Voltando no tempo - lá pelos meados dos anos 40, se bem me recordo - eu estudava em período noturno, numa escola de Araçatuba (cidade então nova e que nascera projetada. Esta, cuja praça central era totalmente ajardinada, possuía bancos de cimento e postinhos, dotados de globos de iluminação pública. Desenhada a partir de uma ampla rotatória, a praça representava a rosa dos ventos, mantendo na seqüência exterior, a continuidade das ruas que partindo do eixo principal, seguiam até outras praças menores, mantendo a geometria do desenho. Na escola, propriedade de um cidadão descendente de sírio que teimava em apelidá-la de faculdade de comércio, cursávamos o então segundo grau ou curso colegial ou ainda, atingir um curso técnico, geralmente de contabilidade, mais direcionado aos alunos do noturno. O currículo, entretanto, não seria dos piores, recebíamos muitas aulas de português, matemática, geografia e história do Brasil, além de aulas de inglês e francês, com um pesado programa de história universal, que embora eu gostasse, me arrepiava. Esta, a mais elaborada, a cargo de um competente professor (cujo nome não recordo), e que - dada a falta de mapas geográficos próprios antigos se desdobrava no quadro negro desenhando (à mão e com giz, em cores), os países da antigüidade, cobrando total atenção dos alunos. Talvez fosse naquela disciplina que pela primeira vez, houvéssemos tomado conhecimento - eu, pelo menos- da oração histórico/afirmativa, que se coaduna com o assunto que aqui desenvolvo: impossível agradar a gregos e troianos. Não obstante, embora alguns alunos não suportassem suas aulas, o esforçado professor era festejado pela maioria, Assim, num dia de bom humor -estrategicamente- relembrou na classe, o Cavalo de Tróia. Alusão ao imenso cavalo de madeira que, visando a tomar (sic) Tróia, os gregos ardilosamente construíram, a conselho de Ulisses, enchendo-lhe o bojo de soldados armados e mandando-o de presente aos troianos; (AURÉLIO). Resultado?! O professor ganhou a classe. Na disciplina História Universal de então, entretanto, cabia muito mais do que o conhecimento das posições e situações geográficas dos países mas as atividades dos povos, conhecimentos, vida política e sabedoria. Talvez fosse dali que me faz lembrar e me transporta aos gregos e aos troianos, povos da antigüidade que habitaram, no noroeste da Ásia Menor, poucas milhas continente adentro, a partir do mar Egeu. Da filosofia que norteava a sabedoria dos povos de então, no uso da razão e da argumentação, dos princípios de suas existências, seus costumes, sua mazelas, seus hábitos, comportamento, justiça e o fator mais importante de suas vidas: o amor que manifestavam na defesa à sabedoria. Segundo a Nova Enciclopédia Ilustrada da Folha: Filosofia (do grego amor à sabedoria). Uso da razão e da argumentação como instrumento para alcançar a verdade, é entendida como apreensão e expressão do significado e da essência da realidade, ou dos princípios que determinam a existência, o universo material e a vida humana. A impossibilidade de se agradar a gregos e troianos é compatível com o pensamento moderno quando nos referimos -por exemplo- à globalização mundial. À qual, já há algum tempo, vimos manifestamente cordatos em pertencer ao mundo globalizado, lembrando o jargão popular de um referencial como: a aldeia global. O fato, porém, que nem sei porque, mas (como citei linhas atrás), se coaduna igualmente, com as aguerridas e diárias discussões em torno do rumo que a fala-da globalização tomou. Muito embora não se possa - ao mesmo tempo - agradar os que a defendem por princípio, contra os que a abominam, pois que pensam tratar-se do fantasma moderno, que no geral perverte a cultura do consumo.Na realidade (o que percebemos no mundo moderno no limiar do terceiro milênio) e com mais freqüência, é o que já vínhamos vivenciando de há muito. O que foi se avolumando, mercê da moderna tecnologia da comunicação grassante no mundo e que mais se evidenciou, a partir dos anos 1970 (por toda a já propalada aldeia global), em que se tornou o mundo, quem sabe se pela influência da chegada e presença do homem na Lua, no século XX. Fico por aqui. (*) José Almodova é professor-Mestre em Projeto, Arte e Sociedade. Foi professor da ITE e da Unesp-Bauru. É jornalista e colunista colaborador do JC. Escreve às quintas-feiras nesta coluna. E-mail: almodova@ig.com.br
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