No domingo, dia 3, com a antecedência de sempre, o Coral Arte Viva chegou para sua apresentação. Cantou e, como sempre, deixou o público encantado. Mas naquele dia não havia harmonia em seu canto, tudo estava dissonante porque uma voz se calara.Naquele dia ninguém cantou, cada um, contrito, transformou a música num grito de tristeza, transformou as palavras num clamor fervoroso para que o bom Deus abrisse as portas a um ente muito querido. Cada um, no mais íntimo de si, pedia que todos os anjos, querubins e serafins, se postassem com suas cornetas à espera do melhor e mais fiel tenor que já conhecemos.O Omar Marra havia partido naquela manhã e os olhos tristes não viam a beleza do entardecer, os corações apertados não se enterneciam com as primeiras luzes iluminando o anoitecer e os ouvidos atentos esperavam que do alto viesse não só o cântico dos pássaros, alegres pelo fim do dia, mas a voz vibrante e segura do Omar, alegre pelo fim da jornada, triste por nos deixar mas, afinal, livre das amarras que o prendiam à Terra.Naquele fim de tarde todos pensavam nos 25 anos que ele dedicou ao Arte Viva, no seu amor incondicional às coisas do Coral: seu cuidado com os uniformes e partituras, seu zelo ranheta com o patrimônio do grupo... Ninguém deixou de sorrir ao lembrar como ele administrava, como se seu fosse, o dinheiro ganho e gasto.Ah! Omar, como seu jeito seco não enganava ninguém! Como poderia ser seco um homem que se enternecia ficando com olhos pranteados ao cantar músicas como a sua querida Em Algum Lugar do Passado? Alguém que estendesse discretamente um cheque ao companheiro em dificuldade? Alguém que amasse a família como ele amou?O Omar das múltiplas faces: atleta, treinador, tio amoroso, amigo dos animais e das plantas, partiu após meses que seriam de sofrimento se ele não os tivesse transformado em tempo de disciplina e aprendizado ensaiando diariamente um Te Deu, que ele sabia, pela gravidade de seu quadro, não iria cantar nunca...Fez dessa devoção o seu louvor.O melhor coralista do Arte Viva não está mais na Terra mas sua voz não se calou. Teremos em nossa memória a lembrança do timbre agradável, da tonalidade precisa, da colocação perfeita e isso tempo algum conseguirá apagar.Querido amigo, companheiro fiel, você estará sempre entre nós. (Coral Arte Viva).
escolha sua cidade
Bauru
escolha outra cidade