Geral

Assoreamento

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 7 min

Ainda recebendo esgoto de algumas cidades da região, o rio Lambari resiste. Pescadores aproveitam os momentos de folga para passar horas em suas margens à procura de pequenos peixes. Mas o rio está ameaçado pelo assoreamento....Região de Bauru, município de Ubirajara, próximo a Lucianópolis e Duartina, o rio Lambari traz boas lembranças aos pescadores. Em suas águas, além de lambaris, piavas, mandis e bagres, era possível ter boas pescarias de tabaranas. Há quem afirme que é possível encontrar alguns peixes maiores por lá, mas a realidade está um pouco diferente. O quadro chega a entristecer até os menos ligados ao meio ambiente.Além do baixo nível da água em função da seca, o assoreamento do rio está sendo inevitável. O ribeirão Bonito, que deságua no rio Lambari, traz em suas águas uma grande quantidade de areia que está sendo depositada no fundo e em suas margens. Não é difícil encontrar verdadeiras praias em cada curva do Lambari. A situação é grave.Segundo o pescador Carlos Benetti, 56 anos, morador de Duartina e proprietário de um rancho em Ubirajara há 11 anos, o problema do assoreamento iniciou há quatro anos. "Já faz tempo que o ribeirão Bonito só traz areia para o rio Lambari. Já tentamos comunicar a Prefeitura e ainda não tivemos nenhuma providência. A areia vem de uma erosão que existe no município", comenta.Ao entrar em contato com o prefeito de Ubirajara sobre o que poderia ser feito, Ary Miguel de Faria (PV), limitou-se a afirmar a impossibilidade da Prefeitura em resolver todos os problemas por falta de verba. Além disso, justificou-se dizendo que tomou conhecimento do problema há cerca de seis meses, período em que ainda não foi possível nenhuma medida. Faria disse também que teria comunicado a Polícia Florestal. De acordo com ele, a responsabilidade seria do proprietário daquela área, já que a erosão está localizada em uma propriedade particular.O comandante interino do Policiamento Florestal e de Mananciais de Bauru, tenente Marcelo Sanches, 36 anos, informa que em uma semana deverá enviar uma equipe para verificar o tamanho exato da erosão. "Eu, particularmente, desconheço o comunicado do prefeito e o problema, mas informo que, dependendo do diagnóstico e do tamanho da erosão, caberá encaminhamento ao Ministério Público para que peça o saneamento do problema", comenta Sanches.O Policiamento Florestal de Bauru é responsável por 39 municípios, em uma área aproximada de 18 mil Km², que inclui Ubirajara. Porém trata-se, de acordo com Sanches, de uma divisa de área, o que reduz o policiamento. De acordo com ele, erosão não tem enquadramento para autuação e multa. Será preciso aguardar o laudo com a descrição do problema.Amor pelo rioAo navegar pelo rio Lambari, sob o comando de Benetti, é possível observar seu respeito com a natureza. Mesmo com a baixa profundidade, o pescador conhece cada galho, toco, onde o "motor vai pegar", onde o rio mudou seu curso... nosso guia comenta cada centímetro da região. "Ali é rastro de capivara. À noite, elas andam em bando por aqui." Outros animais são observados pelos pescadores atentos. Sucuri, macaco, pato, gralha, sabiá, quero-quero e outros bichos resistem e deixam o lugar mais alegre. O canto dos pássaros encanta em todos os momentos.Em época de piracema, que iniciou em 1 de novembro e segue até 29 de janeiro, os pescadores limitam-se à pesca de barranco e devolvem os peixes ao rio. Afinal, eles lutam pela sobrevivência ao subir o rio para procriar.Durante o passeio, uma pausa na propriedade de Marcelo Menechelli, 34 anos, casado com Vera Lúcia Mantovanelli, 34 anos, e pai de Marcella, 4 anos. A família mora em Duartina e freqüenta o pesqueiro todos os finais de semana. O casal procura colaborar com a flora local. "Já plantamos pau-brasil, jacarandá, jatobá, ipê e agora estamos plantando palmito", conta Menechelli. Apesar de seu pesqueiro estar localizado acima do ribeirão Bonito, onde está ocorrendo o assoreamento, ele lamenta a situação. "Já vi este rio com peixes em abundância e hoje vemos que ele pode acabar. Apesar de Ubirajara já possuir o tratamento de esgoto há mais de 10 anos, ainda há cidades que despejam seus dejetos no rio Lambari."Esperançosos, os apaixonados pela região esperam por uma solução. Enquanto isso, procuram colaborar como podem. Cláudio Sampaio, 46 anos, também é de Duartina e prefere a pesca de barranco. Sua preocupação, e dos demais pescadores de lá da cidade, é sempre carregar o lixo. "O pescador e o visitante sempre deve recolher seus resíduos para não poluir a mata, o rio."Pequeno grande peixeMassa (fubá, açúcar e água), macarrão ou frutinha são algumas das iscas usadas para a captura de um peixe pequeno, mas muito esportivo. A pesca do tambiú alegra muito os pescadores. Adamastor Saraiva Neto, 42 anos, um dos "guias" da região, é um apaixonado pelo ambiente da pescaria. "É a coisa mais gostosa que tem na vida."Segundo ele, tudo o que se faz no rio é bom. "É gostoso dar uma volta de barco, tomar uma cerveja, assar uma carne e conversar com os amigos depois da pescaria."Atrás dos tambiús, o pescador dá a dica: "eles gostam das frutinhas e do macarrãozinho. É um atrás do outro." Para Saraiva, outro detalhe deve ser observado com relação às margens do rio. "Nós não abrimos picadas, não derrubamos árvores. Temos muito respeito com o meio. Até quando o motor vai bater em uma madeira, no fundo do rio, tomamos o cuidado de soltar o motor para que, naturalmente, pule o toco e continue o percurso." Benetti é contra retirar os troncos, pois, além de depredar o ambiente, abre espaço para que outras pessoas, menos experientes, aventurem-se no rio.Além das pescarias, o "Rancho do Carlinho" (como é conhecida a propriedade de Benetti) é o local onde surgem histórias engraçadas e carregadas de aventura. Ali, não existe problema que permaneça por mais de um segundo. Eles contam histórias, fazem graça um com o outro, pescam um pouquinho e partem para mais uma semana de luta. Porém, com a mente sã!********História de pescador ********Pescador de tatuLá pelos idos anos 60, estrada Velha Bauru-Piratininga, antes de chegar na Fazenda Lalai; o velho e lendário rio Batalha, na época com grande volume de água, e com fartura em peixes, era ponto de encontro de muitos pescadores. Garoto ainda, tínhamos um grupo de amigos, que sempre achávamos tempo para nadar e também pescar, porque não, alguns lambaris.Uma figura muito conhecida na época, o velho Zé Rosa, morava perto do Sambra, era visto todos os dias na barranca do rio; sempre conversávamos com o Seu Zé Rosa, que mesmo pescando gostava de contar algumas façanhas de sua pescaria. Algumas davam para engolir. Mas outras eram bravas. Sempre que íamos ao Batalha e vimos seu Zé Rosa, lembrávamos, porque pescador inventa tanto?Um dia ao chegar no rio; vimos Seu Zé Rosa pescando encostado em uma árvore, descemos o rio e pescamos sob a ponte da estrada de ferro, lambaris, tambiús, mandis: à tarde o embornal estava cheio. Recolhemos as varas e resolvemos voltar, passamos ao lado da árvore onde Seu Zé Rosa estava encostado e notamos que ela estava coxilando, quando pegamos a estrada encontramos um filhote de tatu, pegamos o bichinho e resolvemos fazer uma brincadeira com seu Zé Rosa, devagar sem fazer barulho, chegamos até ele; puchamos a linha e iscamos a boca do tatu, e deixamos na beira do barranco, o tatu começou a andar e caiu na água; a vara envergou e seu Zé Rosa acordou com o puchão; saímos de trás do mato e começamos a gritar: "aí seu Zé pegou um; esse é grande seu Zé; não deixa escapar seu Zé". Sempre sossegado, seu Zé Rosa foi puchando devagar e tirou o tatu; virou-se olhou para nós, virou-se, começou a tirar o anzol da boca do tatu, abriu o embornal colocou o tatu dentro e nos disse: "vocês não vão acreditar"... e respondemos: "acreditamos sim, seu Zé; nós vimos o senhor pescar o tatu". "Não, não é isso", respondeu o seu Zé Rosa. "É que esse é o terceiro que eu pego hoje." Viemos embora nos perguntando, porque será que pescador mente tanto? Hoje nós entendemos, não foi uma mentira; é que ele exagerou um pouco.Alvaro Scarço é pescador e narrador de causos verídicos********Troféu pescador ********O tucunaré, um dos preferidos pelos pescadores por sua esportividade, foi fisgado por Francisco J. G. Ranieri, no rio Araguaia, em 99. Depois da foto, o exemplar voltou rapidamente ao rio.

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