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Análise da homossexualidade em Bauru gera debate nacional

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 3 min

A palestra A perspectiva cristã da homossexualidade, realizada no último dia 10, em Bauru, pela Comunidade Bom Pastor, extrapolou os muros regionais e ganhou as páginas e home pages de revistas e boletins de ONGs de defesa dos direitos dos homossexuais em todo o Brasil. A repercussão nacional deve-se à defesa, pela psicóloga Rozangela Alves Justino, membro do Exodus Brasil - entidade ao qual está filiada a comunidade, da tese de que os homossexuais são pessoas imaturas em relação à sexualidade.

As declarações de Rozangela, veiculadas on line pelo site do JC, repercurtiram negativamente na comunidade GLS, resultando na criação de listas públicas na Internet para a discussão do assunto e em denúncias enviadas ao Conselho Federal de Psicologia (CRP) contra a psicóloga. A resolução 1/99 do órgão estabelece que deve ser processado eticamente o psicólogo que classificar a homossexualidade como doença ou violar a dignidade dessas pessoas.

O antropólogo Luiz Mott, secretário de direitos humanos da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Travestis (ABGLT) e fundador da Associação Cristã Gay do Brasil, foi uma das pessoas que encaminhou denúncia contra a psicóloga, depois de ler matéria completa sobre a palestra no site do JC.

Mandei cópia da matéria para vários grupos de defesa dos direitos dos homossexuais porque avaliei que a declaração da psicóloga é um caso grave de discriminação contra a minoria homossexual e ela precisa ser punida. Estamos no mobilizando sobre o assunto via Internet e muitas pessoas estão encaminhando denúncias ao Conselho Federal de Psicologia, informa Mott.

Além da ABGLT, o Grupo Homossexual Esperantista de Campinas e o escritor João Silvério Trevisan enviaram denúncias ao CFP. Se forem acatadas, Rozangela deverá apresentar defesa, inicialmente, em instância regional e, se o caso for levado adiante, em nível federal. As punições variam de advertência até perda do registro profissional.

Na opinião de Luiz Mott, o caso merece punição porque quem fala em nome de uma ciência deve seguir o pensamento oficial defendido por aquele meio. Outro ponto levantado pelo antropólogo é que as declarações homofóbicas são manifestações autoritárias que angustiam e diminuem aqueles que têm orientação homossexual.

De todas as minorias, os homossexuais são as principais vítimas da intolerância, que começa em casa, com insultos e agressões, chegando a expulsões. O Brasil é campeão mundial em assassinatos contra homossexuais e as declarações homofóbicas dão respaldo pseudocientífico a ações concretas de violência contra essa minoria, legitimando o preconceito. Por isso, a punição a declarações como as feitas pela psicóloga do Exodus é tão necessária, argumenta o secretário de direitos humanos da ABGLT.

Suicídio

A repercussão negativa de manifestações homofóbicas não é mera retórica de defensores de direitos humanos, mas realidade. Em Bauru, as declarações da psicóloga Rozangela Alves Justino por pouco não resultaram em morte.

No dia em que a segunda matéria sobre a palestra da Exodus foi publicada, no último domingo - a primeira foi veiculada no dia 10 de janeiro, o psicólogo Ricardo Mokdici recebeu a ligação de um ex-paciente, soropositivo, angustiado. Ele disse que havia pensado em se matar. A angústia era porque ele se sentia recriminado por Deus por ser homossexual, que o tinha punido com a aids, relata.

Na avaliação desse soropositivo, as declarações da psicóloga do Exodus eram um indicativo de que sua orientação sexual era mesma contrária aos desígnios de Deus. Com muita conversa, Mokdici conseguiu demovê-lo de idéias mais negativas. Ele ainda está em crise, mas o debate ajudou-o a tomar algumas atitudes. Ele saiu da casa dos pais e do grupo religioso que freqüentava, o qual recriminava sua condição, e hoje está mais feliz, afirma.

Na opinião de Mokdici, os psicólogos têm o dever profissional de ajudar as pessoas a serem felizes com as suas diferenças. Precisamos dar apoio para que a pessoa, por si só, se aceite e escolha o seu caminho. Quem somos nós para ditar normas? Quando vamos crescer para dar valor à vida, sendo felizes, amando uns aos outros e respeitando as diferenças, questiona.

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