Segundo pesquisas, cerca de 25% da população mundial sente-se solitária em algum período de suas vidas e, embora o sentimento seja comum, cada pessoa o experimenta de forma diversa e sob condições diferentes. Qualquer que seja a origem da sua existência, o problema pode ser resolvido a partir do momento em que a pessoa solitária aceita a si mesma.Me senti solitária depois que o meu marido morreu. Vivemos 30 anos juntos e foi difícil me acostumar porque passei a viver sozinha, meus filhos já tinham se casado e moravam longe de mim, conta a dona de casa Maria Antonia Sales, de 59 anos. A solidão, para o estudante universitário Cássio Oliveira Andrade, 26 anos, porém, não teve origem em nenhum tipo de perda. Me sinto sozinho, às vezes, mesmo quando estou com várias pessoas, diz. Morando sozinho desde que se mudou para Bauru, para estudar, Andrade não acredita que se sentir sozinho seja ruim sempre. Em alguns dias é pior, tenho vontade de ter alguém por perto para simplesmente estar ali. Em outros, não sinto falta de ninguém. Então, dá para viver, resume.Segundo os psicólogos José Luís Cremonesi, Júlia Verônica Hernandez e Eglê Allegro, que na última terça-feira falaram sobre solidão dentro do projeto Mulher e Sociedade, no Sesc-Bauru, a solidão, para os filósofos existencialistas, faz parte da condição humana tanto quanto a liberdade, a responsabilidade e a própria morte. Para os psicólogos, que formam o grupo Altos Papos, por discutirem em reuniões públicas temas que atingem grande parte das pessoas, pode-se descrever dois tipos de solidão. A solidão situacional, que ocorre após um acontecimento que implica na perda de pessoas importantes, tais como o divórcio, mudança de cidade, morte na família, etc.. Esse tipo de solidão pode se manifestar subjetivamente e com diversos sintomas psicossomáticos, como ansiedade e depressão. Após um período variável, mas que geralmente dura em torno de um ano, seus efeitos tendem a diminuir, a dor maior passa e a pessoa organiza sua vida de outra forma.Existe também a solidão crônica, que acomete algumas pessoas por períodos longos, por mais de dois anos, passando a configurar um modo de vida - como o do estudante Cássio Andrade - neste caso, sem que nenhum acontecimento traumático tenha acontecido.Freqüentemente, os solitários têm certa consciência de sua contribuição para sua situação, dadas certas características pessoais. Existem pessoas que são tímidas, por exemplo e, de repente, por isso são mais solitárias, mas ao mesmo tempo elas não se esforçam para vencer a timidez.Estes solitários (as) crônicos podem se sentir aprisionados neste modo de vida, querendo sair e ao mesmo tempo convencidos que não podem fazer nada para melhorar sua condição. Cássio Andrade confirma: às vezes acho que buscar uma companhia é muito trabalhoso e pode me trazer muita dor de cabeça, por isso não me esforço.Qualidade precáriaDiferenciar solidão situacional e solidão crônica nem sempre é simples, de certa forma são graduações de intensidade e extensão e o que era um problema específico torna-se padrão de vida. Na verdade, a solidão, seja de que tipo for, tem uma característica comum, que é a falta de qualidade nos contatos que a pessoa solitária faz com outras pessoas. As pessoas que sentem solidão não necessariamente mantém menos contatos, mas a qualidade é que parece ser precária. Não conseguem identificar as oportunidades e por isso não aproveitam plenamente, afirmam os psicólogos. É o caso de pessoas que possuem vários amigos, mas mesmo assim se sentem solitárias.Enfrentando o espelhoDe acordo com os psicólogos, a solidão, este modo de estar só, se assemelha a um espelho que promove o encontro com alguém que a pessoa não pode evitar: ela mesma. Este é o aspecto que torna a solidão tão assustadora para quem não assume o desafio de olhar para si e aprender a se aceitar. Tanto a fuga como a procura compulsória da solidão são fonte de sofrimento e expressão de falta de liberdade interior, dizem.Desta maneira, o remédio básico para a solidão é primeiro enfrentar-se, entender-se e aprender a gostar da própria companhia, para depois procurar se relacionar bem com outras pessoas. Encontrar o outro não é garantia de escapar da solidão. Porque é possível pensar que estamos vivendo um relacionamento quando não estamos, já que se não estamos inteiros, não nos damos inteiros. É necessário uma razoável relação consigo mesmo para criar a intimidade que acolhe nossa condição de seres vulneráveis e assim nos vincularmos ao outro, diz José Luís Cremonesi.A solidão e o mundo modernoHoje em dia é possível fazer muitas coisas sem ser obrigado a falar com outra pessoa. É possível fazer muitos serviços na base do self-service, por exemplo. A Internet, que tem como um dos seus atrativos o fato de poder unir pessoas que estão em lados opostos do mundo, também acaba tendo um papel desagregador, já que muitas pessoas trocam os relacionamentos reais pelos virtuais.Ou seja, a solidão passa a ser cada vez mais freqüente no meio da multidão anônima nos espaços públicos, nos edifícios residênciais e nos espaços privados onde a violência das ruas fez com que muita gente se resguarde dos estranhos ao mesmo tempo em que permanecem estranhos. Para vencer a solidãoPara os psicólogos, algumas recomendações podem ser úteis para exercitar a capacidade de ficar só e, conseqüentemente, se vincular satisfatoriamente com outros:Desenvolver a coragem de viver, significando não temer seus sofrimentos, dificuldades e perdas.Exercitar a capacidade de perceber a si mesmo. Aprender a conhecer honestamente o mundo de idéias, sentimentos, valores, preconceitos e crenças.Aprender aceitar os próprios erros e aprender com eles, isto pode facilitar a tolerância com os outros.Exercitar o equilíbrio entre interesses pessoais e o interesse de outros.Exercitar a percepção do outro e das suas necessidades.Reformular, mudar os próprios valores e conceitos a fim de caminhar com mais consciência, integridade e maior aprovação de si mesmo. Histórias de solidãoTrês pessoas que se consideram solitárias revelam como levam a vida e lidam com a situação de muitas vezes não ter com quem conversar.Sempre fui uma pessoa solitária, uma criança, um jovem solitário. Tenho dois irmãos, que foram meus grandes companheiros de infância junto com um primo, mas não consigo lembrar de outras pessoas que fossem importantes. Hoje moro sozinho e longe da minha família. Tenho uma namorada que está sempre comigo, mas lá no fundo ainda me sinto sozinho no mundo... Sinceramente, não acho que isso vá mudar.João S. Araújo, estudante, 26 anosSou uma pessoa solitária porque meus filhos cresceram, se casaram e se mudaram. Depois que o meu marido faleceu, vivo sozinha e tento espantar a solidão criando meus animais de estimação e conversando com as vizinhas. Também vou muito à Igreja. Lá, faço parte de um grupo e isso é muito bom para eu não me sentir sozinha.Luzia P. R., aposentada, 68 anosÉ uma das piores sensações que existem se sentir sozinha. Parece que não consigo fazer as coisas direito e perco o ânimo de sair, me divertir quando estou sozinha... Os amigos, para mim, são a melhor maneira de não me sentir só. Preciso deles.Francine S., secretária, 29 anos
escolha sua cidade
Bauru
escolha outra cidade