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Artigo

N. Serra
| Tempo de leitura: 2 min

A avalanche de papéis que se abateu sobre o País no recente pleito municipal não tem como ocultar o testemunho, por si só incontestável, segundo o qual o poder econômico imperou na eleição com largueza econômica. Quem teve grandes recursos para gastar na confecção de "out dors", "santinhos" e outras formas de propaganda impressa só não foi generosamente votado como esperava porque nem exibindo faces sorridentes e olhares lânguidos conseguiu seduzir um punhado a mais de eleitores, quer dizer, não logrou captar a simpatia dos indecisos, essa pobre gente que, ignorando a capacidade e o programa dos candidatos, foi às urnas mais para escapar às sanções da Justiça Eleitoral do que para votar sob a influência do nome ou da estampa carismatizada por um semblante largo, barbas feitas ou por fazer, bigodes fartos ou estreitos e outras tantas características dos personagens de eleição.A carência de impressos não podem os derrotados debitar a frustração que as urnas, misteriosas e enigmáticas, como quer que queiram, lhes reservaram para o epílogo da campanha, uma vez que pleito nenhum como o recente inundou tanto as ruas, praças e áreas residenciais com tamanho volume de papéis impressos a cores ou preto-e-branco. Os problemas de abastecimento, que afetavam demasiadamente as populações com falta de carne, leite, pão, bebidas, remédios e outros tantos bens de consumo, não castigaram a promoção eleitoral com falta de papel e tinta para a estampagem, sem dúvida volumosa e cara, de uma quantidade jamais vista de propaganda gráfica, a qual, se deixou de eleger muitos sonhadores e aventureiros, ao menos enriqueceu um pouco mais as gavetas de centenas de estabelecimentos especializados que entraram na grande jogada das urnas deste interrogativo ano 2000. E, ao que se deduz, daqui pra frente vai ser exatamente assim, igualzinho-igualzinho, porque o uso de impressos será sempre maior, mais robusto, a cada eleição que se programe, a menos que a Justiça Eleitoral, que fere abusivamente a liberdade democrática da população, obrigando a que votem pessoas que não queiram votar, vislumbre também nessa papelada toda, atirada pelas janelas da Nação, abusos indiscretos do poder econômico, inteiramente livre, e se decida a interferir com todo rigor, reduzindo-a a proporções menos contundentes diante da melancólica miséria que castiga milhões e milhões de famílias, quase todas eleitoras desavisadas dos terríveis investidores eleitorais. Se uma tal intervenção não ocorrer imediatamente pode até acontecer que o próximo dilúvio celestial, ao invés de água pura dos céus seja constituído de papel sujo das ruas, de maneira a afogar diferentemente "a grande corrupção dos homens da Terra", conforme a visão liberal do Gênesis ao desenhar a fabulosa panorâmica que resultou na fenomenal hecatombe dos primeiros tempos da humanidade. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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