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Profissional deve ter espírito

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Não se prender a uma única função, não se contentar em fazer apenas a sua obrigação para manter o seu emprego, não acreditar que sua carreira atingiu um limite. Essas três afirmações, entre outras, podem ser resumidas em uma única definição: ter espírito empreendedor. É cada vez maior a exigência das empresas por profissionais que tenham essa qualidade, assim como também é crescente o número de pessoas com essa característica que deixam os seus empregos para se aventurar numa carreira-solo.Ninguém tem dúvida de que qualificação é importante para se conseguir uma boa posição profissional. Mas, uma vez empregado, para manter um a posição é preciso mais do que constantes reciclagens técnicas. É preciso atuar e mostrar sua capacidade, ter espírito empreendedor. A psicóloga organizacional Marta Nelli Bahia explica: hoje em dia, as pessoas não podem pensar que devem exercer apenas um papel. Elas têm de ter mais utilidades, para que possam exercer várias funções e colocar toda a sua potencialidade em ação, diz. A palavra potencialidade tem um significado fundamental. O sucesso de um profissional dentro de uma empresa está cada vez mais ligado à sua capacidade de se desdobrar e ir além de suas funções, usando suas habilidades e, principalmente, sua criatividade, ou seja, todo o seu potencial. O espírito empreendedor é fundamental para se seguir carreira dentro de uma organização, afirma o economista Reinaldo Cafeo. Na sua opinião, acabou a fase em que o indivíduo entrava em uma empresa, trabalhava isolado, sem noção de conjunto e não dava nem um pouco a mais de si na sua função. É o que ele chama de corrida de ratos (numa analogia aos hamsters que ficam dentro da gaiola e se exercitam correndo num círculo que não sai do lugar). Muitos profissionais estão correndo sem sair do lugar nas suas funções, fazem somente o necessário e não crescem dentro da organização. É preciso ter espírito empreendedor para romper com a corrida e dar uma reviravolta na sua vida, diz Cafeo. E o que é preciso para dar essa reviravolta? Versatilidade, visão de futuro, dar mais de si mesmo, se aperfeiçoar, se aprimorar. O espírito empreendedor significa romper com certos paradigmas como estabilidade, mero cumprimento da obrigação, mero cumprimento de horário...., explica o economista. A preocupação em colocar em prática esse espírito não deve acontecer apenas quando o profissional ingressa no mercado de trabalho, mas antes, quando ainda está na faculdade, porque, segundo Marta Nelli Bahia, o indivíduo não pode se formar acreditando que vai exercer apenas aquela atividade na sua vida profissional. A formação acadêmica dá uma visão generalista da profissão, cabe ao indivíduo conhecer todas as áreas, os campos de atuação para saber quais são os que mais se adequam à sua pessoa, porque cada pessoa tem as suas características e é preciso que ela saiba com aplicá-las ora numa função, ora em outra, afirma a psicóloga. De acordo com Reinaldo Cafeo, na Instituição Toledo de Ensino (ITE) já existe uma preocupação por parte dos professores em mostrar essa necessidade do profissional ser empreendedor, estamos preparando os alunos dos últimos anos para enfrentar essa nova realidade, diz. Carreira-soloAo invés de aplicarem seu talento nas organizações onde trabalham, muitos profissionais colocam o seu espírito empreendedor em prática para se aventurar no mercado numa carreira-solo, como patrão. É uma aventura que pode render bons resultados se for bem organizada. Não basta a pessoa achar que tem aptidão para uma atividade, largar tudo e ir atrás. Já vi muitas pessoas com espírito empreendedor se darem mal, alerta Cafeo. Para a psicóloga Marta Bahia, a pessoa primeiro precisa ter senso de administração para saber como lidar com a sua nova atuação, principalmente se for uma profissão autônoma. Para isso, é preciso traçar metas do que se quer atingir e se organizar para alcançar esse objetivo. A regra básica é planejar, orçar, analisar a viabilidade e saber como é mercado, o que inclui, verificar se ele está saturado, qual seu público alvo e se a atuação vai ser regional, estadual, etc., ensina Reinaldo Cafeo.O profissional que abandona o emprego sem pesquisar o mercado ou ter um objetivo definido corre o risco de perder tempo e dinheiro sem alcançar sucesso algum. Ele pode acabar canalizando seu trabalho em uma atividade errada e, com isso, perdendo tempo, diz Marta Bahia. A psicóloga cita a Internet com exemplo da moda, pode várias pessoas tentaram investir sem sucesso, muitos deixaram seus empregos para investir na Internet sonhando em ser os próximos Bill Gates, mas nem todos conheciam o mercado que estavam entrando e, por isso, quebraram, lembra.Na opinião de Reinaldo Cafeo isso acontece porque, além do desconhecimento do mercado, muitas não percebem que além de executar sua atividade habitual, como patrão, é preciso ter mais aptidões e saber lidar com economia, clientes, mercadorias, recursos humanos...Mesmo assim, arriscar uma carreira-solo pode ser positivo, segundo o economista. Com a escassez de emprego que estamos atravessando, muito provavelmente dentro de alguns anos teremos um rompimento com o modelo de contratação que estamos acostumados hoje, diz Cafeo. Para ele, o modelo americano, estruturado em cima de vários profissionais que desenvolvem carreiras-solo e prestam serviço para as empresas é o que deve dominar na maioria das economias no futuro. Nesse sistema, o profissional decide quanto vai ganhar, se vai ter férias ou não ou se terá um abono no final de ano. Tudo baseado no trabalho dele, que ele mesmo gerencia, explica o economista.Espírito bem aplicadoUsar o seu espírito empreendedor para começar uma nova vida profissional requer coragem e noção de mercado. Foi o que não faltou para o comerciante Hélio Mathias, que durante 12 anos trabalhou para uma multinacional em São Paulo, chegando a ocupar a gerência de uma dos escritórios. Larguei o emprego porque não tinha uma vida em casa, pois vivia viajando e também estava cansado de ser empregado, diz. Na realidade, a falta de estímulo da empresa também pesou na decisão, não tinha mais para onde ir na minha atividade, iria ficar parado naquele cargo por muitos anos ou até me aposentar, desabafa. Seis meses antes de abandonar o emprego, Mathias, começou a pesquisar o Interior do Estado e optou por Bauru, onde possui uma loja de presentes, um antigo sonho da esposa, ex-dona de casa, que apoiou o marido desde o início. Foi a melhor coisa que eu fiz, diz Mathias, Não me arrependo nem um pouco.A idade assustou a passadeira Maria de Lourdes Fagundes Rodrigues e estimulou o seu espírito empreendedor. Depois de 10 anos passando roupas em diversas lavanderias, entre outros empregos, ela decidiu, junto com o marido, que abandonou a atividade de segurança, montar a própria lavanderia. A gente vai ficando velha e vai percebendo que logo os empregos vão ficar difíceis. Depois dos 40, ninguém mais consegue emprego. Então não quis arriscar, conta. Há um ano, ela e o marido trabalham juntos e não têm mais patrões. No começo foi difícil, porque precisamos formar uma clientela mas agora está melhorando. O lucro ainda não veio mas estamos trabalhando, diz satisfeita.

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