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Mãe adotiva

Eva Rodrigues
| Tempo de leitura: 8 min

Mãe adotiva tem condições de amamentar bebê

Texto: Eva Rodrigues

Amamentação pode ser induzida com muito estímulo e ajuda de alguns medicamentos

Uma vontade imensa, aliada à estimulação constante da mama, alguns medicamentos e muita, mas muita paciência, pode tornar realidade para a mãe adotiva o que muitas vezes

é deixado de lado por mães biológicas: a amamentação.

O estímulo à produção do leite é um processo mais complicado na mãe adotiva em função de não ter passado pelo processo de preparo da mama, o que ocorre naturalmente durante o período de gravidez. Mas é possível e há vários registros de casos, inclusive aqui em Bauru, conforme informação da nutricionista e coordenadora do Banco de Leite da Secretaria Municipal de Saúde, Maria Nereida Panichi.

A lactação induzida deve ter início antes da mãe estar com a criança. A ginecologista Cristiane Castilho explica que há medicamentos no mercado que podem ajudar na produção do leite, apesar de não serem produzidos com essa finalidade - a ação é como um efeito colateral dos medicamentos. "O Plasil, remédio contra vômitos, tem uma substância que estimula a lactação, assim como o Syntocinon, usado para estimular o trabalho de parto", exemplifica.

Mas a médica alerta que os remédios não significam garantia de resultado. "Só o medicamento não resolve, ele precisa estar aliado ao estímulo, muita paciência e compreensão do marido e familiares. Aliás, às vezes o remédio pode ter um efeito mais psicológico do que medicamentoso", indica.

Quando já está com o bebê, a mãe deve iniciar a estimulação da mama. Para isso, ela simula o aleitamento colocando um cateter bem fino preso à mama por onde desce o leite (vindo de um recipiente ou seringa). Quando abocanha o seio, a criança ao mesmo tempo se alimenta através do cateter e estimula a produção do leite com o ato de sugar a mama - o marido também pode contribuir fazendo exercícios de sucção nos seios da mulher. Com muito empenho o processo pode demorar de um a dois meses para apresentar resultados. Uma observação: esse procedimento

é válido também para mães biológicas que pararam de amamentar por um período e querem retomar a produção de leite.

Para a ginecologista, é de fundamental importância a divulgação da possibilidade de amamentação para as mães adotivas: "A mulher que adota um bebê já está vivendo um momento especial da vida, que pode se tornar ainda melhor e mais completo. É indescritível a sensação experimentada por mães que conseguiram a lactação", ressalta.

Aleitamento correto

Para a mamada correta a criança deve abocanhar boa parte do tecido mamário da aréola (área em torno do mamilo). A sucção eficiente é aquela na qual se forma um ciclo de um segundo entre sugar, deglutir e respirar.

"Se a criança fica sugando só no mamilo, a mãe sente dor e o leite não vem", observa Nereida.

A coordenadora do Banco de Leite lembra que a frequência e a duração da mamada vão variar de acordo com cada criança e com a produção de leite da mãe. "O bebê tem que mamar quando tem fome, o que cabe ao profissional da saúde é orientar a mãe para que possa identificar o que é choro de fome, de dor, de fralda suja ou de insegurança e medo."

Outro item de fundamental importância, conforme Nereida,

é se esvaziar uma mama primeiro para depois oferecer a outra (o próprio bebê larga quando o leite acaba). Por dois motivos: "O primeiro é que a mama tem que ficar vazia para estimular a produção de leite; o segundo fator é que o leite se divide em anterior, intermediário e posterior - o anterior tem mais água, mais lactose, vitaminas hidrossolúveis (complexo B e C), sais minerais, anticorpos e fatores de resistência; o intermediário tem mais proteína, cálcio e fósforo; e o leite posterior, mais rico em gordura, vai ter as vitaminas lipossolúveis

(A, D, E e K) e 20% dos fatores de resistência. Se não mamar até o final, o bebê pode perder peso porque deixou de ganhar a gordura do leite posterior".

Além disso, se a mama estiver muito cheia e vazando entre uma mamada e outra, a mãe deve fazer a ordenha para evitar o ingurgitamento (excesso de leite que endurece os seios). O manejo correto, aliado a muita paciência e boa vontade da mãe,

é a fórmula mágica para fazer da amamentação um ato simples e sem mistérios.

Fatores culturais e ansiedade atrapalham amamentação

Nereida analisa que embora tenham o instinto natural - como todas as fêmeas mamíferas -, as mulheres de hoje não vivem a amamentação. "Temos a cultura da mamadeira, da chupeta, do que é mais prático. As mulheres têm o bebê e não sabem se comportar diante de algo (amamentação) que é da natureza humana", discute a nutricionista.

Se faz parte da natureza humana, por que a dificuldade enfrentada por tantas mulheres com o aleitamento das crianças? A resposta de Nereida é que "o processo é muito simples, se começar da maneira correta". Essa maneira correta passa pelo entendimento do que acontece com a mulher nesse período. Na gravidez, o corpo vai preparando as glândulas mamárias e os ductos (por onde passa o líquido) para a produção do leite. É interessante salientar aqui que o aumento da mama não se dá em função do leite mas da gravidez - há um acúmulo de gordura de cerca de meio quilo em cada seio nesse período e se a mulher tiver um tecido orgânico flácido a tendência de queda é inevitável, ou seja, não é a amamentação a vilã dessa história.

A mulher é preparada durante esse período mas ainda não tem o leite porque os hormônios da gravidez bloqueiam a ação dos hormônios da produção.

"Com a expulsão da placenta, a prolactina (hormônio que produz o leite) começa a estimular as glândulas mamárias - cada glândula passa a ser uma mini-fábrica, tirando nutrientes da corrente sanguínea para sintetizá-los como nutrientes do leite. Nesse momento também entra em ação o hormônio ocitocina fazendo o leite produzido nas glândulas caminhar pelos ductos", discorre Nereida.

O bom funcionamento dessa cadeia produtiva de leite que se forma está diretamente ligado à sucção do bebê e ao equilíbrio da mãe. "Às vezes, a mulher está produzindo normalmente, mas situações de estresse emocional ou físico, ansiedade ou a falta de sucção pelo bebê atrapalham tudo", orienta.

Uma das dificuldades na amamentação pode começar dentro do hospital, ao não haver o incentivo ao aleitamento logo após o parto. "A criança acabou de nascer já deve ser colocada para mamar o colostro, que evita o ingurgitamento da mama e inicia o treinamento para o ato de sugar. Esse leite já tem muitos fatores de resistência e anticorpos, além de todos os nutrientes que a criança precisa; só tem uma coloração mais amarelada porque é uma fase de preparação mecânica da mama para começar a produzir o leite maduro (branco)", especifica Nereida.

A mamada na primeira hora do nascimento está relacionada a um instinto dos mamíferos. "Nesse primeiro momento, o bebê está em estado de alerta ao nascimento e tem que mamar para se nutrir e hidratar. Se não mama na primeira hora, essa resposta ao estímulo de sucção

é mais lenta - o que não significa que não vá ocorrer - porque o bebê entra num estado de latência, vai dormir para recuperar as energias do parto." Como esse manejo inicial no hospital não costuma ser cumprido de maneira adequada, a mãe acaba indo para casa cheia de dúvidas, a mama começa a produzir leite, incha, o bebê tenta sugar e não consegue direito e a crise se instala, em geral com toda a família opinando sobre a situação

- conseguindo deixar a mãe ainda mais angustiada e piorando o quadro. "Com tranquilidade, apoio dos familiares (não para dar receitinhas milagrosas), e principalmente acreditando que é possível, a mulher reverte o problema e faz o aleitamento normalmente do filho", conclui Nereida.

O trabalho do Banco de Leite

O Banco de Leite da SMS atua com dois objetivos básicos. O primeiro é o de promover, divulgar e apoiar o aleitamento materno através de orientações dadas em visitas diárias feitas às maternidades de Bauru. Nessas visitas são dadas orientações básicas sobre amamentação, como fazer massagem para evitar o ingurgitamento mamário, ordenha. "A idéia

é fazer esse trabalho com todas as mães, e quando escapa alguma a gente faz contato via telefone", explica a coordenadora do Banco de Leite, Maria Nereida Panichi.

Em outra frente, o Banco faz o atendimento ambulatorial de mães com todo tipo de problema relacionado ao aleitamento. "Atendemos os problemas decorrentes e impeditivos do aleitamento materno e não superados", especifica Nereida.

Na última quarta-feira, por exemplo, a mãe de primeira viagem Gislaine Maria Caldas Montanari, 23 anos, chegou ao local com problemas de ingurgitamento mamário, o que dificultava a sucção do leite pelo pequeno Leonardo, com apenas quatro dias de vida. Depois de uma sessão de massagem e ordenha para diminuir a quantidade de leite acumulada na mama, o bebê pôde se deliciar com o leite da mãe.

"Acho fundamental o aleitamento materno e vou fazer tudo o que for necessário para amamentar meu filho pelo maior tempo possível", afirmou.

O Banco mantém um estoque de leite materno que chega através de doações - a distribuição é feita sob prescrição médica.

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