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Tiques

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Às vezes tenho a mania de piscar o olhos sem parar, diz a enfermeira Luzia Antero. Segundo ela, o tique a acompanha desde a adolescência e em alguns casos é tão intenso que espanta as pessoas à sua volta. Sempre tem alguém para ficar reparando e olhando com cara de espanto, mas eu mesma nem percebo, conta. Luzia diz que já está acostumada como o tique e não pensa em procurar uma solução para ele. Não acho que parar, confessa. O escriturário Daniel Almeida Filho também perdeu a esperança de vencer o tique. A cada minuto, aproximadamente, ele vira a cabeça para o lado como se quisesse tocar o ombro com o queixo. Faço isso como se fosse um exercício, para um lado e depois para o outro, não seria ruim se fosse menos freqüente, acredita. O tique aumenta de intensidade quando o trabalho aperta ou ele leva um susto. Também passa quando eu fico muito distraído, mas de repente quando penso que parou, faço de novo, por isso desisti de tentar parar, confessa.

A manifestação dos tiques, na realidade, é apenas um sinal de outros sintomas que fazem parte do histórico emocional na pessoa. Eles também estão intimamente ligados à ansiedade e a uma autocrítica muito elevada, explica a psicóloga Júlia Veronica Rodriguez Hernandez. De acordo com a psicóloga a pressão externa desempenha um fator determinante na intensidade dos movimentos. Quanto maior a pressão que a pessoa sente, maior a intensidade e a ocorrência dos tiques, mas numa situação de calma eles também acontecem. Na verdade, não é a pressão em si que causa os tiques e sim a maneira como a pessoa encara a situação ou como encara ela mesma diante daquela situação que faz com que ela fique mais tensa e manifeste mais tiques, afirma Júlia Hernandez.

Na infância

Os tiques não surgem de uma hora para outra em uma pessoa, principalmente num adulto. Se surgirem com mais intensidade, é porque a pessoa já possuía alguma predisposição. No geral, os tiques são mais encontrados nas crianças do que nos adultos, sendo que aparecem entre 6 e 8 anos, enquanto que sua maior incidência é no grupo etário de 9 a 11 anos de idade, afirma Alfredo Castro Neto, especialista em psiquiatria infantil. Os meninos são mais atingidos por este distúrbio, numa proporção de 3 para 1 menina. A incidência aumenta quando algum membro da família é portador deste distúrbio.

As crianças que apresentam tiques, geralmente, são crianças inquietas e possuem uma grande labilidade emocional (passam rapidamente do riso para o choro, e da agressão para o afeto). São também ansiosas, distraídas, impacientes, rebeldes e têm grande dificuldade para estabelecer relações com seus amigos. Estas crianças têm em comum verdadeira incapacidade para expressar suas ansiedades de maneira direta, diz o psiquiatra.

Mesmo nos casos de crianças bem adaptadas, que não causam alguma preocupação aos seus pais é possível verificar que elas são mais ansiosas, tímidas ou excessivamente imaturas para a idade.

Origem orgânica e emocional

Para se entender os tiques, é preciso analisar aspectos emocionais e orgânicos. Como explicou Júlia Hernandez, existe uma estreita relação entre a intensidade do tique e o grau de carga emocional e de ansiedade sofrida pela pessoa. O fato dos tiques quase não se apresentarem antes dos 6 anos de idade sugere que a repressão dos movimentos voluntários atua como causa deste distúrbio, já que antes dessa idade as crianças geralmente têm livre expressão da atividade motora, porém, quando alcançaram a idade escolar, lhe são impostas muitas restrições.

É possível notar ainda, em muitos casos, o aparecimento de outras perturbações psíquicas em crianças que apresentam tiques, como por exemplo: distúrbios da fala (gagueira), do sono (terror noturno e sonambulismo), da alimentação (inapetência), da sexualidade e, ainda, enurese, fobias, manias (roer as unhas ou chupar o dedo) etc.

O prognóstico pode ser muito pior para aquelas crianças cujos pais tiveram tiques que persistiram até a vida adulta e para aquelas que têm uma história familiar de tiques. As crianças cujos tiques começam entre as idades de 6 a 8 anos têm melhor prognóstico que aquelas cujos tiques começaram mais cedo ou mais tarde. Aquelas cujos tiques envolvem os membros ou o tronco tendem a ter pior prognóstico que as crianças com tiques apenas faciais.

O que fazer

A criança que apresenta tique necessita de adequada psicoterapia individual, indica Alfredo Castro Neto. Quanto mais cedo for tratada, melhor será para ela, pois assim evita que sofra com os tiques na infância e mais tardem na vida adulta. A orientação familiar também está indicada.

Na verdade, os pais devem evitar fazer observações a respeito dos tiques. Não adianta forçar o filho a controlar voluntariamente esses movimentos, pois isso só poderá ser possível por breves espaços de tempo. É preciso lembrar que os tiques são movimentos musculares automáticos e, por isso, involuntários. Em outras palavras, o aparecimento deles é sempre algo que foge ao controle da criança. Daí, quanto mais ela estiver prestando atenção para este sintoma, mais freqüentemente o repetirá, pois sua ansiedade aumentará.

Preconceito

As pessoas que possuem com tiques, no geral reclamam das reações alheias quando apresentam movimentos involuntários. Fico sem graça porque sei que todo mundo fica me olhando, diz Otávio Castro, que faz movimentos repetidos com a cabeça para os lados. F. A. G., diz que o pior são as pessoas que riem que ela pisca excessivamente: Depois que elas percebem que é um tique, riem ou ficam imitando, é humilhante. As crianças também não escapam. Já fui reclamar na escola do meu filho porque as outras crianças riem dele, diz a dona de casa A. B. O pequeno Daniel é muito ativo e tem movimentos incontroláveis no pescoço, além da mania de chupar o dedo. A mãe diz que vai procurar ajuda médica.

La Tourette: uma estranha síndrome

O compositor Wolfgang Amadeus Mozart era hiperativo, apresentava tiques, impulsos irrefreáveis e comportamentos motores estranhos, além de certa inclinação para o uso de palavras sem sentido.

O famoso escritor inglês Samuel Johnson apresentava estranhos rituais e compulsões, tiques, gesticulações e exclamações involuntárias.

David Aldridge, um conhecido músico de jazz, afirmou que batendo sobre uma mesa podia dissimular os tiques de sua mão e perna, tendo ajudado muito na execução de suas músicas.

Mozart, Johnson e Aldridge apresentavam um estranho distúrbio chamado de Síndrome de Gilles de La Tourette. Os portadores desta síndrome apresentam tiques motores múltiplos e pelo menos um tique vocal por algum tempo durante o distúrbio (não necessariamente concomitante), duração de mais de um ano (talvez intermitente), ocorrência de tiques muitas vezes ao dia (geralmente em acessos) e localização, número, freqüência, complexidade e gravidade variáveis (aumentando e diminuindo).

Um fato importante é que a o número e tipo de sintomas pode variar de uma pessoa para outra, mas também os sintomas particulares evidentes em qualquer tempo podem variar na mesma pessoa. Segundo o psiquiatra Alfredo Castro Neto, existem pais que chegam a se queixar do tique do mês.

Uma outra variável afetando o quadro clínico é a extensão de tempo do início dos sintomas até o momento da avaliação diagnóstica. Quanto mais longo este tempo tiver sido, mais severo são os problemas de aprendizagem e os sintomas emocionais secundários, depressão e distúrbio da sociabilidade.

Um dos tiques verbais bastante encontrados nesta síndrome caracteriza-se por palavras, frases ou expressões explosivas que parecem ter um significado, embora não sejam expressadas com a intenção de transmitir o significado. Muito freqüentemente estas palavras são obscenas, daí o termo coprolalia. Essas podem ser interpostas inesperadamente no meio de uma conversa normal ou podem escapar explosivamente durante o silêncio. Os tiques verbais não necessitam ser obscenos, mas são freqüentemente insultantes e hostis no conteúdo e, às vezes, no afeto. A coprolalia ocorre em 50% dos casos.

Além dos tiques, notam-se inúmeros outros sintomas, como por exemplo: baixa tolerância às frustrações; falta de controle dos impulsos; hiperatividade; dificuldade de atenção. Estes sintomas precedem os tiques. Nota-se também distúrbios obsessivo-compulsivos e esses, às vezes, constituem a queixa principal. Cerca de 74% das pessoas com Síndrome de Tourette revelam ter sintomas obsessivo-compulsivos, como por exemplo:

- Pensamentos desagradáveis que vêm à mente contra a própria vontade;

- Tempo exagerado para completar a higiene (lavar as mãos sem parar);

- Lentidão obsessiva;

- Necessidade imperiosa de conferir coisas (se a porta esta fechada, etc).

A Síndrome de Tourette começa, em geral, entre os 2 e os 15 anos de idade. Seu curso é instável, perdurando habitualmente por toda a vida, com remissões da duração variável, de alguns meses até vários anos. Um fato importante é que esta síndrome é transmitida geneticamente e predominante em homens, em uma relação de três para cada mulher. Acredita-se que haja uma deficiência na neurotransmissão da dopamina (substância química que manda mensagem de uma célula nervosa para outra) e prevalência de um gene, o aleto A1 do gene receptor de dopamina, explica Castro Neto.

Há concordância geral atualmente de que pessoas com a Síndrome de Tourette têm atividade dopamínica cerebral excessiva (provavelmente devido a uma supersensibilidade do receptor).

Para alguns autores, os tiques nervosos podem refletir hiperatividade de dopamina, enquanto que a coprolalia e distrabilidade são devidas a problemas de noradrenalina e serotonina. O tratamento deverá ser psicofarmacológico e psicoterápico. O psicofarmacológico visa bloquear a ação da dopamina, enquanto que a psicoterapia objetiva adequar melhor o portador desta síndrome na sociedade.

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