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Cadeia

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

O delegado João Dutra quer firmar parcerias com empresas que necessitem de mão-de-obra artesanal para fazer produtosO novo diretor da Cadeia de Bauru, delegado João José Dutra, está contatando empresas para tentar oferecer aos presos a oportunidade de trabalhar. A idéia é firmar parceria com empresas que precisem de mão-de-obra artesanal em alguma das fases da fabricação de seus produtos. Na semana passada, João Dutra, que está no comando do Cadeião há pouco mais de 20 dias, conversou com os presos sobre o projeto, que recebeu o nome de laborterapia. A maioria dos detentos tem interesse em trabalhar, até por ser uma forma de passar mais rápido o tempo ocioso, ganhar algum dinheiro e ainda reduzir o tempo de pena a cumprir.A Cadeia de Bauru foi projetada para 70 presos, mas abriga, em média, o dobro de sua capacidade. Na sexta-feira passada, por exemplo, estava com 145 presos. Na cela mais lotada, 17 presos dividiam o espaço de 4x4 metros. Teoricamente, não eram para continuar presas no Cadeião as pessoas já condenadas. No entanto, por falta de vagas no sistema prisional, muitos acabam cumprindo a pena na própria Cadeia. As condições de vida numa cela que abriga 17 pessoas são muito ruins. Quase não há espaço suficiente na cela para todos ficarem sentados, o que piora na hora de dormir. Para acomodar todos, são colocados colchões até no banheiro. Por essa situação, apesar de grande parte dos presos estar na expectativa de ganhar a liberdade ou ser transferido para um presídio, para cumprir a pena, no caso dos já condenados, é que diretor do Cadeião está tentando viabilizar parcerias com empresas que ofereçam oportunidade de trabalho.João Dutra ressaltou que o trabalho é uma forma de regeneração social do preso. Ele está iniciando os contatos, mas acredita que haja interesse por parte dos empresários. Essa terceirização de serviços seria lucrativo para as empresas que, neste caso, não precisam recolher as contribuições previdenciárias. Para o preso a vantagem é maior: além do salário e de passar o tempo mais rápido, a legislação prevê que para cada três dias trabalhados reduz-se um dia da pena. Leônidas Teodoro Navarro, preso por furto, é um dos detentos que se diz muito interessado em trabalhar. Os presos, contou, vivem num clima de ansiedade e o trabalho ajudaria a amenizar a situação.O diretor do Cadeião explicou que os presos poderão trabalhar das 13 às 18 horas, no pátio - no período da manhã eles tomam sol, jogam futebol, caminham no pátio e lavam suas roupas. O resto do dia é passado dentro da cela.Para passar o tempo mais rápido, praticamente todos os detentos jogam cartas e assistem televisão a tarde toda - a maioria das celas têm TV. Alguns desenham, escrevem, lêem e outros poucos fazem algum trabalho manual. É o caso de Odonis Marquesin Neto, preso por uso de entorpecentes. Ele mostrou à reportagem um relógio artesanal que estava concluindo. Disse que também faz barcos e prédios em miniatura. Em outra cela, Antônio Sérgio de Souza, preso por furto, também fazia trabalho manual na sexta-feira passada. Ele estava iniciando a maquete de um barco, para uma possível reprodução em madeira. Os poucos artesanatos hoje produzidos no Cadeião são distribuídos entre as famílias dos próprios detentos. Além da proposta de trabalho, o delegado João Dutra contou que a Cadeia aceita doações de livros, para que os presos encontrem na leitura um passatempo educativo.AnsiedadeO ex-prefeito Antônio Izzo Filho que, por ter curso superior ocupa uma cela especial da Cadeia de Bauru, também vive a ansiedade comum a qualquer preso. Mas agora, contou, pensa menos do que antes na sua situação de preso. Em conversa rápida com a reportagem na última sexta-feira, ele disse que passa boa parte dia lendo a Bíblia e livros em geral. Atualmente, contou, está traduzindo textos sobre engenharia do inglês para o português para o seu filho, que faz o curso de Engenharia. Bem mais magro, barba longa e visivelmente abatido, Izzo disse que vive na expectativa da liberdade. Ele já foi condenado, obteve habeas-corpus, mas continua preso por força de dois mandados de prisão preventiva.Izzo ocupa uma cela especial, que não é muito confortável até em função do espaço, que é pequeno. Além da cama, na cela há um frigobar, televisão e uma mesa pequena, onde ficam os livros. Atualmente, as visitas mais freqüentes são da família, principalmente de sua mulher, Rosa Izzo.Segundo ele mesmo contou, as visitas dos companheiros de política escassearam-se nos últimos meses. Até mesmo Pedro Valentin, que sempre disse ser o fiel seguidor de Izzo, não tem aparecido para visitá-lo. Pesando menos - não soube dizer quanto, mas calcula que 20 quilos a menos de quando foi preso -, o ex-prefeito disse está com o diabetes controlado.Em julho, em função da doença, ele precisou ser internado. Agora, já deixou de tomar insulina e vai ao médico uma vez por mês. Para controlar a doença, faz caminhadas diárias no pátio interno do Cadeião e é regrado na alimentação, numa dieta mais à base de verduras levadas pela família. Já há um ano e meio preso, Izzo disse que ainda não sabe se retornará ou não para a vida política quando estiver em liberdade.

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