Inspirada em modelo carioca, festa bauruense não teria estrutura ideal para tornar-se legítima manifestação cultural local
Além de participar ativamente do Carnaval bauruense, o professor de Técnica Redacional para os cursos de Jornalismo, Relações Públicas e Rádio e TV da Unesp de Bauru, Reginaldo Tech, realizou sua pesquisa de mestrado sobre a temática dos sambas de enredo do Carnaval carioca nos anos 80, justamente no momento em que os sambas se modificaram em função das questões sociais que permearam a história do País.
Na sua pesquisa de doutorado, ainda em desenvolvimento, Tech está retomando o tema, agora ampliando para as questões históricas, tomando como base os sambas de enredo da Escola de Samba Vila Isabel, nos anos 80.
De acordo com Tech, dentro da pesquisa houve a preocupação de se traçar, sempre, um paralelo com as questões que envolvem o carnaval realizado em Bauru. Eu já participei do carnaval das escolas de samba de Bauru, já fui da comissão organizadora, já comentei o carnaval através da imprensa e até fiz enredo, comenta Tech. Essa intensa participação possibilitou ao professor um conhecimento amplo da única manifestação da cultura popular na cidade.
Modelo carioca
O carnaval de Bauru, principalmente a partir de 1975, rompeu com o antigo modelo e começou a copiar o modelo carioca, baseado no luxo, na pompa, se constituindo nos desfiles de escolas de samba que são avaliados por um júri, como ocorre no Rio de Janeiro.
Em 1975 surgiu a escola de samba Camisa 10, em 1976, a Mocidade Independente e, em 1977, a Cartola. O surgimento dessas escolas de samba indica o início da nova tendência dentro do carnaval bauruense, diferentemente do que acontece na Bahia e diferente também de um tipo de desfile realizado em São João Del Rei (MG), que é um desfile de blocos baseados na ironia e na brincadeira. Esse tipo de desfile em que há a satirização das questões sociais, já aconteceu em Bauru, com um ou outro bloco.
Antes de 1975, existiam em Bauru, as escolas de samba pequenas, onde a idéia principal era o samba no pé, sem a preocupação com o sentido de evento. Tínhamos, o samba no pé, a bateria, o samba em si, assim como os blocos nos clubes, comenta.
Conteúdo
O grande problema dessa cópia do modelo de carnaval carioca foi justamente que se copiou apenas o modelo, e não a estrutura ou o conteúdo. De acordo com Tech, as escolas até falam de problemas locais, mas o tema recorrente são assuntos universais, que não tem relação nenhuma com as questões vivenciadas pela população local.
Escolheu-se esse modelo, que foi sendo digerido pela sociedade bauruense, e hoje nós temos o sambódromo e as escolas de samba presentes, cada uma representando um bairro, comenta.
Apesar do modelo carioca já ter sido incorporado ao carnaval de Bauru, Tech vê duas questões importantes, que quase sempre não passam de discussões. Uma é a questão do enredo, na qual as escolas não valorizam as questões locais e regionais, deixando de enfatizar aquilo que é da terra.
Além disso, há a questão da estrutura do carnaval de Bauru, que sempre é prejudicada pela falta de organização, de um pensamento mais rigoroso com relação a única festa popular da cidade.
O Carnaval é a única festa popular de Bauru e não é valorizada como tal, não traz divisas para a cidade e não é pensada o ano todo, comenta Tech. E aí residiria o maior de todos os problemas, que é a visão de carnaval como um evento comparado a um desfile de Sete de Setembro, por exemplo, sem levar em conta todo o trabalho processual que as escolas de samba poderiam realizar durante o ano.
Poder público
De acordo com Tech, o poder público municipal não enxerga o Carnaval como cultura. E não se trata de um problema somente da atual administração e sim de toda uma sucessão de prefeitos avessos à realização de uma festa legítima da cultura popular local.
As escolas de samba atuais, apesar de serem luxuosas e de grandes dimensões, não são escolas de samba, e sim agrupamentos de pessoas que fazem um desfile de carnaval. Falta uma estrutura de trabalho o ano todo, não só para arrecadar dinheiro, mas também, para difundir a cultura popular, a cultura do samba e de outros ritmos que venham a compor a cultura local.
Tech propõe que as escolas de samba estejam mais envolvidas, o ano todo, com a população do local que representam através da instituição de bibliotecas ramais e realização de campanhas de vacinação nos pátios das escolas, por exemplo. Trata-se de atribuir um caráter social, de difusão de cultura, dentro de uma atividade que já existe, comenta. As escolas de samba existem de direito e estão presentes no inconsciente coletivo, mas suas estruturas poderiam ser melhor utilizadas.
Sempre o mesmo
Na opinião de Tech, Bauru faz hoje, um Carnaval de 25 anos atrás, com a repetição do modelo a cada ano que passa.
O salto de qualidade parte, segundo Tech, de uma mudança de visão do poder público municipal, que precisa conceber o carnaval com uma festa de manifestação da cultura popular, a ser trabalhada o ano todo, como um processo baseado na estruturação das escolas a partir do envolvimento das mesmas com a comunidade.
O modelo precisa ser remodelado. Os sambistas e os carnavalescos de Bauru merecem muito mais do que o carnaval que está sendo realizado na cidade, comenta.