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A inveja é uma...

Kleber Boelter
| Tempo de leitura: 3 min

Até agora não tinha metido minha colher no episódio das eleições americanas.Primeiro, porque mesmo sendo um problema de grande magnitude e que provocou apreensão no povo americano e na maior parte do mundo civilizado, ele foi conduzido dentro da normalidade institucional. Aliás, o que o Brasil também fez de forma exemplar nos episódios da morte de Tancredo Neves e do impeachment de Fernando Collor. Segundo, porque a tônica dos articulistas combatentes do imperialismo norte-americano, apesar de simpáticos ao ex-imperialismo soviético, era o típico vitupério do invejoso: viu, viu, eles não são essa maravilha toda de que tanto falam.Passada a comoção exagerada que o episódio causou, convém tirar duas lições do embróglio do Tio Sam. A mais importante é que uma democracia consolidada possui mecanismos institucionais para resolver seus problemas, mesmo os mais graves. Há quem ache muito bonita e justa, por exemplo, a causa das Forças Revolucionárias Colombianas, a assassina FARC, e prefira a luta armada e o massacre de civis como forma de solução para impasses institucionais. Mas essa gente, ao invés de possuir espaço cativo na mídia brasileira e ser levada a sério, deveria é ser presa.A outra lição é que, mesmo sendo um dos pilares da economia mais poderosa do Planeta, a independência dos Estados no sistema federativo americano é ineficiente quando é necessária uma decisão unificada. Os defensores de um Estado centralizador e autoritário devem mesmo ficar escandalizados com o fato de que cada unidade federativa americana tenha sua própria cédula eleitoral e seu método de apuração. E talvez achem que exemplo de democracia é fazer tanto o eleitor da Avenida Paulista quanto o caboclo do Tocantins apertarem as teclas de uma mesma urna eletrônica.Aliás, é essa autonomia dos Estados americanos que explica seu sistema eleitoral. Ao invés da contagem total dos votos populares, a eleição americana funciona como se cada Estado independente indicasse seu candidato à presidência, sendo eleito aquele que for indicado por mais Estados, considerados seus pesos relativos. Por isso, quem condena o fato de Bush ter vencido mesmo tendo feito menos votos populares, ou é um ignorante da lógica americana ou age de má fé. Isso não significa que o sistema americano seja o melhor, nem diminui o fato de que o açodamento da imprensa americana e a decisão final no tapetão tenham virado um fiasco mundial. Mas esse sistema tem produzido, ao longo da história, a mais rica e estável democracia do Planeta, onde as fronteiras são vigiadas não para impedir que os americanos fujam de seu país, mas para que ele não seja invadido por aqueles que procuram liberdade e oportunidade de uma vida melhor. Faz parte da natureza humana, naquele seu pedaço mais calhorda, aproveitar os deslizes de quem está melhor para meter o pau. É aquela história: se você não consegue subir, arraste os outros para baixo. Por isso, seria bom para a democracia brasileira que os críticos mais exacerbados lessem com atenção o discurso de Al Gore após sua derrota. É um belo exemplo de como deve agir uma oposição que está interessada no bem do seu país e não em colocar fogo no circo. (Kleber Boelter é empresário e escritor)

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