Geral

Artigo

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 2 min

Aparentemente, nada têm a ver, um com a outra, futebol e globalização.Nem tudo, porém, é como parece ser à primeira vista. Assim, os que estiveram presentes ao Morumbi, ou viram pela TV, a disputa entre as seleções do Brasil e da Colômbia, haverão de lembrar-se de que, a certa altura da partida, grande parte dos torcedores, descontentes com o placar, até ali de zero a zero, resolveu, como protesto, jogar fora as bandeiras brasileiras que portavam para acená-las durante o jogo. Até aí, poderá perguntar-se, e com razão, o leitor: o que tem a ver tal episódio com a globalização? E nós nos permitiremos propor à consideração pela sua inteligência, o seguinte: a globalização, tal como vem sendo praticada ou, melhor dizendo, impingida aos países do terceiro mundo, sob pretextos atraentes e, muitos, válidos, na verdade não passa de nova estratégia de dominação que, por isso mesmo, decide pela conveniência de debilitar as resistências das sociedades e soberanias nacionais a serem amaciadas, em proveito de uma ínfima minoria de capitalistas transnacionais, cujas bases estão no chamado primeiro mundo. De tal amaciamento fazem parte, entre outros, ingredientes que partem da institucionalização de um conceito equivocado de liberdade, que leva inexoravelmente à licenciosidade, como faz parte tudo que esvazie disposições patrióticas com o seu corolário, o nacionalismo.Trata-se de tarefa difícil, pois o patriotismo, segundo o conceituamos, é o resultado da compatibilização emocional que espontaneamente se estabelece entre o ser humano e o meio físico e cultural em que ele veio ao mundo, desenvolveu a sua personalidade e integrou-se no processo histórico.Daí, dessa dificuldade, a promoção, explícita ou velada, de tudo quanto desfibra, corrompe e cinifica os homens, prestigiada por aquele grupelho a que foi feita referência acima e que, a esta altura, já se arvora, quase que explicitamente, em um governo mundial que se nutre na injustiça e se ampara, sempre que necessário - como muitos exemplos o tem mostrado - no uso puro, simples e brutal da força. É claro que os torcedores do Morumbi não pensaram em nada disso, quando resolveram atirar fora as bandeiras nacionais que portavam. Acha o leitor, porém, que em passado, ainda bastante recente, tal forma de protesto teria sido possível? Como não ver, portanto, na insólita reação, um sintoma, preocupante, do avanço das técnicas visando a aluição dos nossos sentimentos patrióticos, presentes em catadupas de influências que, a nível de massa, promovem o que cinifica e bloqueia tudo quanto possa, direta ou indiretamente, denunciar o processo de dominação em curso, não somente nele, mas também em nosso País, tão solícitas e tão injustificavelmente submissas se mostram as nossas autoridades com relação ao projeto internacional que estamos mencionando?Assim, parece, de fato se pode estabelecer, ao menos no episódio esportivo de que estamos tratando, uma relação entre futebol e globalização. Infelizmente. (*) home-page: www.jorgeboaventura.jor.bre-mail: boaventura@jorgeboaventura.jor.br

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