Geral

Artigo

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Na noite de 9 de novembro de 1938 eram destruídas sinagogas por toda a Alemanha e o governo de Adolf Hitler oficializava o envio de judeus para os Campos de Concentração. Naquela noite iniciava um processo de extermínio sistemático de milhões de pessoas. Na noite de 9 de novembro de 2.000, milhões de alemães reuniram-se nas principais cidades, formando uma grande manifestação pela paz e contra qualquer forma de discriminação. A demonstração ocorrida há duas semanas teve duas razões que estão diretamente interligadas: a primeira, foi a de combater a existência de grupos neonazistas no país, os quais estão espalhados por diversas cidades da Europa e dos Estados Unidos, mas que ganham um caráter especial na Alemanha graças ao passado Nazista. A segunda razão foi a de não deixar que este terrível passado caia no esquecimento. Homo sapiens constitui-se sempre, na mesma medida, em homo socius. O ser humano não consegue viver isolado e sua história particular é sempre parte da história de um coletivo. A sua individualidade está em constante inter-relação com a cultura e a história de seu povo. Entender quem eu sou, descobrir minha identidade significa também conhecer e entender a história da sociedade à qual eu pertenço. Perda de memória constitui-se em perda de identidade, como também, em falta de orientação. Mas a simples memória histórica não é suficiente para a construção de um futuro mais humano. É importante perguntarmo-nos, que tipo de leitura do passado é construída no presente. História é sempre interpretação e ela pode ser contada por perspectivas diferentes.Um critério fundamental é não esquecer o que Walter Benjamin certa vez escreveu: "nunca há um documento de uma cultura, sem que este seja um documento da barbárie". Ou seja, a história de vencedores é sempre escrita sobre o sangue dos vencidos. Se esquecermos destes, teremos uma linda história de ordem e progresso, mas uma péssima preparação para o futuro. Eu me lembro bem, que na década de setenta, em plena ditadura, o Golpe Militar era ensinado nas escolas como "Revolução", o Brasil ainda tinha sido "descoberto" por Cabral, o bom português que havia chegado por acaso às costas brasileiras e os bandeirantes não haviam ainda se tornado terríveis caçadores de índios, continuavam a ser não só heróis desbravadores do nosso sertão como, muitas vezes, pobres vítimas dos "selvagens". Não é de se espantar que, naquela época, as crianças e os jovens de Bauru receberam com alegria e homenagens o então presidente Geisel , sem ter a mínima noção que o seu governo agia contra os direitos humanos, contra a liberdade de expressão e exercia a tortura oficializada. Afinal, quem era preso e desaparecia era visto como comunista desumano.Sem dúvida alguma esta época é passado. Amanhã, provavelmente, haverá comemorações por todas as escolas do Brasil, pois nesta segunda-feira as crianças e os estudantes do nosso país se lembrarão do herói Zumbi dos Palmares, morto a 20 de novembro de 1695. Haverá com certeza palestras sobre os terríveis anos de escravidão negra no Brasil, as crianças refletirão sobre o absurdo do racismo e, é claro, sobre a importância da consciência negra. Todos se lembrarão, com certa vergonha, que o Brasil foi o último país a terminar com o sistemaescravista. Com certeza teremos um programa especial nos principais canais de televisão sobre Zumbi dos Palmares e novos livros sobre este herói revolucionário serão lançados no mercado. O tempo em que a princesa Isabel era vista ainda como a "heroína" que assinou a lei Áurea já se passou. Todos na verdade sabem que a famosa lei foi um jogo político, uma tentativa da Monarquia decadente em conquistar a elite de cafeicultores paulistas e salvar o trono do velho Pedro. A tentativa não deu certo, os escravos negros foram libertados e jogados na rua e os imigrantes europeus vieram substitui-los. Ainda bem que será comemorado amanhã o herói Zumbi, afinal este contribuiu muito mais para uma consciência de luta, transformação da história e dignidade humana, do que a Princesa que "deu" de presente a liberdade. Amanhã, em homenagem ao dia de Zumbi, serão fundados centros culturais de preservação da memória do povo negro por todo o Brasil. Provavelmente o presidente fará um discurso na televisão sobre novas verbas para o ensino público e o Vaticano nomeará mais bispos negros para o Brasil. É ótimo saber que tudo está mudando. Se continuarmos assim, o Brasil deixará de ser o "país do futuro", o gigante deitado - e dormindo - em berço esplêndido, para se tornar, já no presente, uma realidade mais humana.(*) Especial para o JC Cultura

Comentários

Comentários