Tenho criticado com alguma veemência os gastos de propaganda do governo federal, que me parecem exagerados e, em muitos casos, certamente desnecessários. O contribuinte deve se espantar com a freqüência de anúncios de empresas estatais e bancos oficiais, por exemplo, que hoje habitam os horários nobres de TV, sem que se consiga perceber exatamente que espécie de produto estão vendendo ou que mensagem pretendem transmitir ao distinto público. O mais clássico desses exemplos foi o do Banco do Brasil que anunciava solenemente o Banco do Brasil é o Banco do Brasil...
É preciso reconhecer, no entanto, que em alguns momentos se justifica o recurso à campanhas de propaganda em reforço à divulgação de assuntos de real interesse público.
É o caso da ação que vem sendo desenvolvida pelo Ministério da Saúde para difundir o uso dos medicamentos genéricos. Há dois aspectos a considerar nessa questão: em primeiro lugar é o fato que o preço dos remédios é muito alto, situando-se num patamar que os torna inacessíveis à população carente e até mesmo aos cidadãos de classe média que necessitam de medicação contínua. Os preços são altos porque o lançamento de um novo produto farmacêutico é precedido de pesquisas de longa maturação que exigem investimentos também elevados. O segundo ponto é que depois que eles são patenteados e as pessoas se acostumam à marca, sua substituição é muito difícil. As indústrias farmacêuticas que fizeram os investimentos contam com a fidelidade do consumidor ao produto, quase que uma escravização à marca, de tal sorte que mesmo quando vence a patente as empresas que poderiam fabricar um similar temem enfrentar a competição.
Para vencer essa barreira é necessário um intenso trabalho de persuasão junto ao consumidor. Nos Estados Unidos, onde a presença do remédio genérico já é coisa antiga, com preços equivalentes a 40% do produto de marca, sua utilização depois de dois anos de lançado no mercado atinge apenas a metade dos usuários. Isso mostra o poder que tem a marca.
É por essa razão que se justifica o esforço a que tem se dedicado o ministro José Serra para fazer vingar o programa de produção e difusão dos medicamentos genéricos que podem ser vendidos a preços bem reduzidos. Ele resolveu enfrentar o problema empenhando a estrutura do Ministério da Saúde numa campanha vigorosa para convencer as pessoas a adotar os genéricos, reduzindo os custos do tratamento das doenças. Os resultados já começam a surgir, principalmente junto às populações mais carentes.
(*) Antonio Delfim Netto é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USPE-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br