles, Eros Valusia, os jangadeiros, Gilberto Freire e Carlos

Drummond de Andrade.

Abismo

No dia 14, terça-feira, 20 horas, será exibido o filme "Abismo" - 1977, com fotografia de Renato Laclete, música de Jimi Hendrix, com José Mojica Marins, Norma Benguell, Wilson Grey, Jorge Loredo e o músico Edson Machado. Participação especial de Mariozinho de Oliveira.

É um filme que fala de discos voadores e estranhas civilizações pré-colombianas. Ao decifrar um antigo manuscrito sobre um tesouro perdido, uma pessoa comum envolve-se em mistérios e aventuras.

A ação continua numa ilha ignorada e fora de qualquer rota onde o arquivilão Wilson Grey tenta convencê-lo a matar ou morrer o mais breve possível.

Enquanto faz o elogio da loucura surge a figura de um Médium

(Jorge Loredo/Zé Bonitinho), que responde a tudo por estranhas metáforas. No final é reencontrado o emblema secreto e tudo finda com o último concerto público de Jimi Hendrix, na Ilha de Wight, Inglaterra.

Verdade

No dia 17, sexta, às 20 horas, haverá exibição do filme "Nem Tudo é Verdade"- 1985, com música de João Gilberto e interpretação de Arrigo Barnabé, Helena Ignez, Abraão Farc, Otávio Terceiro, Guaracy Rodrigues, Nina de Paula, Vânia Magalhães, Geraldo Francisco, Nonato Freire e outros.

O filme foi destaque em vários festivais internacionais como Chicago, Seattle, Sydney, Berlim, Viena, Manhein.

Segundo Saganzerla, "Nem Tudo é Verdade" é um documentário/ficção e uma homenagem sobre a vinda do cineasta Orson Welles ao Rio de Janeiro em 1942, movido por idealismo cívico, sob a "política da boa vizinhança.

Convocado pelo governo Rooselvelt, com contrato aberto, 40 técnicos e 12 câmeras, Welles apaixona-se pelas coisas a ponto de convocar os jangadeiros que recentemente haviam realizado a incrível façanha de se deslocarem numa jangada, sem auxílio de bússola ou qualquer instrumento científico - guiados pelo sol, o vento e as estrelas, para desempenharem seu feito: trajeto Fortaleza-Rio, 1500 milhas, em 63 dias - diante das câmeras.

Quando o herói nacional, convocado para contar sua história, sucumbe diante das câmeras a produção torna-se um pesadelo. A partir daí, o diretor de "Cidadão Kane" nunca mais foi o mesmo.

Serviço

Mostra Rogério Sganzerla, de 7 a 17 de novembro, na sala de uso múltiplo do Sesc Bauru. Vagas limitadas. R$ 4,00 e R$ 2,00 (matriculados, estudantes com carteirinha e pessoas acima de 65 anos). Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: 235-1750.

Comentários

Comentários