O professor Otávio Gouveia de Bulhões costumava ensinar a seus alunos dos cursos de economia que a inflação aleija, mas o Balanço de Pagamentos mata... Aos leitores mais jovens, esclareço que o professor Bulhões foi ministro da Fazenda do governo Castelo Branco, de 1964 a 1967. A ele competiu - juntamente com o professor Roberto Campos - a tarefa de reorganizar as finanças e a administração pública. Em menos de três anos esses notáveis economistas realizaram um inteligente programa de estabilização da moeda, reduzindo a inflação à metade, afastaram o risco de crise cambial regularizando os pagamentos externos em atraso e o crédito brasileiro e conseguiram aprovar duas importantes reformas, a fiscal e a administrativa. Com isso prepararam a economia brasileira para uma fase de expansão que manteve a média anual de crescimento do PIB superior a 7%, nos 15 anos que se seguiram.O ponto a que desejo chegar é que esse crescimento se sustentou basicamente num vigoroso esforço de exportações, realizado pelo setor privado mas onde o Estado teve um papel fundamental. Além do suporte ao setor exportador, a política econômica garantiu à indústria nacional as condições isonômicas para enfrentar a competição externa e proporcionou à agricultura os meios para o crescimento da produção, mediante a concessão de crédito adequado e de benefícios fiscais para os investimentos no setor.As exportações tanto quanto o foram na época - são o fator decisivo para a expansão da economia brasileira e para reduzir a vulnerabilidade externa. Hoje, mais ainda, porque estamos financiando um enorme déficit em contas correntes através de investimentos diretos. Não há nenhuma garantia de que esses investimentos continuem no futuro. Nós nem sabemos realmente o que determina o investimento direto estrangeiro. O que sabemos é que o grosso dos investimentos estrangeiros dos últimos cinco anos foi para comprar o mercado interno. Toda a venda do patrimônio nacional - cerca de 70 ou 80 bilhões de dólares - foi praticamente para comprar mercado interno: telecomunicações, geração de energia, rodovias e ferrovias, que são atividades que não geram dólares. Mais do que nunca, é preciso estimular as atividades que geram dólares para que possamos honrar os compromissos que estamos assumindo. Temos um passivo externo líquido de mais de 350 bilhões de dólares e, só para honrar esse passivo, vamos precisar de um excedente de 20 bilhões de dólares por ano! Isso, se o mercado for bonzinho e aceitar juros de 6% ao ano...É certo que as condições melhoraram com a eliminação daqueles financiamentos com capital de curto prazo, meramente especulativos. Mas a questão central continua sendo a realização de superávits comerciais. O presidente da República deu um sinal recente de que está consciente do problema, em seu discurso aos militares na Escola Naval, no Rio de Janeiro, quando afirmou: o meu governo sabe que as exportações são decisivas e por isso este será o objetivo principal dos próximos dois anos de mandato...O governo incumbiu o Ministério do Desenvolvimento de realizar a tarefa, mas ainda não lhe deu os instrumentos. Ora, não se pode dar a missão sem fornecer os meios. É por essa razão que defendo a organização da Camex como um verdadeiro conselho ministerial em que tenham assento os titulares da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e que todos sejam obrigados a cumprir as decisões, sem titubeios, cada um na sua esfera de poder. O que o Conselho decidir será transcrito em ata, tornada pública para que toda a Nação saiba se todos os ministros estão se comportando de acordo com a prioridade número um anunciada pelo governo, ou se vão continuar, apenas, cultivando as suas vaidades que terminarão em mais uma crise no balanço de pagamentos.
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