Os resultados das contas externas começam a preocupar as autoridades econômicas. Ao longo do ano, a diferença entre as exportações e as importações (o que se chama de saldo comercial) foi positiva. Até maio, o País havia exportado US$ 566 milhões a mais do que o valor das mercadorias importadas, ou seja, houve acumulação de reservas cambiais.Infelizmente, depois de maio as contas começaram a mostrar séria deterioração. Os saldos comerciais caíram significativamente. Os números de setembro indicam que as compras superaram as vendas externas em US$ 320 milhões, trazendo o superávit anual acumulado para menos de US$ 500 milhões. Hoje há previsões que indicam que o superávit comercial de 2000 não irá além de US$ 500 milhões, evidenciando um sério revés na realização das metas econômicas do governo, que chegaram a prever superávit de US$ 4 bilhões.Historicamente, contas externas desequilibradas podem implicar sérias dificuldades para uma economia. Ao inviabilizar a importação e o financiamento de importações de insumos estratégicos e de bens de capital, a escassez de divisas impõe um insuperável estrangulamento a uma economia como a brasileira, que se abriu para o exterior de maneira atabalhoada e sem uma política industrial adequada.Vale lembrar que a política brasileira de estabilização optou pelo congelamento do câmbio e a abertura acelerada da economia brasileira ao exterior. Se, por um lado, a inflação caiu rapidamente, esta política impôs a necessidade de uma política monetária restritiva, o que acarretou forte recessão interna. Neste contexto, as contas externas mantiveram-se sob controle, ainda que com elevadíssimo custo social.Agora que se pretende impor um ritmo de crescimento mais acelerado à produção nacional, o estrangulamento externo será fator limitante. A flutuação do câmbio mostra-se insuficiente para dinamizar as exportações brasileiras. Mal o País começa a querer crescer, surgem os sinais de alerta, mostrando que o governo precisa puxar os freios, pois a situação externa não permitirá a retomada do crescimento.Paga-se agora o custo da política econômica adotada entre 1995 e 1999. Foi-se com excessiva sede ao pote, e o pote trincou.(*) Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA) e professor-titular e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas. É presidente estadual do PL/SP e deputado federal por São Paulo. Internet: www.marcoscintra.orgE-mail: mcintra@marcoscintra.org
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