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Pichação

Fabiano Alcantara
| Tempo de leitura: 10 min

Pichação toma conta de Bauru

Texto: Fabiano Alcantara

Pichação cresce a cada dia, mas poderia ser combatida com o incentivo ao grafite; forma de arte nascida nos guetos das grandes cidades começa a ganhar força em Bauru

"Nós vamos destruir a cidade". Desta forma o pichador Y. (inicial fictícia) resume a atividade dos grupos de adolescentes que passam as noites deixando sua marca nos muros de Bauru. Mas nem tudo está perdido. Enquanto a pichação cresce, algumas delas em lugares que desafiam não só a lei dos homens mas a da gravidade, uma forma de arte historicamente ligada aos guetos das grandes cidades ganha força e começa a colorir os muros de Bauru. O grafite, um dos pilares do movimento hip-hop, que envolve ainda o rap e o break, já é apontado como o antídoto contra a pichação, atividade que só tem como objetivo expressar a revolta dos adolescentes, principalmente os marginalizados, das periferias.

Na verdade, tanto o grafite como a pichação acabam tendo a mesma função: demarcar territórios. Tanto que atropelar a pintura do grafite ou os rabiscos do piche de uma outra turma pode causar até a morte de um rival. Basicamente, a diferença mais aceita entre grafite e piche

é que uma é arte e outra vandalismo.

A reportagem do Jornal da Cidade foi às ruas, habitat natural dos dois grupos, para ouvi-los. Obteve o relato de um pichador, identificado apenas como Y., que afirmou ser a adrenalina, causada pelo risco de ser apanhado, o motivo de suas ações contra muros brancos, obras abandonadas e topos de prédios. O pichador revelou detalhes de como os adolescentes deixam sua marca em lugares aparentemente impossíveis de serem alcançados

(leia entrevista nesta página). Com o gravador desligado, guiou a reportagem pelas ruas do Centro e da Getúlio Vargas, mostrando como e onde se picha na cidade. Ele conta que menos de 30 pessoas são responsáveis pelo grosso da pichação de Bauru. Segundo ele, os grupos se agregam em turmas de cinco ou seis pessoas. Os mais audaciosos andam sós.

As letras do piche nada lembram as das declarações de amor - motivo mais em voga há cinco anos tanto em Bauru quanto no restante do Interior de São Paulo. Quanto mais assustadoras, estranhas e menos idenficáveis as letras da pichação, melhor. Herança dos grandes centros urbanos. Neste caso, a cidade deixa o provincianismo para parecer Nova York, Paris, Londres ou São Paulo. Esta última, de onde vem a inspiração mais direta.

Em grupos ou solitários

Da mesma forma que os adolescentes endinheirados saem para a noite, os pichadores também saem. Não que não existam pichadores de classe média ou alta, mas a grande parte vem de bairros periféricos. A identificação que acompanha o pichação denuncia: zl, zs, zo, zn. Respectivamente, zonas leste, sul, oeste e norte. A mais forte na cidade, segundo Y., de onde viriam os pichadores mais respeitados, seria a zona oeste.

Em Bauru, vários grupos se destacam. Nítidos, Dedos, Peritos, Charadas e Exorcistas são alguns deles. Entre os que "trabalham" sós estão Orc, Casca, Bega e Muralha, entre outros. Y. conta que quanto mais conhecido, maior o risco que corre o pichador. Reza a lenda que alguns tem a cabeça à prêmio e valeriam até R$ 1.000,00 pela captura. Verdade ou mentira, isso alimenta a mística em torno da pichação. Da mesma forma que um adolescente saiu de São Paulo para pichar o Cristo Redentor - e conseguiu

- uma pichação no alto de um prédio pode fazer com que um pichador bauruense fique conhecido até em São Paulo. É isso que eles querem, fama e poder. Duas coisas que, na essência, se confundem.

Grafite cresce como opção ao vandalismo

Um exemplo de como o grafite pode ajudar a inibir a pichação ocorreu na escola estadual Christino Cabral. Há um ano, percebendo que os estudantes interessavam-se pelo grafite, a diretora Marise Godoy Rodrigues Boldorini passou a incentivar a prática dentro e fora dos muros da escolas. Hoje, a escola está praticamente tomada pelo grafite e quase não se vê pichações.

"Eles (os alunos grafiteiros) ajudam a tomar conta da escola. Porque não querem que pichem sobre seus grafites", afirma a diretora. "Eu adoro o que eles fazem. É um espaço deles, tem que ter a cara deles", resume.

Entre os alunos da escola está César Henrique Benedetti, 17 anos, estudante do segundo ano do ensino médio conhecido como "Boy" pelos amigos. Grafiteiro há um ano, ele junta-se ao amigo Deives Camilo, 21, para grafitar paredes de toda cidade. A atividade já começa a render dinheiro para a dupla.

"Se dessem mais incentivo para o grafite não teria tanta pichação na cidade", afirma Boy. "Nós pedimos para pintar, às vezes o pessoal dá só a tinta e nem paga a mão-de-obra. Fazemos porque gostamos mesmo. Nosso tipo de trabalho ainda não é muito difundido", diz Deives. Além de Boy e Deives, que assinam seus trabalhos como Violadores, outros grupos de grafiteiros são bem respeitados em Bauru.

Estudante de desenho industrial da Unesp, músico e artista plástico Fernando Falcoski, o TRZ, é um conhecedor da cultura do grafite. No ano passado, ministrou uma oficina sobre o gênero no Sesc e tem colaborado bastante com a cultura hip hop de Bauru. "Não gosto de falar que sou grafiteiro porque eu não passei pela escola da periferia. Sou mais um admirador e procuro trazer essa influência para minha arte", minimiza.

O grafite

Muitas vezes, o grafite toma como base as letras empregadas na pichação. As letras do pichadores e dos grafiteiros são como marcas registradas. Em inglês, a assinatura do grafite chama-se tag - o termo do inglês é empregado em algumas partes do Brasil, mas em Bauru a tipologias das letras

é conhecida como "letreiro".

Enquanto um pichador gasta dez segundos para deixar sua marca, os grafiteiros atuam quase sempre com a permissão dos donos dos muros e algumas vezes até ganham para isso. O tempo gasto varia de um ou dois dias até uma semana de trabalho.

A origem do grafite remonta às décadas de 60 e 70, quando um jovem de origem grega, identificado apenas por Demetrius passou a deixar sua tag (Taki 183) em vários pontos de Nova York. Como a marca do rapaz, que trabalhava como office boy, impressionou rapazes e garotas, logo outras pessoas passaram a imitá-lo. Na época, os jovens costumavam escrever seus pseudônimos e o número da rua onde moravam.

É bom lembrar que o grafite estava nascendo e por isso ainda era considerado pichação. Em meados dos anos 70, surge uma concepção que unia a prática de escrever letras nas paredes à arte, nesse momento, sim, nasce o grafite como ele é conhecido hoje. O grafite nasce como forma de expressão para jovens de periferia, principalmente os negros e hispânicos. Percebendo que poderiam desenvolver estilos, temas, formatos e técnicas individuais de expressão artística, passaram a utilizar em suas obras desde logotipos e imagens extraídas da televisão, dos quadrinhos e do conhecimento popular, até temas mais específicos, como amor, violência, política, racismo, entre outros.

Atualmente, o grafite é um gênero reconhecido como arte e tem obras expostas em grandes galerias de arte e museus de cidades como NY, Paris e Tóquio. Muitos artistas plásticos contemporâneos são influenciados ou mesmo estão ligados diretamente ao gênero, como é o caso do ex-grafiteiro Jean-Michel Basquiat.

"No viaduto, você coloca só o braço"

Em um bairro da região leste de Bauru, a reportagem do JC encontrou-se com um pichador. Identificado apenas como Y., ele concordou em falar desde que não fosse identificado em hipótese nenhuma e que o local da entrevista também não fosse divulgado. Y. é estudante de uma escola estadual, cursa o primeiro ano do ensino médio, antigo 1º colegial, e tem 16 anos. Vestindo roupas largas, bermuda, camiseta de basquete, boné e óculos escuros, a vestimenta típica que caracteriza os "manos", o pichador estava um pouco assustado com a possibilidade de ser reconhecido. Depois de começar a entrevista com certa timidez, sentiu segurança em abrir os códigos de quem se diverte na rua, talvez por falta de opção de lazer. Quando o gravador foi desligado, entrou em contradição. Apesar de ter dito na entrevista que iria parar de pichar. Afirmou que iria tentar deixar sua marca em um prédio próximo ao bairro onde mora. Leia a seguir a entrevista com Y., pichador há um ano e meio.

Jornal da Cidade - Como foi que você começou?

Y. - Os caras disseram que iam pichar e me chamaram. Eu falei, ah, estou com curiosidade. Aí eu fui e gostei. E estou até agora. Não vou ficar muito nisso aí não.

JC - Por quê?

Y. - Não leva a nada.

JC - O que acontece quando alguém é pego?

Y. - Quem roda apanha e leva banho de tinta. Se estiver com a tinta eles tomam e jogam na sua cabeça.

JC - Quem é que faz isso, a polícia?

Y. - A polícia. Gente assim de casa não pega. A gente sai correndo, eles não conseguem pegar.

JC - A polícia humilha?

Y. - Humilha. Joga tinta no seu cabelo. Espera secar e dá umas pancadas ainda. Por isso que eu gosto mais de trabalhar com spray. Porque já anda com o bico de spray na mão. Se os "home" aparecer você leva umas pancadas, mas não leva um banho de tinta. Quando é assim você tem que tomar um banho de tinner em casa.

JC - Qual é a outra forma de pichar, além do spray?

Y. - Tem gente que picha com rolinho. Anda com uma lata de dois litros na mão. Cheia de tinta látex ou óleo. E sai fazendo...

JC - E qual é o barato de pichar?

Y. - Ah, dá uma adrenalina. Você fica naquela. Ali no muro, fica esperto, vendo se vem alguém dos lados. Sei lá, polícia. Umas par de vezes aparece polícia você sai voado, correndo. Assim vai.

JC - Qual é o lugar mais cobiçado para pichar?

Y. - Tem a galera que gosta dos "pico", que é os prédios. E tem a galera que curte o chão. Nós pichamos mais o chão, é muito risco na altura.

JC - E como faz? Tem uns que parece impossível...

Y. - Depende. Tem um ali no calçadão que o cara subiu no prédio na hora que ia fechar. Se escondeu e dormiu lá. Fez lá os piche dele nos quatro cantos do prédio. Deu a hora de abrir o prédio, ele saiu voado.

JC - E o cara que faz isso fica com moral, conta vantagem?

Y. - Conta. Quanto mais grau de risco, o cara vai mais no alto. Fica considerado, mas tá corrido... Depende, não adianta você fazer um monte de piche em tudo que é lugar e você não respeitar a galera.

JC - Como assim?

Y. - Tipo você faz um piche vem um cara e atropela por cima. Se o cara quer aparecer de qualquer jeito é assim que ele apanha. Tem uns caras que são malas. Teve um aqui na zona leste que pegava as frases dos outros. Pensava que era o bom. Eu e os caras catamos ele. Ele saiu voado para Santos. Ficou lá. Se ele voltar para cá tem mais gente querendo catar ele. Assim vai, por causa de bobeira você roda.

JC - Em lugar alto o cara fica pendurado para poder pichar?

Y. - Fica pendurado. No viaduto, você coloca só o braço. Se não alcançar até lá em baixo você põe um cabo de vassoura. No prédio

é a mesma coisa, só que você tem que ficar deitado porque não tem onde apoiar. Dependendo do jeito que for o pico alguém segura seu pé.

JC - Quando você vê um muro branco tem vontade de pichar?

Y. - Ô. Já tem um monte aqui que está marcado (mostra os muros do bairro). Se não sou eu para fazer vai ser outro.

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