Os problemas econômicos na Argentina e seus reflexos nas áreas política e social pioraram nas últimas semanas. Tanto interna como externamente aumentou a incerteza quanto à capacidade do governo de lidar com a crise. O pacote de medidas anunciado pelo presidente De la Rúa, após conversas com o FMI, não foi suficiente para alterar as expectativas de mudanças no curto prazo e sofre uma forte rejeição política. Para isso contribuiu a dose de sadismo inoculada no pacote, ao sugerir elevar de 60 para 65 anos a condição para aposentadoria das mulheres. Pode-se imaginar a quem pertence a mente maldosa que imaginou tal despropósito, no momento em que a sociedade luta para conter o avanço da pobreza e para reduzir os índices de desemprego. A resistência política aumentou e a credibilidade desabou. Numa análise precisa como sempre publicada nesta semana na Folha de S. Paulo, o jornalista Celso Pinto lembrou a famosa "Lei de Murphy" que neste momento se aplica à Argentina: tudo o que poderia dar errado para a economia do país, está dando...Excetuando-se o caso do futebol, nada de ruim que acontecer com a Argentina pode ser bom para o Brasil. São antigas e profundas as ligações econômicas entre brasileiros e argentinos, de modo que, se os negócios não vão bem no Prata, devemos nos preparar para absorver uma parte do prejuízo. Eles são o nosso maior cliente comercial e nós somos o mais importante mercado de suas exportações. É visível que os argentinos estão pagando um preço exorbitante pelo erro fundamental de sua política econômica, que foi a escolha do câmbio fixo atrelado ao dólar. Eles adotaram um sistema que os economistas chamam de "currency board", na verdade uma cópia dos sistemas que os ingleses impuseram às suas colônias no século 19. Parecia uma grande vantagem poder dizer que o peso é uma moeda forte, plenamente conversível. Mas conversível a quê? Conversível ao dólar norte-americano. Mas a conversão significa que o país perderia a sua moeda, o que não parece uma alternativa absorvível pelos cidadãos argentinos. Nós também pagamos um alto preço pela aventura da âncora cambial, mas conseguimos nos libertar da armadilha do câmbio em janeiro de 1999. Não foi nem por mérito nosso, e sim pela ação do mercado, depois que nos sangrou em 40 bilhões de dólares. O sistema argentino está funcionando desde 1991, quando se estabeleceu a paridade peso/dólar. A valorização do real a partir de 1994 estimulou as exportações argentinas para o Brasil e as ligações econômicas entre os dois países cresceram rapidamente. Muitas empresas, especialmente multinacionais, ampliaram suas instalações em ambos os lados, na crença que estavam trabalhando com preços corretos e só perceberam o erro 4 ou 5 anos depois, quando houve a mudança do regime cambial brasileiro. Hoje, estão procurando corrigir os problemas, enquanto amargam prejuízos mensais bastante salgados. Com os mercados inquietos, o FMI se apresta a ajudar utilizando uma nova linha de crédito que pode chegar a 13 ou 14 bilhões de dólares. É um pacote pequeno, insuficiente, diante do que tem que ser feito na Argentina e que não pode deixar de ser dito nas atuais circunstâncias: ou baixa o salário nominal em 25% ou sobe a produtividade em 25%. (*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da Faculdade de Economia e Administração da USP e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento -E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br
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