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Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 8 min

Oriente Médio: imigrantes lamentam conflitos

Texto: Josefa Cunha

Enquanto os brasileiros ficam questionando o porquê dos intermináveis conflitos no Oriente Médio, onde povos se degladiam para demarcar territórios, imigrantes e descendentes

árabes e judeus que vivem em Bauru lamentam as notícias trazidas pela imprensa e têm dúvidas sobre a possibilidade de paz na longínqua região.

Para pessoas como nós, acostumadas a viver entre tantas raças diferentes e se ver miscigenar livre de preconceitos

(assim pelo menos deveria), é difícil e talvez até inconcebível compreender as razões que levam adolescentes palestinos a se matar orgulhosamente e israelenses a derramar, sem dó, seu potencial bélico. O Brasil, aliás, aparece como um dos únicos países onde judeus e

árabes vivem harmoniosamente. "Aqui eles tiram palitinho para ver quem vai pagar o café", brinca o professor e historiador Murici Domingues, da Universidade do Sagrado Coração. Para tornar a questão do Oriente Médio mais clara, porém, o JC fez um retrocesso histórico (leia nesta edição) a fim de explicar a origem dos conflitos aos seus leitores.

No Brasil há 20 anos, o libanês Massad Kalim Massad teme as conseqüências da guerrilha pelos muitos amigos e parentes que deixou na cidade de Marjeyun, localizada no sul do Líbano e há apenas dois meses livre do comando israelita. Quando esteve em visita à terra natal, há sete anos, ficara abalado ao ver sua antiga casa cercada pelo exército judeu. "Agora estou mais tranqüilo", desabafou.

Na opinião de Massad, a "teimosia" de Israel querer ocupar uma terra que não lhe pertence pode acabar estourando uma "guerra de verdade", gerando conseqüências para o resto do mundo. Ele reconhece que o fanatismo existe em ambos os lados, mas considera o lado israelita mais opositor.

"Eles (judeus) mantêm cerca de 1.000 prisioneiros palestinos e cometem torturas com eles. Realmente é muito triste", lamentou. "Aquela é uma região que poderia estar explorando pacificamente o potencial turístico, vivendo em harmonia, mas isso parece ainda muito distante", acrescentou.

O bauruense Marcos Litvac, filhos de pais romenos com descendência judaica, considera o conflito no Oriente Médio um problema que aflige todo o mundo. "Qualquer guerra afeta não só as nações envolvidas, como os outros países, por mais distantes que estejam. Os reflexos são econômicos, haja vista o que vem ocorrendo com as bolsas de valores e o preço internacional do petróleo, e também sentimentais. Assistimos pessoas inocentes morrendo e famílias sendo dizimadas por uma simples questão de falta de boa vontade para se declarar a paz", comentou. "Parentes de pessoas que vivem naquela região passam por uma tremenda intranqüilidade, principalmente porque não sabem se as notícias que chegam até aqui são realmente verdadeiras", acrescentou.

Litvac acha que os palestinos têm direito aos territórios pelos quais briga, embora esteja longe de dar razão a um ou outro lado por conta da maneira com que buscam a libertação.

"Os judeus querem as Colinas de Golã porque é um ponto militar estratégico contra a Síria. O povo judeu também vive 24 horas alerta com receio de ser atacado", ponderou.

Na contramão dos que querem distância da briga incessável no Oriente Médio, o palestino Ibrahim Abdel Aziz Ibrahim Hamed está deixando Bauru para voltar à terra natal, uma cidadezinha no interior da Palestina. "O senhor não tem medo de ir para lá", pergunta a reportagem do JC. "Minha cidade é como se fosse uma Piratininga. Não tem guerra lá", explica Hamed, que está indo embora porque foi deixado pela mulher e não vê mais razões de permanecer aqui. "Eu tenho uma propriedade de terra lá, onde planto oliveiras", disse para justificar o que nos parece injustificável.

Hamed não é contra os judeus terem uma pátria, ainda que seja numa área que pertencia aos palestinos, mas não aceita a permanência deles em terras não estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU). "Os judeus conquistaram o estado de Israel numa barganha feita entre Inglaterra e Estados Unidos. Os ingleses, que dominavam várias nações árabes em 1918, estavam falidos e pediram socorro financeiro aos Estados Unidos, ou seja, aos judeus. A troca dessa ajuda era entregar, após 30 anos, aqueles estados aos judeus. Os ingleses assim fizeram e ainda deixaram suas armas para os israelitas, que as usaram contra os palestinos. Da mesma forma que eles não reconhecem a minha pátria, eu também não reconheço a deles", disse.

Conhecendo bem a postura dos palestinos, Hamed não vê saída para o cessar fogo até que Israel ceda e devolva as terras que invadiu. Mesmo se isso acontecer, ele acha que será necessário construir um muro (a exemplo do que separou por décadas a Alemanha) para apaziguar os ânimos e finalmente estabelecer a paz na região.

Em Bauru, a comunidade árabe tem muitos mais representantes do que a judia, hoje limitada a apenas três famílias. Felizmente, o relacionamento entre eles nem de longe remete à hostilidade existente milhares de quilômetros ao leste.

História explica origens da briga

Para compreender - ou pelo menos tentar - as razões que levam judeus e palestinos a se odiar e a se exterminar sem remorsos

é preciso uma verdadeira aula de História, retrocedendo antes mesmo à Era Cristã. Pode parecer inconcebível nos dias de hoje, mas judeus e palestinos já chegaram a formar um povo só nos primórdios, vindo a se separar por razões meramente religiosas.

A primeira menção dos judeus (semitas) na Palestina remonta do ano 1380 a.C., mas o advento do Império Romano os expulsou para várias partes do mundo (em História, essa saída é conhecida por Diáspora). Na

época, semitas e árabes (camitas) liam o Velho Testamento e não tinham qualquer problema de relacionamento, assim permanecendo até o século XII da Era Cristã, quando uma parcela do povo que havia ficado na Palestina tornou-se muçulmana com o surgimento de Maomé. O domínio do território deixou de ser político para ser religioso.

A expansão do povo árabe pelo Islamismo prosseguiu durante toda a Idade Média, Moderna e Contemporânea até a instalação do Império Turco-Otomano, que, apesar de também ser muçulmano, passou a dominar o povo árabe. Esse controle se estendeu até o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Inglaterra e França passaram a comandar os países árabes.

Nos bastidores da História, comenta-se que os ingleses recorreram aos Estados Unidos em busca de dinheiro, este essencialmente pertencente aos judeus. Teria ficado acertado que a Inglaterra pagaria esse empréstimo 30 anos depois, em 1948, cedendo aos judeus as terras árabes que controlava para a formação do estado de Israel, mediante a condição de que as comunidades não judaicas fossem respeitadas. Foi aí que os judeus retornaram ao território de onde haviam saído 2000 anos antes. Antes disso, porém, muitos deles perseguidos pelo regime nazista ingressaram clandestinamente na Palestina.

Oficialmente, terminada a Segunda Guerra, os ingleses delegaram

à ONU a tarefa de solucionar a questão dos palestinos e judeus. A organização, sem consultar previamente a opinião dos árabes, decidiu dividir a Palestina em dois estados. Os árabes não aceitaram pacificamente a decisão, prosseguindo uma guerra com os judeus até 1949, quando Israel vence o conflito e passa a ocupar 75% do território palestino, um terço a mais do que o determinado pela ONU. De lá para cá, as brigas nunca cessaram, com exceção de curtos períodos de trégua.

A situação atual

Durante as últimas cinco décadas, Israel devolveu algumas áreas reivindicadas pelo governo palestino, mas ainda ocupa terras que não deveria. Basicamente, os palestinos querem domínio sobre a Faixa de Gaza (que territorialmente pertence ao Egito, mas não encontram neste resistência em ocupá-lo), Cisjordânia como um todo e, especialmente, Jerusalém (acompanhe no mapa as áreas de conflito), atual capital de Israel. A mudança da capital israelita, sediada em Tel Aviv até 1997, por sinal, acirrou ainda mais os ânimos dos palestinos contra os judeus.

O líder palestino Iasser Arafat quer a qualquer custo fincar a bandeira Palestina em Jerusalém, hoje tomada pelos dois lados. A recente onda de violência na região, aliás, começou depois que Ariel Sharon, líder do maior partido de oposição israelense (o Likud), visitou uma área de disputa em Jerusalém. A disposição dos locais sagrados na Cidade Santa, por acaso, não é nada favorável à paz: o Templo de Salomão

(judeu) é base da principal mesquita muçulmana.

Portanto, hoje se tem Arafat - sectário da ala moderada

- tentando controlar e unificar os palestinos. A tarefa é dura - senão impossível -, porque ele é visto como um traidor pelos muçulmanos xiitas, radicalmente contra os acordos de paz. Esses fundamentalistas - com destaque para a milícia libanesa Hezbollah - acreditam, por exemplo, que o céu lhes guarda uma "vida" maravilhosa, motivo pelo qual não se importam em morrer. Adolescentes são incentivados pelos pais a se suicidar em ataques terroristas e atendem aos pedidos orgulhosamente.

Do outro lado, está o ministro israelense, Ehud Barak, que não consegue apoio da maioria no Parlamento. Ao contrário, vive atormentado pelo líder do conservador Likud, também fundamentalista e contrário ao cessar fogo. Para Barak, cabe ao líder palestino pôr fim imediato à violência, o que se vislumbra como quase impossível diante da nula influência de Arafat sobre os palestinos radicais.

Numa avaliação sobre o conflito judaico-palestino, o historiador Murici Domingues vê muito distantes as chances de paz sem que haja uma interferência incisiva da ONU. "Particularmente, não vejo solução se a ONU não tomar uma providência em relação a Jerusalém. A cidade deve passar ao controle da Organização, porque não haverá acordo enquanto ela for capital de Israel. Jerusalém deve passar a ser um local de acesso comum e neutro de cristãos, muçulmanos e judeus. Deus nos livre pensar na guerra que pode eclodir a partir da situação atual."

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