Geral

Davos, Porto Alegre e a esquerda

(*) Pedro Gustavo F. F. Arruda
| Tempo de leitura: 3 min

As últimas duas décadas foram um período de crise para a esquerda mundial. A mudança de paradigma em direção ao conservadorismo significou não somente o esgotamento das estratégias alternativas ao ideário do capitalismo de mercado, mas também a debilidade da esquerda em refundar um programa, que pudesse contar com o apoio popular, para a conquista do poder político. A retórica neoliberal, apesar do fracasso das políticas nela inspiradas, envolveu a população na crença de um mundo melhor, na tentativa de desqualificar propostas mais eficientes de combate à crise.

O crescente poder do movimento operário nas três décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial reforçou o poder político e social da esquerda na sua luta contra o conservadorismo de direita e suas políticas ultrapassadas. As lutas do movimento socialista e social-democrata foram importantes para assegurar aos trabalhadores melhores condições de trabalho, maiores salários e direitos à seguridade social, educação, saúde etc. Se houve, recentemente, uma mudança de paradigma, um retorno à diminuição do papel do Estado, não foi por mero acaso: Ela foi o resultado de acomodações no bloco histórico do poder, uma estratégia bem articulada tendo em vista a proteção dos interesses da burguesia financeira e do grande capital produtivo que visa desarticular o movimento operário e perpetuar a exploração econômica da (des)ordem capitalista.

Por isso, a ascensão do liberal-conservadorismo não deve ser entendida como o resultado inevitável da necessidade de readaptar a economia capitalista ao interesse geral, como tem sido falsamente alardeado: ela é, na verdade, o resultado de um processo muito mais complexo, que só pode ser inserido no contexto mais geral de lutas de classes, onde a burguesia e seus aliados históricos buscam minar a capacidade de resistência dos trabalhadores organizados.

O bloco histórico no poder conta com o suporte político-ideológico-militar de organizações internacionais para afastar o perigo que vem das reivindicações da classe subalterna: o FMI, o Banco Mundial, a OTAN, a OMC são os grandes patrocinadores da hegemonia político-econômica dos países ricos, e que contam com fortes aliados, inclusive nos países da periferia do sistema capitalista mundial (o governo FHC, apesar de pequenas divergências superficiais, está atrelado ao sistema de subordinação centro-periferia e, portanto, subordina os interesses do Brasil aos interesses do grande capital especulativo e parasitário que hoje domina o mundo).

Frequentemente, esses grupos se reúnem para discutir a divisão do produto da pilhagem econômica nos países pobres, e da exploração dos trabalhadores (inclusive dos trabalhadores dos países desenvolvidos). O Consenso de Washington e a reunião anual em Davos, Suíça, apesar de toda a pompa e o discurso falacioso de integração dos mercados, representam na verdade os interesses da grande burguesia dos países industrializados, com o propósito de levar adiante o delírio de promover a acumulação desenfreada de capital, abstraída de qualquer sentido humano e social. A importância do Fórum Social Mundial, realizado em Porto Alegre, está na necessidade de refundar uma teoria social capaz de afirmar a força do movimento operário e a vitalidade política da esquerda. Ela busca, na prática, realizar uma contra-ofensiva à ascensão da nova direita travestida, algumas vezes, de nova social-democracia, terceira via ou demais expressões vazias de conteúdo -, cada vez mais incapaz de esconder seus propósitos reacionários.

A reunião em Porto Alegre tem o mérito de chamar a atenção do mundo para o que está ocorrendo atualmente:crescimento do desemprego, da pobreza, da criminalidade, da destruição do meio ambiente e do abismo que separa as classes sociais. Mas, principalmente, ela pode ter o mérito de conclamar a sociedade para a construção de uma subjetividade antagônica ao capitalismo e à forma de promoção do processo de globalização. Um antagonismo que, num futuro próximo, possa assumir foros de elevação de cultura política das massas e a conquista do poder político pela esquerda. No Brasil e no mundo.

(*) O autor, Pedro Gustavo Fernandes Fassoni Arruda, é advogado)

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