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Opinião

Maria DÁvila Calobrizi
| Tempo de leitura: 4 min

Um novo ator, há tempos, figura nos bastidores, hoje ocupando destaque no contexto da família brasileira e, cada vez mais, assumindo papéis, quase sempre em nome do amor e em especial da necessidade.Não nos referimos a super-heróis, mas aos avós, idosos comuns, que se defrontam com a dificuldade de fazer render os reduzidos proventos da aposentadoria ou da pensão e mediante a omissão ou impossibilidade dos pais das crianças, assumem o fato, ou judicialmente, o papel de guardiães dos seus netos. Segundo Fisher (1983), historicamente os avós foram representados de duas maneiras distintas: como figura central da família, ou por outro lado, como pessoas velhas, deixadas de lado.Já está longe o tempo em que a imagem dos avós se referia a uma pessoa muito velha, cabelos grisalhos, encurvada, utilizando bengala, sentada numa cadeira de balanço, no caso dos homens e daquela senhora bondosa, cabelos presos num coque, vestido comprido, que vivia a contar histórias e fazer doces para os netos, no caso das mulheres.A imagem da amável e velha senhora, atribuída à avó, que vivia reclusa em sua casa, mudou, e hoje, é uma mulher ativa, que trabalha fora, ou cuida dos netos.Os avós mudaram, o Natal mudou, o mundo está muito mudado, porém o que permaneceu foi o amor e a proteção dos avós, referindo sempre: se criei meus filhos, posso criar meus netos; onde come um, comem dois, comem dez..., cuido dos meus netos, melhor do que cuidei dos meus filhos, etc.Atualmente, diante dos inúmeros problemas enfrentados pelas famílias, muitas vezes é o idoso o responsável pelos netos enquanto os pais saem para trabalhar ou quando a família da criança se dissolve. Em outros casos, a aposentadoria dos avós é a única renda familiar fixa para o sustento da casa, dos filhos e dos netos.O idoso acaba cumprindo uma segunda jornada na vida: criar netos e bisnetos, apesar das suas condições econômicas, que nem sempre são favoráveis, obrigando-o, quando pode, a procurar subempregos para complementar a renda familiar.Relata o economista Márcio Pochmann, da Unicamp, que a formalização das relações de trabalho é baixa: dos 3,916 milhões de idosos que trabalham, só 499 mil (12,7%) tem a carteira assinada (dados de 1997). Boa parte trabalha por conta própria, faz bico ou ajuda a família. Afirma ainda que não é contra o idoso trabalhar, mas acredita que a grande maioria dos aposentados que está trabalhando o fazem não porque gostam, mas acredita que a grande maioria dos aposentados que está trabalhando o fazem não porque gosta, mas porque precisa.Os avós que assumem a responsabilidade de criar seus netos, por um lado sentem-se incumbidos de uma grande e árdua tarefa, mola propulsora de atividade e de novos projetos de vida, de outro, as responsabilidades que lhes são atribuídas, a falta de colaboração do poder público e algumas vezes, até mesmo a omissão dos pais das crianças, porém, mesmo com todas essas adversidades, não esmorecem, acolhendo os seus netos e proporcionando-lhes, na medida do possível, condições adequadas para o seu desenvolvimento integral.No entanto, esses avós, incumbidos de tantas responsabilidades, continuam através do trabalho, participando da vida societária e desta forma evitando a denominada morte social, com dificuldades ou não, tentam resgatar a sua cidadania. Neste sentido, se descortina uma grande incoerência, decorrente de velhos mitos, que se solidificaram através dos tempos: da improdutividade dos idosos, de sua aposentadoria social, de sua saída de cena, triste, solitário e dependente.Privilegiar o novo, a força jovem, negando as possibilidades e a experiência do idoso pode ser perigoso, principalmente numa sociedade em que tantos jovens ficam na dependência para sobreviver ou criar sua prole.O depositar dos filhos na casa dos avós, cumulando-lhes a responsabilidade de pais, é algo cômodo e perdoado em nome do grande amor e afeto que une avós e netos. Deixam os filhos com a intenção de que estão fazendo um bem aos avós, pois a presença de crianças perto traz, com certeza, esperanças multiplicadas e com a responsabilidade a vida ganha ares radiosos. No entanto, diante de inúmeras dificuldades e malabarismos a que estão sujeitos os avós, não podemos romancear ainda mais essa história, fechando os olhos para a realidade.Os avós que assumem a guarda e responsabilidade dos netos formam um grupo expressivo, cabendo ao poder público local implantar Programas que possam contribuir com essa população tão esquecida, que luta, sofre e vive no silêncio, por amor aos seus netos.É louvável que por amor padeçam (novamente) no paraíso, mas que seja com maior dignidade, melhor qualidade de vida e principalmente com o reconhecimento da sociedade e das políticas sociais locais. (A autora, Maria DÁvila Calobrizi, é professora da Faculdade de Serviço Social de Bauru, assistente social do Fórum da Comarca de Pederneiras e mestranda em Gerontologia pela PUC-SP)

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