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Mania do gordo

Nelo Rodolfo
| Tempo de leitura: 3 min

De tempos em tempos, elegemos o maior problema do País, cuja superação teria o poder imediato de nos conduzir ao melhor dos mundos. Décadas atrás, Macunaíma, célebre personagem de Mário de Andrade, dizia que os males do Brasil eram três: muita preguiça, muita saúva e pouca saúde. Tempos depois, em algumas crônicas memoráveis, o poeta Paulo Mendes Campos observava que a personalidade do brasileiro é marcada pela capacidade de adiar decisões e de confiar no famigerado jeitinho, sendo a segunda característica conseqüência direta e inevitável da primeira.

Durante anos, muita gente acreditou ou fez de conta que acreditava que a salvação nacional passava pelas Diretas-Já. Depois de mais de duas décadas, sem poder escolher diretamente o presidente, Fernando Collor foi conduzido pelo voto popular ao Palácio Alvorada. Deu no que deu. Antes disso, porém, só se falava na importância de uma nova Constituição. Promulgada em 1988, a Constituição-Cidadã fonte redentora de todos os nossos males em pouco tempo virou um estorvo. E justamente aqueles que mais enalteciam suas supostas qualidades se encarregaram de apresentar emendas e mais emendas para alterá-la completamente. Depois, a abertura econômica virou a bola da vez. Sem ela, continuaríamos andando de carroças e condenados ao atraso eterno.

Desde a posse de Fernando Henrique não se fala em outra coisa a não ser em reformas estruturais: reforma previdenciária, reforma fiscal, reforma administrativa etc. Sem elas, alega-se com freqüência, não há muito o que fazer, além de dançar um tango argentino. Agora, após a eleição da Mesa da Câmara e do Senado, a ser realizada em 14 de fevereiro, o Congresso voltará a discutir a reforma política considerada por muitos como a mais importante reforma a ser feita.

Não se trata de pôr em dúvida sua importância, assim como não se questiona o acerto da eleição direta para presidente e a revisão de alguns itens da Constituição de 88. O problema é que não há soluções mágicas. A reforma política, por si só, infelizmente, não terá o poder de eliminar de uma só vez todos os nossos males. Ela não é vara de condão. Além disso, é preciso ter a clareza de que a reforma política ideal (e cada agrupamento tem a sua) não será aprovada. Se alguns pontos forem incorporados à atual legislação como a fidelidade partidária, o fim das coligações nas eleições proporcionais e um critério mais rigoroso para que os partidos se utilizem do horário gratuito -, poderemos nos dar por satisfeitos. Um passo importante terá sido dado.

A meu ver, temos que perder essa mania de achar que a aprovação dessa ou daquela medida terá um efeito redentor. Se não, continuaremos a agir como os obesos, que vivem sempre em busca de soluções mágicas, consomem todo a sorte de chás e cápsulas que se lhes indicam, seguem as dietas da moda, mas se esquecem de que é preciso fechar a boca e se exercitar todos os dias. Daí para a frustração, é um passo. Cabe a nós, políticos, recusar o papel de vendedores de ilusão. (O autor, Nelo Rodolfo, é jornalista e deputado federal pelo PMDB-SP - e-mail: nelorodolfo@uol.com.br)

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